3º Encontro Mundial dos Movimentos Populares: seu significado

Imagem: Flickr

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

06 Janeiro 2017

"Esses Encontros dos Movimentos Populares com o Papa representam (como já disse) uma verdadeira revolução na Igreja, uma 'revolução evangélica' radical. Neste artigo faço algumas considerações e reflexões sobre o significado do 3º EMMP", escreve Frei Marcos Sassatelli, frade dominicano, doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP) e professor aposentado de Filosofia (UFG).

Eis o artigo.

É urgente “os pobres deixarem de ser vítimas de políticas sociais, definidas sem a sua participação, para se tornarem protagonistas de um processo de mudança, que lhes permita o acesso aos direitos mais sagrados como a terra, teto e trabalho” (Juan Grabois)

De 2 a 5 de novembro de 2016 - a convite de Papa Francisco - realizou-se no Vaticano (Roma - Itália) o 3º Encontro Mundial dos Movimentos Populares (3º EMMP), com a participação de 170 delegados e delegadas de 65 países. Do Brasil, participaram integrantes dos Movimentos: Conselho de Entidades Negras (CONEM), Central dos Movimentos Populares (CMP), Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) - La Via Campesina, Movimento de Mulheres Camponesas (MMC), Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), União Nacional Por Moradia Popular (UNMP) e outros.

Nos quatro dias do Encontro, foram debatidos os eixos que historicamente marcam o evento e preocupam tanto os Movimentos Populares como o Papa Francisco: Terra, Teto (Casa) e Trabalho. Neste Encontro abriram-se também novas discussões, ampliando as perspectivas de análise e de luta, sobre: Povo e Democracia, Território e Natureza, Migração e Refugiados.

Segundo Juan Grabois, da Comissão Organizadora do Encontro, “há um grande número de Organizações integradas pelos excluídos e excluídas, que não estão resignados à miséria que lhes foi imposta e resistem com solidariedade ao paradigma tecnocrático atual. O diálogo entre nós e a Igreja tem o objetivo de acompanhar, incentivar e visibilizar esses processos que surgem das bases populares". Diz ainda: “os 3-T (Terra, Teto, Trabalho) continuam a ser o coração dos nossos Encontros; direitos estão sendo violados por um sistema injusto, que deixa milhões de camponeses sem terra, famílias desabrigadas e trabalhadores sem direitos. Por isso os principais protagonistas de nossos Encontros são os três setores sociais mencionados, marginalizados do campo e da cidade”.

No dia 2 à tarde aconteceu o Painel de Abertura, realizado pelo Comitê de Organização: Card. Peter Turkson, Pontifício Conselho da Justicia e da Paz - Vaticano; João Pedro Stédile, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) - La Vía Campesina - Brasil; Juan Grabois, Movimento de Trabalhadores Excluídos (MTE) - Confederação de Trabalhadores da Economia Popular (CTEP) - Argentina; Jockin Arputham, National Slum Dwellers Federation of India - Slum Dwellers International (SDI) - India; Xaro Castelló, Hermandad Obrera de Acción Católico (HOAC) - Movimento Mundial de Trabalhadores Cristãos (MMTC) - Espanha.

Com testemunhos concretos, representantes dos cinco continentes, relataram a situação de suas democracias, que muitas vezes são somente de fachada. Falaram das condições precárias e da violação dos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras, da trágica condição feminina e da marginalidade.

O intercâmbio e a partilha das delegações dos países presentes concluíram no dia 5 de novembro com o “Discurso do Papa Francisco aos participantes no 3º EMMP”. No Encontro foram aprovados os Documentos finais: “Propostas de ação transformadora assumidas pelos Movimentos Populares do mundo, em diálogo com o Papa Francisco” e “Síntese dos trabalhos de grupo: estratégias comuns em todas as linhas de ação”

Esses Encontros dos Movimentos Populares com o Papa representam (como já disse) uma verdadeira revolução na Igreja, uma “revolução evangélica” radical. No 1º Encontro, o cardeal Turkson - presidente do Pontifício Conselho Justiça e Paz - ressaltou que se trata de uma novidade absoluta. “Pela primeira vez - disse à época - um Papa convocou as lideranças dos Movimentos Populares para um Encontro”.

Conforme afirma João Pedro Stédile (MST), o Papa é realmente “um homem de muita coragem”. “Esse processo de debates e diálogos entre Francisco e os Movimentos Populares partiu de uma vontade política do pontífice: a de dialogar e dar protagonismo aos Movimentos Populares em todo mundo, como estímulo à organização dos trabalhadores e dos mais pobres, como esperança e necessidade para a mudança do sistema capitalista”.

Neste artigo faço algumas considerações e reflexões sobre o significado do 3º EMMP. Em outros artigos, destacarei os pontos marcantes do Discurso de Francisco aos participantes no 3º EMMP e o conteúdo extraordinário dos Documentos Finais. São luzes e, ao mesmo tempo, um programa de lutas para nossa militância nos Movimentos Populares e nas Pastorais Sociais e Ambientais.

Qual é, pois, o significado do 3º EMMP? O que ele representa? Em primeiro lugar, o 3º EMMP teve o objetivo de dar continuidade ao 1º, realizado no Vaticano de 27 a 29 de outubro de 2014, e ao 2º, que aconteceu em Santa Cruz de la Sierra na Bolívia de 7 a 9 de julho de 2015. Em segundo lugar, teve também o objetivo de retomar, aprofundar e ampliar os temas desses Encontros.

Baseando-se no método ver-julgar-agir (analisar-interpretar-libertar), Juan Grabois diz que podemos definir “o primeiro Encontro como o do conhecimento recíproco entre nós e o Papa. O segundo como o do discernimento e da reflexão, sintetizados por Francisco em três diretrizes: pôr a economia a serviço dos povos, construir a paz e a justiça, e defender a Mãe Terra. Agora, cabe a nós agir. Já fazemos isso nos respectivos países. Trata-se de estabelecer uma maior coordenação e compartilhar as ‘boas práticas’".

Como sempre, o Papa Francisco - em seu Discurso aos participantes no 3º EMMP - coloca-se no meio deles e delas num plano de igualdade, como um irmão de caminhada que está em plena sintonia com os anseios e as aspirações dos Movimentos Populares. Dirige-se aos irmãos e irmãs desses Movimentos com toda simplicidade e confiança. “Boa tarde, irmãos e irmãs! Neste nosso (reparem: neste nosso!) 3º Encontro expressamos a mesma sede, a sede de justiça, o mesmo grito: terra, teto e trabalho para todos. Agradeço aos delegados que vieram das periferias urbanas, rurais e industriais dos cinco continentes, mais de 60 países, para debater novamente sobre o modo de defender estes direitos que unem. Obrigado aos Bispos que vieram acompanhar-vos. Obrigado aos milhares de italianos e europeus que hoje se reuniram no final deste Encontro. Obrigado aos observadores e aos jovens comprometidos na vida pública, que vieram com humildade para ouvir e aprender. Quanta esperança tenho nos jovens!”.

Reparem a ternura e a empatia do Papa Francisco para com os Movimentos Populares! Será que nós cristãos e cristãs - pessoalmente e como Igreja - temos a mesma ternura e empatia para com esses Movimentos? Se queremos ser hoje seguidores e seguidoras de Jesus de Nazaré e sua Igreja, esse é o caminho! Não há outro! Pensemos!

Leia mais