IECLB “forma” pastores/as militantes marxistas e olavistas? Artigo de Edelberto Behs

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07 Julho 2021

 

"Para espanto de quem assiste essa disputa, e seguindo a Aliança na sua lógica 'olavista', a IECLB vem formando obreiros e obreiras militantes, tanto de esquerda quanto de direita. O elástico das acomodações parece que chegou a um ponto de ruptura", escreve Edelberto Behs, jornalista, que atuou na Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil – IECLB de 1974 a 1993, como repórter e editor do Jornal Evangélico e depois como assessor de imprensa.

 

Eis o artigo.

 

Ancorado na imagem de martelos vermelhos enquadrados em um círculo amarelo, a página da Aliança Luterana no Facebook conclama as comunidades da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) a não aceitarem teólogos “formados em São Leopoldo”, ou seja, na Escola Superior de Teologia, “há 75 anos formando militantes” (de esquerda, claro).

 

Imagem: reprodução de tela enviada por Edelberto Behs.

 

A página traz imagens de teólogos/as “militantes”, como os pastores Carlos Arthur Dreher, Rudolfo Borck, Odair Braun, as pastoras Maria Grenzel Gressler, Lusmarina Campos. Mas a pegada mais forte é dirigida a duas pastoras: Renate Gierus e Romi Bencke, secretária executiva do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic). 

O patrulhamento está presente até mesmo em momentos de oração. Renate Gierus é filmada de costas, voltada ao altar, num culto na Casa Matriz de Diaconisas realizado no dia 19 de maio de 2019, quando a pastora faz, na análise dos aliancistas, uma oração “que se desdobra em um desrespeitoso discurso político”, que trouxe “desinformação sobre a reforma da previdência e sobre os repasses a (sic) educação com o objetivo de propaganda partidária contra o governo. Vergonha (sic) a IECLB!” 

A secretária executiva do Conic também mereceu vídeo da participação dela no evento “Corpos Livres, Estado Laico”. Ela contou, então, o que a motivou a sair de casa para estudar, e comentou sua trajetória formativa na EST e os debates teológicos que ali aconteciam. A pastora Márcia reagiu, na página da Aliança no Facebook, ao uso que fizeram de sua imagem. 

“Em primeiro lugar, as Faculdades EST não têm nada a ver com a fala onde narro um episódio que vivi em 1992, no contexto das reflexões sobre os 500 anos de evangelização da América Latina. Para quem não sabe o que este processo de reflexão significou, foi toda uma autocrítica sobre a aliança entre colonialismo e cristianismo. A Bíblia, naquele contexto, serviu para legitimar violências contra povos originários, violência que se repetiu ontem (23 de junho) na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Federal) com a decisão sobre o Marco Temporal”. A Bíblia, afirmou a pastora, “para alguns povos foi instrumento para justificar violência”. 

A réplica de Márcia Bencke inicia comentando que “este grupo (a Aliança Luterana), como todos os demais grupos que se identificam com o sistema de crenças do Olavo de Carvalho e com a cultura política bolsonarista tem como único objetivo atacar instituição e expor mulheres”. São “arautos de um luteranismo dogmático, que não reconhece a perspectiva da graça, se locupletam com a desmoralização do outro e das outras”. 

Em seguida veio a tréplica da coordenação da Aliança, naturalmente sem rosto: “Primeiro: queremos deixar claro que, ao contrário do que diz sua ‘nova narrativa’, não sabemos e nem queremos saber sobre o que pensa o ‘astrólogo’ Olavo de Carvalho, até porque não é muito coerente com a confessionalidade luterana. Segundo: Jair Bolsonaro é consequência das ações tomadas pelo partido e ideologia que você (Romi) defende, não fosse pela corrupção instalada pelo PT e cia durante todos os anos que estiveram no poder, ele (Bolsonaro) não teria deixado de ser um deputado do baixo clero até hoje”. Do baixo clero que, sub-repticiamente, a Aliança defende, quando mostra, por exemplo, o quadro de pessoas vacinadas contra a covid-19 no Brasil

Também o pastor Verner Hoeflemann, professor de Bíblia na EST há anos, se manifestou. Ele não nega que jamais ensinou estudantes a ler a Bíblia de maneira ingênua e fundamentalista, “de modo que sua interpretação se tornasse justificativa para opressão e sofrimento. Penso que o próprio Cristo jamais interpretou as Escrituras desse modo”. 

Recorrendo, covardemente, ao anonimato os “olavistas” da Aliança Luterana o justificam por medo de represálias na igreja. Eles se apresentam como “pessoas preocupadas com os rumos da IECLB e o aparelhamento partidário que está entranhado em todas as organizações ligadas à mesma (também a Aliança?), resguardamos a identidade dos autores (pelo visto sem contar com mulheres no grupo) por receio das conhecidas perseguições dentro da IECLB”. 

Quer dizer, os aliancistas escondem sua identidade com medo de perseguições na igreja, mas incentivam as comunidades a perseguirem pastores e pastoras formadas pela EST. Muito ético, fraterno, coerente e evangélico!! 

Para acomodar, no passado, as tensões teológicas em seu meio a IECLB adotou, além da EST, sua primeira casa de formação no campo da Teologia, outras duas instituições, que não recebem qualquer corretivo da Aliança. São a Faculdade Evangélica em Curitiba, iniciada pelo Movimento Encontrão, e a Faculdade Luterana de Teologia em São Bento do Sul, em Santa Catarina, iniciada pela Missão Evangélica União Cristã (Meuc), que se reconhece na tradição da Reforma e do pietismo. 

A Aliança entende, pois, que só a EST tem “ideologia”. O posicionamento da Aliança, claro, não tem nenhuma coloração política! Na página da Aliança no Facebook consta, no entanto, postagem de vídeo de 3,37 minutos, no qual uma moça, falando espanhol, explica o que é populismo, citando entre populistas Getúlio Vargas, Perón, Hugo Chávez e o ataque desses “enganadores” a fatores externos, entre eles os Estados Unidos, pelo fracasso de suas políticas. 

Para espanto de quem assiste essa disputa, e seguindo a Aliança na sua lógica “olavista”, a IECLB vem formando obreiros e obreiras militantes, tanto de esquerda quanto de direita. O elástico das acomodações parece que chegou a um ponto de ruptura.

 

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