Viver o Evangelho: submeter-se à Palavra

Foto: Josean | Cathopic

01 Abril 2022

 

"As ordens religiosas nasceram - e nascem - da 'obediência ao Evangelho'. Em vinte séculos, observa o cardeal Raniero Cantalamessa, pregador para a Casa Papal desde 1980, as novidades que renovaram a Igreja e deram origem a novas vocações e formas de vida surgiram justamente com esta intenção: obedecer, seguir e viver o Evangelho".

 

O comentário é de Patricia Fachin, jornalista, graduada e mestre em Filosofia pela Unisinos.

 

Os diversos carismas dentro da Igreja, expressão de sua unidade e diversidade enquanto Corpo de Cristo, nem sempre são compreendidos. Antes, são objeto de disputa e de reivindicação interna sobre quem melhor manifesta, compreende e é fiel à prática do Evangelho. Entretanto, é interessante notar que as ordens religiosas nasceram - e nascem - da "obediência ao Evangelho". Em vinte séculos, observa o cardeal Raniero Cantalamessa, pregador para a Casa Papal desde 1980, as novidades que renovaram a Igreja e deram origem a novas vocações e formas de vida surgiram justamente com esta intenção: obedecer, seguir e viver o Evangelho.

 

Em um texto em que reflete sobre a obediência a Deus na vida cristã, Cantalamessa apresenta exemplos de como esse desejo deu origem às ordens religiosas, sejam elas monásticas, mendicantes, regrastes, clérigos regulares, ou às congregações religiosas:

 

"Certo dia o jovem Antão entrou numa igreja de Alexandria, no Egito, e ouviu a proclamação: Vai e vende tudo o que tens; doa-o aos pobres, depois vem e segue-me! Ele tomou esta palavra do Evangelho como uma ordem pessoalmente dirigida a si por Deus, naquele momento, e se fez monge. Também a ordem franciscana nasceu de uma análoga obediência ao Evangelho. Certo dia, nos inícios de sua conversão, Francisco de Assis, entrando numa igreja, ouviu o sacerdote proclamar o Evangelho que diz: Não leveis nada pelo caminho, nem bastão, nem alforje, nem pão, nem dinheiro, nem tenhais duas túnicas... (Lc, 9,3). Ouviu-o também ele, como uma ordem pessoalmente dirigida a si por Deus, naquele momento, e exclamou: 'Isto quero, isto rogo, isto desejo ardentemente fazer de todo o coração!', e assim teve início sua nova forma de vida".

 

 

 

Se, de um lado, as ordens religiosas nascem do desejo de obediência e de vivência do Evangelho, de outro, surgem dúvidas acerca de como viver o Evangelho e o que significa "obediência" na vida prática de cada um.

 

Ao longo da história da Igreja, esclarece Cantalamessa, os entendimentos foram variados:

 

"Na Idade Média distinguem-se uma obediência franciscana, ligada à pobreza, que insiste na renúncia da própria vontade; e uma obediência dominicana, mais aberta ao apostolado, que acentua 'o bem comum' a ser alcançado pela união das vontades. Na época moderna, com Santo Inácio de Loyola, acentuo-se o radicalismo da obediência ('cega, como cadáver'). Atualmente, depois do Concílio, fala-se de preferência em uma obediência responsável, dialogaste, ou caritativa. Todas elas, no seu ambiente e no seu tempo, foram autenticas expressões da vitalidade da Igreja e produziram uma maravilhosa florescência de obras e de santidade".

 

Seja como for, observa, obedecer "quer dizer submeter-se à Palavra, reconhecer-lhe um real poder sobre ti". Assim como no passado a motivação para praticar a obediência foi o desejo pelo entendimento da Palavra, hoje, pontua, "a redescoberta da Palavra de Deus na Igreja deve corresponder a uma redescoberta da obediência. Não é possível cultivar a Palavra de Deus sem cultivar também a obediência. Do contrário, nos tornamos ipso facto desobedientes".

 

 

"Desobedecer (parakouein)", ao contrário, "significa ouvir mal, distraidamente. Podemos dizer que significa ouvir com desinteresse, de modo neutro, sem sentir-se vinculado àquilo que se ouve, conservando o próprio poder decisório perante a Palavra".

 

Os desobedientes são aqueles que não se perguntam sobre o problema da prática:

 

"Os desobedientes são os que escutam a Palavra, mas - como disse Jesus - não a põem em prática (cf. Mt 7,26). Não tanto, porém, no sentido de que deixam a prática de lado, mas no sentido de que nem mesmo se põem o problema da prática. Estudam a Palavra, mas sem a ideia de que a ela se devem submeter; dominam a Palavra, no sentido de dominarem os instrumentos de análise, mas não querem ser dominados por ela; querem conservar a neutralidade condizente a todo o estudioso, nos confrontos com o objeto do próprio estudo. Pelo contrário, o caminho da obediência abre-se diante daquele que decide viver 'para o Senhor'; e ela é uma exigência que nasce da verdadeira conversão".

 

É possível viver para o Senhor de muitas maneiras. Aqui, dois contemporâneos atentos à Palavra nos ajudam a compreender o que isso significa ou pode significar na vida de cada um de nós: na clausura, praticando atos cotidianos para a maior gloria de Deus e rezando pelas conversões dos corações e por todos que estão em missão em nome de Cristo e seu Evangelho, como fez a doutora mais jovem da Igreja, Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face, ou combatendo um regime autoritário, como o fez o teólogo luterano Dietrich Bonhoeffer, que, por amor a Cristo, aceitou, com alegria, morrer enforcado depois de se recusar a dobrar os joelhos diante de Hitler.

 

 

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