Bartolomeu e Francisco em Lesbos: a comunhão do "Cristo refugiado". Artigo de Alberto Melloni

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18 Abril 2016

Em Lesbos, Bartolomeu e Francisco não praticarão a comunhão do corpo e do sangue de Cristo no altar (da qual o papa falou em termos muito abertos na visita à Igreja luterana de Roma); mas comungarão do corpo e do sangue de Cristo presente no pobre e no refugiado: o que constitui uma promessa corajosa.

A opinião é do historiador italiano Alberto Melloni, professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação de Ciências Religiosas João XXIII de Bolonha. O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 15-04-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A convite do Patriarca Ecumênico, o Papa Francisco se prepara, amanhã, para ir como peregrino à ilha de Lesbos, junto com os metropolitas da Igreja grega. Ele realizará um ato cuja densidade corre o risco de fugir àqueles que, equivocando-se, consideram que esses gestos como parte de um desígnio de hegemonia midiática ou os lê como momentos para examinar Bergoglio com os parâmetros de uma teologia escolástica que estava mais contente quando tinha do que se lamentar mais do que agora, quando deve se medir com nós teológicos difíceis.

Porque o papa da Antiga Roma e o arcebispo de Constantinopla não vão simplesmente visitar os refugiados que fogem da guerra sem fim: eles vão fazer um gesto litúrgico. Ou, melhor, um gesto sem precedentes de "intercomunhão". Não comungarão (quem sabe...) do cálice e do pão que, para os cristãos, tornam presente o sangue e o corpo de Cristo, mas comungarão do pobre, que constitui uma "presença" não menos real e efetiva do Ressuscitado, acessível até mesmo para aqueles que vissem ali apenas o faminto, o nu, o prisioneiro e não o Cristo-faminto, o Cristo-nu, o Cristo-prisioneiro.

Bartolomeu e Francisco dão um passo decisivo para uma unidade que precisa que os chefes das Igrejas – depois de terem tirado as excomunhões recíprocas, esclarecido as doutrinas e ganhado uma clareza teológica nova – se somem aos muitos batizados cristãos que comungam no altar de uma comunidade diferente da própria: católicos que comungam na liturgia ortodoxa, luteranos que comungam na missa católica, reformados que participam da eucaristia anglicana, e assim por diante.

Os fiéis comuns que comungam sem barulho no altar de outra confissão cristã agem há mais de um século pelos mais diversos motivos: há aqueles que ignoram piamente as proibições, aqueles que forçam permissões, aqueles que violam os cânones, aqueles que antecipam em si a unidade das Igrejas, aqueles que não querem escandalizar, e aqueles que querem escandalizar.

Os chefes das Igrejas, não: não foram além de algumas normas (a Igreja Russa autorizou e, depois, revogou a permissão da intercomunhão); estabeleceram exceções (a Igreja Católica); ou se limitaram, às vezes, a dar a comunhão a fiéis de outras Igrejas.

Muitos se lembram de Ratzinger em pessoa dando a comunhão ao prior reformado da Comunidade de Taizé, o irmão Roger Schutz, em 2005, mas acompanhado, porém, da falsa notícia da "conversão" do prior, que, em vez disso, tinha jogado a sua vida sobre a unidade visível das Igrejas.

No entanto, entre eles, os chefes das Igrejas nunca comungaram: se o fizeram, o fizeram às escondidas, como se diz que aconteceu com a comunhão entre Wojtyla e o patriarca armênio. O papa de Roma Paulo VI e o arcebispo de Constantinopla Atenágoras chegaram muito perto de comungar do mesmo cálice entre 1967 e 1970, mas a oportunidade foi desperdiçada entre escrúpulos desastrados e hesitações fatais, agora analisadas por vários estudiosos, incluindo este que escreve.

Em Lesbos, Bartolomeu e Francisco não praticarão a comunhão do corpo e do sangue de Cristo no altar (da qual o papa falou em termos muito abertos na visita à Igreja luterana de Roma); mas comungarão do corpo e do sangue de Cristo presente no pobre e no refugiado: o que constitui uma promessa corajosa.

O "Cristo refugiado" diante do qual os chefes das Igrejas cristãs se encontram naquela porta da Europa, de fato, é uma presença real e impactante. A Europa que hoje teme aqueles que fogem da guerra está desmemoriada: esquece-se de ter sido uma terra da qual fugiram milhares de cristãos (e judeus, enquanto conseguiram fugir) perseguidos por outros cristãos.

A Europa que, se tem raízes cristãs, as regou durante séculos com o sangue derramado nas guerras religiosas que ainda brilham na memória do Ulster e na história da Ucrânia. E, se foi terra de imigrantes, também o é para os refugiados e os peregrinos que fugiram para um "novo mundo" onde podiam buscar refúgio da repressão confessional, antes que ela desse à luz um antissemitismo genocida.

Um patriarca que é cidadão turco e um papa cidadão argentino, que chegaram, por vias diferentes, às cátedras apostólicas de André e de Pedro, vão para onde as pessoas do mar conservam a última centelha de humanidade para dizer que esta é a Europa: e vão para dizer que a comunhão das Igrejas que os torna irmãos, e os torna irmãos dos anglicanos e dos luteranos, dos reformados e dos hussitas, dos siríacos e dos coptas, não saiu do horizonte de uma Igreja que espera viver aquela que, no Credo, é a sua primeira nota – "a Igreja una"; antes que o pior volte e reencontre as Igrejas adormecidas ou reacenda a sua violência.

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