Matrimônio indissolúvel? Sim, mas para uns poucos escolhidos

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26 Abril 2016

Não apenas a doutrina da Igreja, mas as próprias palavras de Jesus sobre o casamento já foram reinterpretadas de maneiras muito distintas. Segundo o biblista Silvio Barbaglia, nos Evangelhos, a indissolubilidade absoluta vale apenas para os casais que vivem como irmão e irmã “pelo reino dos céus”.

O comentário é de Sandro Magister, publicado por Chiesa.it, 25-04-2016. A tradução é de Eduardo Herrmann.

Em quase sessenta mil palavras da exortação apostólica pós-sinodal, as palavras “indissolúvel” ou “indissolubilidade” aparecem apenas onze vezes. E nem sequer uma vez no amplo e crucial capítulo oitavo, sobre os casais “chamados irregulares”.

Mas não há nada escrito que descredite clara e explicitamente o dogma sobre a indissolubilidade do matrimônio cristão.

De fato, segundo o cardeal Christoph Schönborn – exegeta oficial da exortação pela posse do Papa Francisco –, as exceções que surgem aqui e ali interessam apenas ao “discernimento pessoal e pastoral dos casos particulares”, porém não afetam de nenhuma maneira a doutrina, nem sequer põem em dúvida a permanente absolutividade das palavras de Jesus contra o divórcio: “O que Deus uniu, não separe o homem” (Mateus 19, 6).

Na realidade, sobre este ponto específico, atualmente não estão livres de contestações e reinterpretações, nos distintos níveis da Igreja, nem o dogma nem os Evangelhos: tampouco depois da publicação da "Amoris lætitia".'

No que diz respeito à doutrina da indissolubilidade, na verdade, já são muitos os que teorizam que o amor esponsal pode “morrer”, dissolvendo-se também o vínculo sacramental. Isso sem falar na difundida práxis de dar a comunhão aos divorciados que voltam a casar, o que também desmente, de fato, a indissolubilidade do matrimônio.

Porém, apenas um número muito pequeno de exegetas se atreveu, até agora, a reinterpretar de maneira radicalmente nova os Evangelhos sobre este ponto, sustentando que nem sequer para Jesus a indissolubilidade do matrimônio era algo categórico.

Um desses exegetas é o monge camaldulense Guido Innocenzo Gargano, estimado estudioso dos Padres da Igreja, anteriormente prior do mosteiro romano de San Gregorio al Celio, docente no Pontifício Insiituto Bíblico e na Pontifícia Universidade Urbaniana, segundo o qual Jesus não havia revogado em absoluto a concessão mosaica do divórcio, nem excluído jamais do reino dos céus a quem recorre a ela “pela dureza do coração”:

> Para os “duros de coração”, vale sempre a lei de Moisés (16.1.2015)
> O que diria Jesus se fosse um padre sinodal (3.7.2015)

Outro é o biblista Silvio Barbaglia, sacerdote da diocese de Novara e docente de Sagrada Escritura na Faculdade de Teologia da Itália Setentrional, em um ensaio que está há poucos dias nas livrarias:

> S. Barbaglia, "Gesù e il matrimonio. Indissolubile per chi?", Cittadella Editrice, Assisi, 2016

Sua exegese percorre um caminho diferente do que a do padre Gargano. Em sua opinião, Jesus pronunciou, sim, palavras que são inequívocas sobre a indissolubilidade do matrimônio. Porém não as disse para todos, mas sim apenas para um círculo restrito de seus discípulos, os pares casados que haviam deixado tudo – familiares, propriedades, costumes – para seguir na missão itinerante, em fidelidade matrimonial absoluta, mas também, a partir deste momento, em continência sexual perfeita, como “eunucos pelo reino dos céus”.

E os outros discípulos, muito mais numerosos, que não seguiam a Jesus em sua missão, mas permaneciam em suas cidades e aldeias, em famílias de tipo patriarcal? A estes – explica Barbaglia –, Jesus não pedia um imediato distanciamento das tradições mosaicas, incluindo a “carta de divórcio”. Eles, porém, podiam ver nos casais missionários que viviam em castidade como irmão e irmã a antecipação profética da vida dos ressuscitados, “na ressurreição, nem eles tomarão a mulher nem elas o marido, mas serão como anjos no céu” (Mateus 22, 30), da qual podiam tirar um estímulo para “um caminho de purificação” dos próprios modelos matrimoniais, ainda marcados por traços desconformes – repúdio, poligamia, etc. – a “como era no começo”, a Adão e Eva antes do pecado.

Também Paulo – prossegue Barbaglia – fez o mesmo. A alguns, aos casais que partiam em missão, como Áquila e Priscila, propunha a eleição profética. “O tempo é curto. Portanto, os que têm mulher, vivam como se não tivessem” (1 Coríntios 7, 29). Porém, aos outros, os mais numerosos, não lhes pedia abstinência sexual, apenas uma relação o mais estável e fiel possível.

E, segundo Barbaglia, o mesmo deveria fazer a Igreja hoje. Não “universalizar” para todos o dogma da indissolubilidade, em cada condição de espaço e de tempo, mas sim distinguir entre os dois graus da vida matrimonial: o dos poucos chamados a uma vocação esponsal particular “pelo reino dos céus”, e o da multidão.

Para a multidão, o vínculo matrimonial se funda simplesmente sobre o batismo e, para celebrá-lo como casamento cristão, bastaria uma simples bênção.

Enquanto o sacramento real do casamento estaria reservado apenas para os poucos que o abraçam “pelo reino dos céus”, talvez depois de anos de vida de casal como simples esposos cristãos e depois de haver tido filhos. O sacramento marcaria o início de uma nova vida pobre e missionária, na qual se renunciaria o exercício da sexualidade e com fidelidade indissolúvel, também depois da morte de um dos cônjuges.

A indissolubilidade valeria, portanto, de maneira absoluta apenas para estes poucos, enquanto que para os muitos – escreve Barbaglia – teria “forma relativa, ainda que com tensão para o absoluto”. E esta situação, “que é a mais comum e ordinária para a maioria dos cristãos, poderia permitir também que se resolvesse positivamente o velho problema da comunhão aos batizados, divorciados e que voltaram a se casar, que pedem para começar, na Igreja, uma nova vida de fidelidade”, com ou sem um prévio caminho de penitência, segundo as responsabilidades de cada um na ruptura do vínculo anterior.

Barbaglia apresenta este duplo grau de matrimônio como um “ano letivo”, por enquanto apenas teórico, derivado da supracitada exegese dos Evangelhos. À qual também deve ser associada outra “hipótese”, que diz respeito ao clero casado.

Tal como faziam na Igreja primitiva os sacerdotes e os bispos casados, que exerciam seu ministério abstendo-se das relações sexuais com suas esposas, assim, segundo Barbaglia, poderia ser de novo também na Igreja Católica de amanhã.

Diáconos, sacerdotes e bispos exerciam seu ministério nos respectivos estados de celibato ou casamento, porém “ambos com a conotação de ser ‘eunucos pelo reino dos céus’, como no grupo apostólico de Jesus e na Igreja das origens”.

Um “ano letivo”, este último, que certamente não encontrará muito apoio nos que fazem campanha a favor de um clero casado, e que não imaginam uma continência sexual perfeita.

_______

Silvio Barbaglia é um exegeta não desprovido de originalidade. Seu penúltimo livro é:

> S. Barbaglia, "Il digiuno di Gesù all'ultima cena. Confronto con le tesi di J. Ratzinger e di J. Meier", Cittadella Editrice, Assisi, 2011

Na secular disputa entre quem argumenta que a última ceia foi um jantar pascoal e quem, por sua vez – seguindo a cronologia de João – a antecipam para a noite anterior, Barbaglia toma uma posição demonstrando plena concordância entre os quatro Evangelhos. Na sua opinião, a última ceia de Jesus foi uma “ceia de jejum”, a noite de Páscoa para estar no meio de seus discípulos como “aquele que serve”.

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