Procura-se um líder que diga não aos latidos da OTAN. Artigo de Domenico Gallo

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20 Mai 2022

 

"O processo que vivemos leva-nos diretamente à catástrofe mas pode ser detido, bastaria que um único líder se levantasse e dissesse não, porque o alargamento da OTAN exige a unanimidade e certamente não será Erdogan quem nos salvará", escreve Domenico Gallo, juiz italiano e conselheiro da Suprema Corte de Cassação da Itália, em artigo publicado em Il Fatto Quotidiano, 19-05-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Os sinos da Catedral de Nossa Senhora da Anunciação em Jerusalém dobravam enquanto uma enorme multidão se abria à passagem do caixão de Shireen Abu Akleh por todo o percurso de Sheikh Jarrah até a Catedral da Cidade Velha, quando entrou em ação a turba truculenta da polícia israelense que lançou granadas de efeito moral e agrediu o cortejo com cassetetes, chegando a bater até nos homens que estavam carregando o caixão nos ombros. O caixão balançou e esteve prestes a cair no chão. As imagens chocantes dessa agressão a um cadáver, mostradas na TV, circularam pelo mundo e despertaram alguns segundos de indignação nos líderes políticos ocidentais, sempre prontos a fechar um olho diante das "práticas" de Israel. Josep Borrell, Alto Representante da UE para a Política Externa, disse que "a União Europeia está chocada" - acrescentando que "permitir uma despedida pacífica e deixar que pessoas em luto pranteiem em paz sem moléstias e humilhações, é o mínimo respeito humano". Indignação televisiva, destinada a durar um instante e desaparecer sem qualquer consequência política.

 

 

Shireen Abu Akleh era uma jornalista palestina com cidadania estadunidense que vinha relatando a realidade da ocupação militar na Cisjordânia há mais de vinte anos. Em 11 de maio, ela estava documentando a incursão do exército israelense no campo de refugiados de Jenin quando um atirador israelense decidiu que tinha que parar. Em Israel há o máximo respeito pela liberdade de imprensa, mas... quando é demais, é demais! Infelizmente esta é apenas uma gota no mar de barbárie que nos cerca e nos faz presenciar todos os dias o rio de sangue que corre na Ucrânia, que ninguém quer parar até que o agressor seja derrotado.

 

 

No domingo passado, na cúpula dos ministros das Relações Exteriores da OTAN em Berlim, foi celebrado com um tripúdio de amorosos assensos (exceto o dissenso da Turquia), o anúncio da Suécia e da Finlândia de querer ingressar na OTAN, abandonando para sempre o status de nações neutras. O secretário Stoltenberg classificou-o como um evento de importância "histórica": "Sua participação na OTAN aumentará nossa segurança comum e demonstrará que as portas da OTAN estão abertas e a agressão não compensa".

 

Neste último ponto concordamos com Stoltenberg, Putin desencadeou uma guerra para prevenir o ingresso da Ucrânia na OTAN e até agora só conseguiu que dois países historicamente neutros entrassem na esfera de influência da OTAN. É verdade: a agressão não compensa, mas as contas são feitas no final. Com a entrada da Finlândia, que tem 1.340 km de fronteira com a Rússia, o cerco da Rússia pela OTAN estaria completo.

 

A questão deve ser enquadrada em uma perspectiva invertida: não é a Suécia e a Finlândia que entram na OTAN, é a OTAN, ou seja, sua organização militar - uma articulação do dispositivo militar estadunidense - que se expande para os territórios da Suécia e da Finlândia, chegando perto de Moscou. A conclusão é que duas potências nucleares, entre si hostis, chegarão a um estreito contato uma com a outra. A crise dos mísseis russos instalados em Cuba em 1962 seria uma ninharia em comparação com a situação que se criaria com a expansão do dispositivo militar estadunidense às fronteiras Finlândia-Rússia.

 

Alguns dias atrás, o Papa Francisco declarou que "o ladrar da OTAN às portas da Rússia", em sua opinião, levou Putin a reagir e desencadear o inferno na Ucrânia: "Uma ira que não posso dizer se foi provocada, mas com certeza talvez facilitada". Agora esse latido tornou-se um ladrido, um ladrido lúgubre que anuncia que estamos em um plano inclinado no fundo do qual está a terceira guerra mundial.

 

Neste ponto o problema é a concepção de segurança. A receita que os EUA impuseram à Europa é aquela de fortalecer os dispositivos militares (colocando armas nucleares) para combater uma potência definida como hostil. Isso significa uma corrida ao rearmamento para enfrentar o inimigo de posições de maior força. O inimigo, por sua vez, é pressionado a aumentar seu poder militar para enfrentar melhor o bloco adversário. Situação ainda mais perigosa porque – como nos alerta Marco Revelli - "tudo isso acontece em meio a um avassalador processo de desconstrução de todos os dispositivos de intermediação e garantia contra os riscos de uma perda de controle dos conflitos, pacientemente construídos nas décadas da Guerra Fria, para impedir que se tornasse quente". Dentre esses dispositivos, as faixas de neutralidade de países como Suécia e Finlândia desempenhavam um papel importante.

 

Uma política de segurança deve visar à construção de uma segurança comum, não pode aumentar a segurança de um bloco político-militar em detrimento do outro. A segurança comum é construída acordando medidas de desarmamento gradual mútuo e diminuindo a tensão entre nações potencialmente hostis. Nos momentos mais sombrios da Guerra Fria, líderes como Aldo Moro e Willy Brandt conseguiram dissociar-se da lógica da guerra e organizar uma Conferência sobre Segurança e Cooperação na Europa, alicerçada no princípio da busca da segurança coletiva, marcando um passo significativo para a redução das tensões na Europa entre a URSS e o bloco ocidental. O processo que vivemos leva-nos diretamente à catástrofe mas pode ser detido, bastaria que um único líder se levantasse e dissesse não, porque o alargamento da OTAN exige a unanimidade e certamente não será Erdogan quem nos salvará.

 

Haverá na Itália um líder capaz de dizer não?

 

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