Cardeal de Washington diz que apenas “muito poucos” estão infelizes com o Papa Francisco

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15 Julho 2016

Numa entrevista no dia em que comemorou o décimo aniversário de sua nomeação como arcebispo de Washington, o Cardeal Donald Wuerl diz que a maioria das pessoas parece estar entusiasmadas com o Papa Francisco, adverte contra uma “hegemonia secular” e o “silêncio” sobre a perseguição aos cristãos. Diz ainda que os padres estão felizes com a abordagem de Francisco sobre a família.

A reportagem foi publicada por Crux, 10-07-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Apesar de uma forte onda de críticas ao Papa Francisco vinda de alguns setores das mídias sociais, da blogosfera, de programas de entrevista, e assim por diante, o cardeal arcebispo de Washington, Dom Donald Wuerl, diz que ele vem percebendo um entusiasmo enorme para com o pontífice, e que os que se sentem “ameaçados” e “infelizes” são “muito poucos”.

Marcando o seu décimo aniversário como arcebispo de Washington, Wuerl também advertiu sobre uma “hegemonia crescente” do secularismo na cultura americana, e denunciou o que considera um silêncio da mídia em geral sobre a violência aos cristãos ao redor do mundo.

Wuerl fez este e outros comentários numa entrevista ao correspondente nacional do sítio eletrônico Crux, Mark Zimmermann, que também é o editor do jornal Catholic Standard e do website da Arquidiocese de Washington. Na ocasião, o religioso estava comemorando o aniversário de sua nomeação.

Apesar de algumas críticas vindas de alguns setores sobre a recente exortação Amoris Laetitia, do Papa Francisco, que aparentemente abriu uma porta, ainda que cautelosa, para autorizar que fiéis divorciados e recasados no civil recebam a Comunhão, aqui também, segundo Wuerl, a impressão esmagadora é de apoio ao papa.

“Muitíssimos dos padres que conheço aqui e em todo o país dizem que estão encontrando um grande apoio no encorajamento do Santo Padre para que estendemos a mão a estas pessoas”, disse ele.

Quando foi instalado ao arcebispado de Washington em junho de 2006, depois de servir por 18 anos como bispo em Pittsburgh, sua diocese natal, Wuerl disse que naquele dia começou “o nosso caminho de fé juntos”, em Washington, o que, em termos de Igreja, inclui mais de 620 mil católicos em 139 paróquias e nove missões no Distrito de Columbia, além de cinco condados em Maryland.

Desde então, o currículo do cardeal arcebispo inclui:

• A convocação para o primeiro Sínodo Arquidiocesano em 2014, que foi um esforço colaborativo que traçou um plano para o trabalho social futuro da arquidiocese em áreas como a educação.

• A recepção de visitas dos papas Bento XVI, em 2008, e Francisco, em 2015, a Washington.

• A criação do Seminário São João Paulo II para a arquidiocese em 2011, nomeado em homenagem ao papa que ordenou Wuerl para o bispado em 1986.

• Uma revisão das normas das escolas católicas da arquidiocese visando fortalecer a identidade católica, a excelência acadêmica e disponibilidade e acessibilidade.

• O aumento da ajuda financeira nas matrículas e mensalidades para alunos de baixa renda em escolas católicas.

• Elevação ao Colégio Cardinalício em 2010.

• Publicação de cartas pastorais sobre tópicos que incluem a Nova Evangelização, educação católica, a Igreja, a identidade católica e Confissão.

Wuerl disse que um dos aspectos mais gratificantes, pessoal e espiritualmente, de seu ministério é o seu compromisso pastoral com toda a arquidiocese, bem como a expansão do ministério multicultural arquidiocesano, que inclui missas semanais em 20 idiomas diferentes.

O arcebispo de Washington falou que se inspira com o testemunho dos jovens católicos da arquidiocese, incluindo os alunos que enchem o centro de Verizon Center para a Marcha da Juventude e a Missa para a Vida, evento anual que acontece na cidade, e com o testemunho dos jovens e adultos locais, a quem ele se irá se juntar na próxima “Cracóvia na Capital”, evento do Dia Mundial da Juventude em Washington.

Eis a entrevista.

Quando o senhor foi chamado para ser o arcebispo de Washington 10 anos atrás, quais eram as suas expectativas? Elas se concretizaram?

Em mais de 20 anos como bispo antes de vir para Washington, percebi o quão complexa é a situação desta grande arquidiocese. Embora não seja uma das maiores sedes em termos populacionais, ela é sem dúvida a mais complexa.

Como toda diocese, esta daqui é o lar de inúmeras paróquias, estabelecimentos de ensino, hospitais, instituições de caridade católicas, serviços sociais e muitos outros ministérios.

Além disso, aqui encontramos a Nunciatura Apostólica, a sede da Conferência dos Bispos Católicos dos EUA, a universidade dos bispos (a Universidade Católica da América) da qual o arcebispo é o chanceler, o Santuário Nacional do qual ele é o presidente do conselho, e as sedes de muitas organizações católicas nacionais, tais como a Associação Católica de Saúde, a Associação Nacional para a Educação Católica, assim como as sedes de comunidades religiosas e as suas faculdades e programas de formação.

Poderíamos continuar listando outras instituições.

Como podemos ver, só aqui o arcebispo de Washington já tem inúmeros compromissos. Então, quando acrescentamos as estruturas políticas, incluídas aí está a sede do governo federal dos Estados Unidos, a relação com o governo do Distrito de Columbia e também com o governo do estado de Maryland, uma vez que a arquidiocese inclui cinco condados nesse estado.

A minha expectativa dez anos atrás era aprender o máximo possível, o quanto antes, a respeito da Arquidiocese de Washington e sua configuração complexa, além de começar a ministrar, da melhor forma possível, para a Igreja local.

Ao longo destes 10 anos, passei a apreciar ainda mais o significado de todas aquelas outras relações, porque não é possível realmente ministrar aos fiéis da Igreja de Washington e ignorar todas essas outras estruturas, em especial a estrutura governamental, que impacta os fiéis rotineiramente de uma maneira direta.

Eu realmente me sinto feliz em saber que, quando terminamos o primeiro Sínodo da Arquidiocese de Washington em 2014, houve o sentimento geral entre os leigos, religiosos e sacerdotes de que a arquidiocese estava indo na direção certa, trabalhando nas áreas realmente necessárias: culto, educação, serviços, comunidade e gestão.

Sim, reconhecemos que temos muito trabalho a fazer, mas houve também um grande alívio ao saber que estávamos indo na direção certa.

Tenho uma pergunta sobre mudanças climáticas, mas não aquelas do meio ambiente: Nestes 10 anos como arcebispo de Washington, o clima político mudou? E quanto ao clima na Igreja?

Acho que aqui em Washington estamos vendo a mesma coisa que todos nos EUA estão percebendo. Isto é, não parece estar havendo um clima crescente de envolvimento e cooperação. Parece que, hoje, há um maior impasse político do que havia 10 anos atrás. Existe também um nítido secularismo que vem aumentando em nossa cultura nos últimos 10 anos, o que impacta fortemente no ambiente político.

Mesmo assim, acho que há um espaço considerável para um engajamento, caso estejamos dispostos a doar nosso tempo e nos esforçarmos.

Quando passamos a olhar para a Igreja, me parece que vemos duas correntes simultâneas.

De longe, a mais forte é a do entusiasmo para com o Papa Francisco, com o seu ministério pastoral e seu chamado para que as pessoas fiquem perto da Igreja, mesmo lutando contra muitas das dificuldades que elas experienciam, incluindo, para alguns, uma sensação de exclusão na Igreja. Hoje, em comparação a 10 anos atrás, vejo mais pessoas abertas a falar sobre elementos importantes da nossa fé e sua relação com Deus e com a Igreja.

Ao mesmo tempo, há uma outra corrente que está descontente com o ministério pastoral do Papa Francisco. Para alguns, a aridez de sua apresentação do Evangelho, bem como o fez seu homônimo séculos atrás, é angustiante.

O chamado constante do Papa Francisco para que façamos um autoexame da nossa fidelidade ao Evangelho parece ser uma ameaça para alguns – muito poucos.

O período de campanha presidencial estará em seu principal momento neste mês, com as convenções políticas partidárias e, em seguida, teremos a campanha final até o dia da eleição, em novembro. Qual o conselho que dá aos católicos para esta campanha eleitoral particularmente desafiadora?

Ao entrarmos neste período político turbulento, penso que o documento dos bispos intitulado “Faithful Citizenship” é ainda mais válido e útil.

Aí somos lembrados da posição pastoral constante da Igreja, de que a transformação e santificação da ordem temporal é o trabalho dos leigos. O clero tem a tarefa de ensinar o Evangelho e apresentar os elementos da vida cristã que estão incorporados na Palavra de Deus, mas a aplicação desses ensinamentos nas áreas políticas, econômicas, sociais e culturais da vida é o trabalho dos fiéis leigos e leigas.

Neste conselho, eu estou repetindo o que os bispos dos Estados Unidos vêm dizendo durante muitos anos. Os fiéis precisam se informar sobre os temas e os avaliarem à luz do ensino católico e das exigências do Evangelho e, em seguida, participar do processo político de forma convicta e consciente.

O que considera como os maiores desafios que a Igreja Católica enfrenta nos Estados Unidos e no mundo contemporâneo? E como a Igreja deveria enfrentar esses desafios?

Os desafios que a Igreja e, creio eu, a fé estão enfrentando possuem dois níveis, profundamente interligados.

No nível cultural, social, filosófico, há uma hegemonia crescente de um secularismo/laicismo que não vê papel algum para a fé – para um ponto de referência transcendente e, portanto, para a Igreja – nas ordens políticas, sociais, econômicas e culturais. O esvaziamento da referência religiosa no espaço público tem levado a um desafio muito sério para a Igreja e suas instituições.

Em nosso país, cada vez mais aqueles que acham importunos os ensinamentos da Igreja, enraizados nas Sagradas Escrituras, começam a se referir a eles como “discriminatórios” e, em alguns casos, passaram a insistir que a Igreja não tem condições de cumprir os seus ministérios institucionais com base em que a sua mensagem viola os direitos de outros. Esta é uma abordagem nova e muito perigosa para o pluralismo saudável que sempre foi uma característica da nossa nação.

A força do nosso país e o seu modo de vida democrático sempre reconheceu o grande pluralismo em termos culturais, sociais, étnicos, religiosos que nos identifica. Começar a aparar todas as diferenças, em favor de um secularismo genérico, vai contra a nossa história e, creio eu, contra a nossa liberdade como povo.

Num outro nível, relacionado com este porém muito mais tangível, está a violência dirigida aos cristãos ao redor do mundo. Como assinalou o Santo Padre, nunca se viu tantos mártires como hoje. Não apenas no Oriente Médio, mas na Índia, em partes da África, na Ásia, a perseguição aos cristãos e, particularmente, à Igreja Católica é uma realidade permanente, cotidiana que, para muitos, termina em morte.

O que é vergonhoso é o silêncio da grande mídia, da indústria do entretenimento e dos formadores de opinião, quando confrontados com esta triste realidade. As atrocidades ocorrem por dois motivos: 1) há aqueles que os cometem; e 2) há aqueles que permanecem em silêncio na sua presença.

Como o senhor resumiria a recepção que Amoris Laetitia recebeu nos Estados Unidos? Este documento está fazendo alguma diferença nas prioridades e práticas pastorais?

A acolhida de Amoris Laetitia, os seus ensinamentos, o seu chamado, o seu reconhecimento da condição humana e o seu desafio para que as pessoas fiquem próximas da Igreja enquanto se esforçam para andar com Cristo vêm sendo extremamente positivos, particularmente no nível das bases.

Este documento surgiu a partir de dois Sínodos dos Bispos e vários anos de reflexão, consultas, escutas e oração. Creio que podemos melhor descrevê-lo como uma “exortação consensual”, que fala a partir da experiência pastoral dos bispos de todo o mundo. Ele tem também a vantagem de ser um documento de continuidade.

Os seus ensinamentos estão profundamente enraizados na longa tradição da Igreja, mas agora eles são apresentados com os desafios pastorais que decorrem de cada doutrina da Igreja.

Muitíssimos dos padres que conheço aqui e em todo o país dizem que estão encontrando um grande apoio no encorajamento do Santo Padre para que estendemos a mão a estas pessoas, que acolhamos aqueles que encontramos no caminho e que tentemos, com o melhor das nossas capacidades, acompanhá-los enquanto todos buscamos caminhar em direção a uma comunhão mais íntima com Jesus.

Ouço também, por parte de vários padres, que não há nada de novo em Amoris Laetitia, que esta abordagem pastoral é algo que sempre estivemos tentando fazer. Parece que o Papa Francisco apresentou tão belamente o desafio a todos nós: sairmos de onde estamos, ir ao encontro, acompanhar e nos envolver, revitalizando o trabalho social pastoral.

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