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27 Julho 2016

O assassinato do padre Jacques Hamel na modesta igreja da Normandia, nos arredores de Rouen, marca uma reviravolta na ação terrorista guiada ou inspirada pelo IS. Este, o "Califado", desde o seu nascimento, assume uma marca islâmica.

A reportagem é de Bernardo Valli, publicada no jornal La Repubblica, 27-07-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Ele se arroga, desde as origens, o direito de cometer massacres em nome da religião. Mas, embora designando muitas vezes como "cruzados" as suas vítimas, ele só tinha tentado uma vez, em vão, em Villejuif, perto de Paris, violar uma igreja cristã na Europa. Não houve uma sequência.

Depois, Al-Baghdadi, o "Califa", não gostou das mãos estendidas do Papa Francisco aos muçulmanos. Ele não quer reconciliações. Nem abraços. Nem sorrisos. Assim, não lhe agradou o discurso em que, durante a viagem à República Centro-Africana, o pontífice expressou o seu pesar pelo comportamento dos cristãos em relação aos muçulmanos durante o período colonial. Esses mea culpa poderiam amolecer os jihadistas. Ele os queria e os quer duros. Impiedosos até consigo mesmos. Ele também não suportou a imagem, ainda de Francisco, que lavou os pés de um muçulmano durante as cerimônias pascais. Al-Baghdadi quer a guerra, não gestos conciliatórios. A piedade não é o seu gênero.

A garganta cortada do sacerdote de 86 anos, posto de joelhos e tomado pela agonia, é um ato que acrescenta horror sobre o horror e que parece inaugurar uma nova tática, mais ofensiva, contra a Igreja. O homicídio do padre normando, com um sádico ritual, parece o início de uma "guerra religiosa" que afeta na intimidade a sociedade francesa, cuja laicidade oficial se baseia no respeito de todas as fés. E a cristã está expressada, mais do que todas as outras, nas 50 mil igrejas e templos da França.

Símbolos concretos de uma alma profundamente ancorada na história, embora, agora, objeto de um culto menos intenso. O padre Jacques Hamel, degolado pelos jihadistas na manhã dessa terça-feira, substituía o pároco titular de Saint-Étienne du Rouvray, que é congolês, porque, dos seminários, saem cada vez menos padres franceses. Com o velho sacerdote, ficou ensanguentada uma alma da França. Não é o "Assassínio na Catedral" [obra de T. S. Eliot], mas uma facada no coração dos franceses, desde os mais simples aos mais fiéis às ideias do Iluminismo.

Os dois terroristas de origem árabe, ambos cidadãos franceses, dos quais o "Califado" aprovou o delito, legitimando-o com um comunicado, ousaram aquilo que os seus antecessores tinham evitado. Mortos pelos policiais na praça em frente à igreja, nunca saberemos se estavam cientes das consequências daquilo que tinham acabado de fazer; se sabiam que o objetivo já evidente dos seus inspiradores é o de despedaçar a sociedade francesa: exacerbar as relações entre a imponente comunidade muçulmana (entre sete e oito milhões) e o resto do país, a ponto de empurrar os grupos extremistas a cometer atos provocatórios. Poucos levaram a sério o responsável pelos serviços secretos, quando, diante de duas comissões parlamentares, há algumas semanas, falou de um inevitável choque entre comunidades.

Agora, há quem tema que as rachaduras na sociedade se multipliquem. E o chefe de Estado, François Hollande, exorta à compacidade. Dirigindo-se à oposição de direita (não só a populista da Frente Nacional, mas também à dos Républicains, de Sarkozy) que exige medidas mais rigorosas em matéria de segurança. O assassinato do velho sacerdote acendeu o clima na sociedade política e aumentou o medo no país. As vaias e os insultos dirigidos a Manuel Valls, o primeiro-ministro, durante uma visita a Nice depois do massacre na Promenade des Anglais, nestas horas, seriam mais intensos. O terrorismo começa a despertar as reações desejadas pelos seus inspiradores.

Os jihadistas atingiram os redatores do Charlie Hebdo, considerados blasfemos, e os judeus da loja kosher da Porte de Vincennes; depois, agrediram os parisienses durante o fim de semana no estádio, nos cafés com vista para o Sena, no Bataclan onde tocavam rock; e ceifaram os cidadãos que, em Nice, na frente do Mediterrâneo, festejavam o 14 de julho.

As igrejas não tinham sido violadas. Nem todas estão sob vigilância. Mais de mil (1.227) são vigiadas pelos soldados. Assim como muitas mesquitas (1.047) e muitas sinagogas (794). Os fiéis encarregados por bispos e párocos tentam, há meses, garantir uma certa segurança. Em Notre Dame, no Sena, assim como na Sacre Coeur, em Montmartre, bolsas e mochilas são revistadas. É difícil fazer mais.

Os terroristas de Saint-Étienne du Rouvray moravam perto da igreja de padre Hamel. Conheciam-no bem. E o rosto do velho padre lhes era familiar. Não muito longe, há uma mesquita onde as pregações são feitas em francês. É um sinal de que os frequentadores estão integrados na sociedade da Quinta República. Mas, na localidade nos arredores de Rouen, a polícia vigiava há muito tempo alguns suspeitos agitadores que não escondiam o seu interesse pelas ideias do "Estado Islâmico".

Em uma grande comunidade muçulmana, em grande parte integrada, os grupos atraídos pelo jihadismo escapam com facilidade da atenção da inteligência. Muitos cidadãos franceses de origem argelina, tunisiana ou marroquina têm cargos de destaque na administração estatal, no jornalismo, na indústria. Há policiais, militares, juízes, deputados, até mesmo alguns ministros. Entre as vítimas do terrorismo, existem cada vez (em Nice assim como em Paris) muçulmanos de nacionalidade francesa. Os mais imprevisíveis são os imigrantes de segunda e terceira geração, afetados e frustrados com o desemprego.

Um dos dois assassinos do padre Hamel pertencia a uma família muçulmana integrada. Um irmão é engenheiro, e a irmã tem uma posição de destaque em uma grande empresa. Ele, o terrorista, tinha sido denunciado à polícia pelos próprios parentes, depois de ter tentado chegar à Síria. E tinha sido preso e depois libertado. No entanto, estava sob vigilância e usava a pulseira eletrônica. Ele também a usava na terça-feira de manhã, quando surpreendeu o idoso sacerdote que celebrava a missa e o manteve por mais de uma hora sob a ameaça de uma faca. Antes de lhe cortar a garganta ou de ajudar o seu parceiro a fazê-lo. A pulseira eletrônica não funcionou, porque, entre a casa do assassino e a igreja, a distância não excede o limite permitido. Têm-se menos notícias sobre o cúmplice. Ele era desconhecido para a polícia. Mas está cada vez mais evidente que nem um nem o outro agiam por iniciativa própria.

O IS, assim como as organizações que o precederam na Síria e no Iraque, sempre agrediu os cristãos no Oriente Médio. No Iraque de Saddam Hussein, as minorias cristãs (dos caldeus aos maronitas, dos greco-ortodoxos aos católicos) eram protegidos pelo rais, que, em geral, podia contar com o seu bom comportamento como súditos.

Na Síria de Hafez al-Assad, pai de Bashar, as comunidades cristãs eram ainda mais numerosas e forçadas a contar com a proteção do rais. Nas guerras civis, emergiram forças integralistas muçulmanas que não pouparam nem as igrejas nem os padres, nem os fiéis. As comunidades que sobreviveram durante séculos se dispersaram, em grande parte, ou tiveram que se encastelar em áreas protegidas, onde a vida não é fácil.

A onda anticristã, no entanto, ainda não tinha chegado à Europa. Assim parecia.

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