O que está por trás do desafio do Vaticano aos bispos ideólogos

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14 Mai 2021

 

O alerta aos bispos foi feito na Basílica de São Pedro na Sexta-Feira Santa por um frei capuchinho de 86 anos de idade. Naquele solene dia de penitência, o cardeal Raniero Cantalamessa, vestindo o simples hábito marrom de um franciscano, em vez das vestes de um Príncipe da Igreja, pediu que os pastores fizessem um exame de consciência sobre o seu papel em alimentar as divisões da Igreja.

A reportagem é de Christopher Lamb, publicada por The Tablet, 13-05-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Seu apelo não foi atendido por aqueles bispos dos Estados Unidos que estão determinados a recusar a Comunhão ao presidente Joe Biden e a outros políticos católicos por apoiarem o aborto legal.

As divisões da Igreja contemporânea, argumentou Cantalamessa durante a sua homilia, não têm a ver com os fundamentos da fé cristã, mas são alimentadas por uma “opção política [que] se une a uma ideologia”. Os bispos, disse ele, devem se perguntar: estou conduzindo o meu rebanho à posição de Jesus ou à minha própria?

Após o aviso de Cantalamessa, veio do Vaticano uma intervenção decisiva. O cardeal Luis Ladaria, prefeito do escritório doutrinal da Santa Sé, pisou no freio, nesta semana, de movimentos dentro da Conferência dos Bispos dos Estados Unidos para traçar uma política nacional sobre a aptidão dos políticos pro-choice para receberem a Comunhão.

Lendo a carta de Ladaria e falando com algumas pessoas em Roma, pode-se tirar a seguinte conclusão: qualquer plano nacional para negar a Comunhão ao presidente Biden e a outros políticos não tem o apoio de altas autoridades vaticanas. E podemos supor que o Papa Francisco concorda.

Isso não significa que o papa e a Santa Sé se oponham, em princípio, à recusa da Comunhão a políticos que buscam políticas antivida e que não protegem a vida do nascituro. Mas a ideia de uma política episcopal sobre o assunto vai além das normas da lei e da prática católicas.

Falando disso, uma fonte da Igreja disse que as considerações do Direito Canônico sobre a recusa da Comunhão a um indivíduo não foram projetadas para serem punitivas, mas sim restaurativas. Elas têm a ver, segundo a fonte, com o fato de “trazer uma pessoa de volta a uma maneira adequada de agir”, e “somente um pastor pode fazer isso, não uma Conferência [de bispos]. Toda a questão de uma política sobre isso é impraticável”.

A questão sobre se Biden deve deixar de receber a Comunhão, portanto, envolve ele e o seu bispo, enquanto qualquer política dos bispos dos Estados Unidos corre o risco de politizar a Eucaristia, algo que preocupa outros bispos do país, como Robert McElroy, de San Diego. A causa pró-vida também não é ajudada por uma falta de consistência.

Vale a pena lembrar que as lideranças da Igreja que buscam barrar o presidente da Comunhão devido a suas políticas sobre o aborto ficaram amplamente em silêncio sobre o impacto de uma política de imigração perseguida pelo governo do presidente Trump, que separou crianças das suas famílias. As políticas antivida existem em todas as formas e tamanhos.

Recusar a Comunhão a políticos católicos pro-choice não é a única questão fortemente contestada no qual o Vaticano interveio recentemente. Isso se segue à decisão da Congregação para a Doutrina da Fé contra o fato de a Igreja oferecer bênçãos a casais do mesmo sexo. Curiosamente, a carta de Ladaria veio à tona no dia em que alguns padres da Alemanha realizaram tais bênçãos desafiando a decisão de Roma.

Ambos os temas controversos sublinham o delicado ato de equilíbrio que o papa deve realizar para manter a unidade. É algo ainda mais desafiador quando Francisco busca fomentar um modelo de Igreja mais sinodal e descentralizado, em que os bispos locais tenham maior liberdade para responder às questões controversas que surgem em seus territórios.

Vale a pena notar as diferenças significativas na resposta de Roma às bênçãos para casais do mesmo sexo e às questões em torno da Comunhão. Em relação às bênçãos, a Congregação respondeu “negativamente” – uma questão que havia sido feita anonimamente. A decisão foi amplamente considerada uma resposta ao Caminho Sinodal alemão, que está discutindo questões sobre sexualidade e a possibilidade de abençoar casais do mesmo sexo.

Mas a Congregação emitiu seu documento sem fazer consultas, nem no Vaticano, nem em outras Conferências Episcopais. Embora Francisco tenha concordado com a decisão, entende-se que ele não ficou feliz com a forma como a questão foi tratada.

Em contraste, a carta aos bispos dos Estados Unidos ofereceu um marco teológico para abordar essa questão, aconselhando o diálogo, mantendo a unidade entre o episcopado e evitando a impressão de que o aborto e a eutanásia são os “únicos assuntos graves do ensino moral e social católico”. A carta de Ladaria dá a entender que o papa se envolveu na sua redação e sugere que, no futuro, a resposta aos temas controversos será focada em como chegar a um julgamento discernido, em vez de um “sim” ou “não” prescritivo.

O Caminho Sinodal alemão tem recebido muitas críticas, especialmente nos Estados Unidos, por ser uma ameaça à unidade católica. Para o influente doador católico Tim Busch – que descreveu a presidência de Trump como um “tempo de luz” – o papa precisa agir agora para evitar um “cisma” alemão. Ele também tem pressionado para que Biden não receba a Comunhão.

Embora o Caminho Sinodal alemão não esteja isento de problemas e dificuldades, a alegação de que ele está alimentando o cisma é fortemente contestada. O arcebispo Mark Coleridge, presidente da Conferência Episcopal Australiana, descreveu a acusação contra os alemães como “alarmista e profundamente inútil”.

Apesar da decisão do Vaticano, algumas pessoas da Igreja dos Estados Unidos podem continuar argumentando que a Comunhão ainda deve ser recusada a Biden. Se fizerem isso, no entanto, sua afirmação de que são os alemães que estão causando a divisão começará a soar vazia.

Em sua homilia da Sexta-Feira Santa, o cardeal Cantalamessa, pregador da Casa Papal, disse que as ameaças representadas pela polarização política não são nenhuma novidade – elas também existiam no tempo de Jesus, com quatro partidos diferentes que competiam por influência.

Mas, argumentou Cantalamessa, Jesus “resistiu energicamente à tentativa de ser arrastado para um lado ou para outro”, e os primeiros cristãos seguiram seus exemplos.

“Fomentar a divisão é a obra por excelência daquele cujo nome é ‘diabolos’, isto é, o divisor, o inimigo que semeia o joio”, disse Cantalamessa.

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