Estará surgindo uma lacuna no comando da Igreja sob o Papa Francisco?

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25 Abril 2016

O Papa Francisco continua se saindo bem como o ponto de referência moral mais convincente no mundo de hoje, fazendo uma viagem de última hora à ilha grega de Lesbos para marcar uma defesa dos direitos dos refugiados, trazendo consigo 12 pessoas dentre eles em sua volta a Roma, assim dando à Europa uma lição de acolhimento.

Por meio de palavras e atos, Francisco possui um dom notável de encontrar formas de chamar a atenção para as causas sociais e políticas sobre as quais ele mais se preocupa.

Francisco se tornou tão visível e presente em termos globais que às vezes fica fácil esquecer que ele não foi eleito ao papado em março de 2013 para, em primeiro lugar, resolver a crise de refugiados da Europa, ou para combater as mudanças climáticas, ou ainda para pavimentar o caminho para Cuba e os EUA restaurarem as relações diplomáticas.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 23-04-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Quando os cardeais se encontraram em conclave três anos atrás, o diagnóstico era o de que o comando eclesiástico interno estava à deriva no Vaticano há um bom tempo, na verdade desde os anos do falecido João Paulo II, e entre outras qualidades eles queriam que o novo papa tomasse sob o controle as rédeas vaticanas, sufocando futuros escândalos sexuais e certificando-se de que Roma daria um exemplo positivo à Igreja ao invés de se constituir como um caso de estudo sobre o que não fazer.

Recentemente, no entanto, houve momentos em que se viu não estarem num mesmo nível o sucesso de Francisco em escala global e as suas qualidades de administrador.

Nos últimos 25 anos, duas áreas vêm se apresentando como fontes de escândalos e dores de cabeça ao Vaticano: os escândalos de pedofilia e a área financeira.

Em termos de escândalos sexuais, um relatório recente e da Associated Press revelou que o novo tribunal dentro da Congregação para a Doutrina da Fé, criado por Francisco para tratar das acusações de “abuso de autoridade” contra os bispos acusados de acobertar casos de abuso, até o momento não funcionou.

O tribunal, anunciado como um movimento drástico de Francisco em direção à responsabilização, tem estado ocupado, desde o começo, com jurisdições conflitantes e com pouca clareza de sua autoridade, de forma que até agora não assumiu um caso sequer.

No mesmo sentido, a Pontifícia Comissão para a Tutela dos Menores vem experimentando dificuldades crônicas em conseguir avançar nas reformas que propõe.

Tudo isso e mais têm levado os críticos deste pontificado a se perguntar se o papa está realmente preocupado em realizar reformas verdadeiramente sérias em seu mandato.

Enquanto isso, no front financeiro, algumas pessoas foram pegas de surpresa esta semana quando se soube da notícia de que o Vaticano suspendera uma auditoria externa sobre suas finanças, o que seria realizad pela empresa Pricewaterhouse Coopers (PwC).

O que se viu foi um público impaciente sobre os motivos do impasse entre o arcebispo italiano Angelo Becciu, número 2 da Secretaria de Estado do Vaticano (autor de uma carta de 12 de abril que suspendeu a auditoria), e o cardeal australiano George Pell, chamado pelo Papa Francisco para ser o seu secretário para a Economia em fevereiro de 2014.

Na semana passada, Becciu apresentou a sua versão dos eventos à rede de tevê italiana Tv2000, enquanto que o escritório de Pell emitiu um comunicado, na mesma semana, em que se trouxe uma versão diferente. Parece claro que o que está acontecendo é que a Secretaria de Estado está reivindicando o espaço perdido de poder ela perdeu a Pell nos últimos dois anos.

Embora se tenha insistido que a auditoria será feita depois que algumas dúvidas forem sanadas, é revelador que as coisas chegaram a este impasse, principalmente quando se sabe que a auditoria foi tema debatido durante o recente encontro do Conselho dos Cardeais assessores do papa, ocorrido de 11 a 13 de abril.

Na época, segundo algumas pessoas que participaram do citado encontro, estava claro que Pell, o cardeal italiano Pietro Parolin (Secretário de Estado) e o cardeal alemão Reinhard Marx (prefeito do Conselho para a Economia) não pensavam mesma forma sobre o assunto. Na verdade, Marx e Parolin teriam dito que eles sequer tinham visto o contrato.

Com certeza, Francisco sabe que, se o Vaticano precisou se colocar numa posição de ter de suspender uma auditoria antes de ela ter começado, esta não é uma forma de inspirar confiança nos demais.

Teoricamente, o papa poderia ter dito a Pell, Marx e Parolin que se sentassem e resolvessem quaisquer impasses que poderiam estar atrapalhando a aprovação do contrato, para garantir que o Vaticano não fosse posto numa posição embaraçosa. Em vez disso, não só a auditoria foi água abaixo, mas também o corpo a corpo entre as autoridades vaticanas que se seguiu não demonstrou uma administração ideal da burocracia da cidade-Estado.

Mais uma vez, pode ser tentador a alguns analistas concluírem que, se o Papa Francisco fosse verdadeiramente um ávido reformador das finanças, ele não teria permitido que as coisas se deteriorassem desse jeito, ou que teria reagido de forma mais incisiva.

Isso posto, Francisco pode achar que, comparado com o drama humano do sofrimento pelo qual passam os migrantes e refugiados, a violência da guerra e a urgência de se proclamar uma mensagem de misericórdia em um mundo cada vez mais cruel, ele tem coisas mais importantes a fazer do que se preocupar com lutas de poder no Vaticano.

Mesmo assim, há uma ironia inevitável em torno do fato de que um papa eleito em parte para resolver uma lacuna no comando da Igreja possa acabar sendo visto, pelo contrário, como sendo mais um a perpetuá-la.

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