Francisco sobre a família: "Caminhemos!". Uma primeira leitura da Amoris laetitia

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11 Abril 2016

Foi publicada nessa sexta-feira, 8 de abril, a exortação apostólica pós-sinodal do Papa Francisco, Amoris laetitia. Sobre o amor na família. Na coletiva de imprensa realizada na Sala de Imprensa da Santa Sé, falaram o cardeal Lorenzo Baldisseri, secretário geral do Sínodo dos bispos, o cardeal Christoph Schönborn, arcebispo de Viena, os cônjuges Francesco Miano, professor de Filosofia Moral da Universidade de Roma Tor Vergata, e Giuseppina De Simone, professora de Filosofia na Faculdade Teológica da Itália Meridional de Nápoles.

Abaixo, publicamos um primeiro comentário aos conteúdos da exortação apostólica assinado pelo diretor da revista Aggiornamenti Sociali, Giacomo Costa SJ, 08-04-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Muito esperada, a exortação apostólica que se segue aos dois Sínodos sobre a família chegou: intitula-se A alegria do amor (Amoris laetitia). Longa – o próprio Papa Francisco reconhece isso no n. 7 – pela variedade dos temas abordados, mas especialmente pela necessidade de reproduzir a riqueza do caminho sinodal e expressar as facetas da realidade a que se dedica.

Portanto, um texto para se mergulhar, para se respirar e saborear, e não para percorrer freneticamente em busca de alguma novidade "picante" para continuar alimentando polêmicas que se arrastam por muito tempo.

Certamente, as questões mais "quentes" são abordadas, mas compreender o modo pelo qual são tratadas requer se deixar tocar em profundidade pela doçura e pela pacatez do texto, e pelo apelo à misericórdia como horizonte de sentido dentro do qual se deve colocar todo o discurso: "Ninguém pode ser condenado para sempre, porque esta não é a lógica do Evangelho!" (n. 297).

Desde logo, vemos como a Amoris laetitia se fundamenta nos pilares do magistério do Papa Francisco: a misericórdia, da qual estamos celebrando o Jubileu extraordinário; a alegria, evocada desde o título, assim como na Evangelii gaudium; e o cuidado, como atitude de solicitude e atenção profunda; se na Laudato si' o cuidado se dirigia à casa comum, aqui se dirige à "casa doméstica": "Espero que cada um, através da leitura, se sinta chamado a cuidar com amor da vida das famílias, porque elas 'não são um problema, são sobretudo uma oportunidade." (n. 7).

O Papa Francisco ratifica o caminho sinodal não "fechando" o debate; de fato, ele está bem ciente de que "nem todas as discussões doutrinais, morais ou pastorais devem ser resolvidas através de intervenções magisteriais" (n. 3) e que "em cada país ou região, é possível buscar soluções mais inculturadas, atentas às tradições e aos desafios locais" (ibid.).

Do Sínodo, portanto, ele recolhe não simplesmente as conclusões, mas também a experiência de encontro e de diálogo, que mostrou que a Igreja está longe de ter uma perspectiva homogênea e que esse fato não só não é um problema, mas também é algo muito precioso: "O conjunto das intervenções dos Padres, que ouvi com atenção constante, pareceu-me um precioso poliedro, formado por muitas preocupações legítimas e questões honestas e sinceras" (n. 4).

A escolha do Papa Francisco, em vez disso, é a de abrir um caminho de discernimento, convidando a Igreja a percorrê-lo, começando pela revisão do modo pelo qual são formulados os juízos – "já não é possível dizer que todos os que estão em uma situação chamada 'irregular' vivem em estado de pecado mortal" (n 301) – e das práticas de exclusão e de acolhida (cf. n 299.).

O guia nesse caminho de discernimento não é a norma: várias vezes se repete como a lei e os valores não podem ser brandidos como um martelo ou usados "como se fossem pedras pedras que se atiram contra a vida das pessoas" (n 305). Também não é a "naturalidade" da família. Em toda a exortação, a "lei natural" está à espreita apenas em uma citação da Comissão Teológica Internacional: ela "não pode ser apresentada como um conjunto já constituído de regras que se impõem a priori ao sujeito moral, mas é uma fonte de inspiração objectiva para o seu processo, eminentemente pessoal, de tomada de decisão" (ibid.).

O risco a ser evitado é a abstração, que acaba ocultando a própria beleza do valor do matrimônio e da família; para o papa, é motivo de autocrítica para a Igreja: "Outras vezes, apresentamos um ideal teológico do matrimônio demasiado abstrato, construído quase artificialmente, distante da situação concreta e das possibilidades efetivas das famílias tais como são. Esta excessiva idealização, sobretudo quando não despertamos a confiança na graça, não fez com que o matrimônio fosse mais desejável e atraente; muito pelo contrário" (n. 36).

Em vez disso, "a Palavra de Deus não se apresenta como uma sequência de teses abstratas, mas como uma companheira de viagem, mesmo para as famílias que estão em crise ou imersas em alguma tribulação" (n. 22). Para fugir da deriva da abstração, é preciso "manter os pés no chão" (n. 6).

O guia do discernimento é o ''amor misericordioso" (n. 312) e o lugar apropriado em que ele se desenvolve é, acima de tudo, a consciência das pessoas, à qual "custamos a dar espaço" (n. 37), e que, em vez disso, "deve ser mais bem envolvida na práxis da Igreja" (n. 303): os fiéis "muitas vezes respondem o melhor que podem ao Evangelho no meio dos seus limites e são capazes de realizar o seu próprio discernimento perante situações onde se rompem todos os esquemas" (n. 37).

Portanto, o papel da consciência não pode se limitar ao reconhecimento de se estar no erro ou no pecado: ela também pode "descobrir com certa segurança moral que esta é a doação que o próprio Deus está pedindo no meio da complexidade concreta dos limites, embora não seja ainda plenamente o ideal objetivo. Em todo o caso, lembremo-nos que este discernimento é dinâmico e deve permanecer sempre aberto para novas etapas de crescimento" (n. 303).

A centralidade da consciência – em que, como lembra o n. 222, ressoa a voz de Deus – dá razão da insistência do Papa Francisco sobre a beleza de uma proposta de um caminho de amor, de matrimônio e família que se enraíza em uma perspectiva de fé, mas que, ao mesmo tempo, se revela profundamente humanizante. Essa é a chave que "abre a porta para uma pastoral positiva, acolhedora, que possibilita um aprofundamento gradual das exigências do Evangelho". Diante da diversidade e da complexidade das situações com que se depara, a estratégia do Papa Francisco não se coloca em primeiro lugar no plano das normas, alargando-as ou restringindo o seu campo de aplicação, mas é puramente pastoral.

Ele pede que a Igreja experimente o acompanhamento individual e comunitário das pessoas e das famílias, na concretude das situações em que vivem. Todas as experiências devem ser valorizadas, todas têm uma contribuição para dar: "Pode ser útil também a experiência da longa tradição oriental dos sacerdotes casados" (n. 202).

Por isso, todas as situações familiares encontram espaço e recebem atenção nas páginas da exortação: as felizes e as de dificuldades; as de sucesso e as de crise ou de fracasso; a dos casais e as daqueles que escolhem ou são forçados a conviver por vínculos e por condicionamentos; a dos casais jovens, a dos pais que lidam com a educação dos filhos, a dos cônjuges idosos chamados a descobrir como envelhecer juntos, continuando a se amar, até a das famílias afetadas pela dor e pelo luto.

A raiz dessa atenção às famílias concretas é puramente bíblica: "A Bíblia aparece cheia de famílias, gerações, histórias de amor e de crises familiares, desde as primeiras páginas onde entra em cena a família de Adão e Eva, com o seu peso de violência mas também com a força da vida que continua (cf. Gn 4), até às últimas páginas onde aparecem as núpcias da Esposa e do Cordeiro (cf. Ap 21, 2.9)" (n. 8).

É precisamente essa atitude de atenção e cuidado em relação a todas as situações que o Papa Francisco requer que todos os bispos assumam, em especial através do instrumento de diálogo: "aos pastores compete não só a promoção do matrimônio cristão, mas também 'o discernimento pastoral das situações de muitas pessoas que deixaram de viver esta realidade', para 'entrar em diálogo pastoral com elas a fim de evidenciar os elementos da sua vida que possam levar a uma maior abertura ao Evangelho do matrimônio na sua plenitude'"(n. 293).

A "aposta" do Papa Francisco é a de que esse processo de discernimento, baseado na atenção, escuta e diálogo, saberá produzir os recursos com os quais se possa "continuar aprofundando com liberdade algumas questões doutrinais, morais, espirituais e pastorais" (n. 2). Será a prática que irá mudar a teoria e, especialmente, descobrir o modo adequado de formulá-la e apresentá-la: "Não se deve atirar para cima de duas pessoas limitadas o peso tremendo de ter que reproduzir perfeitamente a união que existe entre Cristo e a sua Igreja, porque o matrimônio como sinal implica 'um processo dinâmico, que avança gradualmente com a progressiva integração dos dons de Deus'" (n. 122).

Assim como a Laudato si' no n. 244, a Amoris laetitia também conclui com um convite para se pôr a caminho. É um convite dirigido à Igreja, às comunidades cristãs individuais, a todas as famílias e a todos os fiéis, em qualquer situação de vida que se encontrem.

É a vocação originária de Abraão e Sara, que transformou a sua história de casal, já em muitos sentidos no fim da linha, em bênção para todas as famílias e as gerações, não sem uma série de viradas e reviravoltas, e uma certa dose de ambiguidade e contradições.

Como o nosso pai e a nossa mãe na fé, ao longo desse caminho, também nós somos sustentados pela certeza de que "aquilo que nos é prometido é sempre mais" (n. 325). A tensão ao cumprimento escatológico dessa promessa abre o espaço dos percursos de crescimento e de desenvolvimento da nossa humanidade e das nossas famílias, e, ao mesmo tempo, torna magnânimo o nosso olhar.

É difícil encontrar palavras para dizer isso melhor do que as usados pelo Papa Francisco, ainda no n. 325: "Contemplar a plenitude que ainda não alcançamos permite-nos também relativizar o percurso histórico que estamos fazendo como família, para deixar de pretender das relações interpessoais uma perfeição, uma pureza de intenções e uma coerência que só poderemos encontrar no Reino definitivo. Além disso, impede-nos de julgar com dureza aqueles que vivem em condições de grande fragilidade. Todos somos chamados a manter viva a tensão para algo mais além de nós mesmos e dos nossos limites, e cada família deve viver neste estímulo constante. Avancemos, famílias; continuemos a caminhar!".

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