“Processo com o ELN será muito mais complexo que o das FARC”. Entrevista com Francisco de Roux

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Por: Jonas | 06 Abril 2016

“O que está em jogo não é o futuro do presidente Santos, nem o futuro político do ex-presidente Uribe, nem o futuro do ELN, nem o futuro das FARC, mas a possibilidade de que possamos viver como seres humanos”.

 
Fonte: http://goo.gl/7MKo9v  

Com estas palavras, o sacerdote jesuíta Francisco de Roux (foto) – uma das pessoas mais respeitadas no país por suas posições e ideias sobre temas como a inclusão, a igualdade, o campesinato e a paz – abre e encerra esta entrevista, na qual apresenta seus pontos de vista sobre a filosofia do Exército de Libertação Nacional (ELN) a propósito do processo de paz que, pela primeira vez, em seus 50 anos, aceitou negociar.

Além dos títulos em Filosofia e Letras pela Universidade Javeriana e Economia pela Universidade dos Andes, graduou-se em Teologia, tem um doutorado em Economia pela Sorbonne de Paris e outro mestrado pela London School of Economics.

De Roux, que viveu 13 anos no Magdalena Medio, conhece como ninguém as necessidades sociais e econômicas do povo de nossa nação.

A entrevista é de Yamid Amat, publicada por El Tiempo, 03-04-2016. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

O que o ELN pensa hoje?

É uma organização revolucionária que luta por uma democracia radical socialista, inspirada na revolução cubana e por elementos cristãos trazidos por quatro sacerdotes que morreram em suas fileiras: os padres Camilo Torres, Manuel Pérez, Domingo Laín e José Antonio Jiménez.

Algum jesuíta?

Nenhum. Nunca houve jesuítas na guerrilha da Colômbia. O ELN, além disso, é um grupo muito mais complexo que as FARC.

Complexo em que sentido?

Minha impressão é que o ELN é, em si mesmo, um debate vivo em torno de ideias básicas, porque está muito encarnado nas regiões, entre os camponeses, e seus comandantes expressam as necessidades e culturas diferentes das regiões.

Em que consiste a comparação que você faz entre as FARC e o ELN?

Minha impressão é que as FARC têm uma chefatura vertical unitária, ao passo que no ELN a autonomia relativa dos comandantes é bem maior. O que realmente existe é uma coordenação que se consolida no Comando Central, o COCE, que é eleito dentro da organização. O COCE garante as execuções estratégicas que são definidas em congressos.

Quem são os integrantes do COCE?

Destacaria três que são muito relevantes: Nicolás Rodríguez, ‘Gabino’; ‘Antonio García’ e ‘Pablo Beltrán’. Outra pessoa muito importante é ‘Pablito’, comandante da estrutura de Arauca, Boyacá e Casanare.

Quantos homens o ELN deve ter hoje?

O Governo fala de 1.600 a 1.800 com armas, com capacidade militar para ações muito agressivas. No entanto, os ‘elenos’ são também uma organização política com muita influência em setores populares organizados.

Qual a sua opinião sobre o acordo que acaba de ser firmado entre o Governo e o ELN?

Gosto muito. Primeiro, porque estabelece com clareza a determinação de chegar ao fim do conflito armado; segundo, porque a linguagem do acordo é de respeito entre as partes e cria o clima para uma negociação que será difícil; terceiro, porque se conseguiu a agenda para um processo diferente ao das FARC, viável para o ELN e com metodologia própria, que deve ser concluído em uma só paz.

Mas, o que o faz diferente?

A agenda e o método. O primeiro ponto deve definir o método de participação da sociedade, importantíssima para o ELN. O segundo  busca o aprofundamento da democracia para transformar a política. E o terceiro delineia projetos regionais que evidenciem que foram colocadas em marcha novas formas de participação e democracia. O processo dá uma relevância própria às vítimas.

Como você acredita que a sociedade civil pode participar?

Parece-me que o mais coerente com eles seria a partir do profundo regional, ou seja, a partir das lideranças que há nas veredas, na base dos municípios.

A partir de lideranças, você diz. Lideranças políticas?

Não a atual, em sua maioria os líderes políticos atuais nas regiões são varões eleitorais avalizados pelos partidos para ganhar votos. E é preciso reconstruir a política a partir das lideranças sociais profundas, que convocam e expressam os direitos das pessoas. Durante treze anos, em Magdalena Medio, conheci líderes assim, que lutavam pelos direitos e a autonomia de suas comunidades com uma perspectiva de país; que tinham a coragem de enfrentar a guerrilha e os paramilitares e de se afirmar como cidadãos legais que não reconheciam autoridade nos ilegais, ao mesmo tempo em que exigiam proteção de seus direitos às autoridades legítimas. Essa liderança teve sua participação através da política obstruída.

Como deveriam ser escolhidos os representantes da sociedade civil nos diálogos?

É preciso buscá-los entre as pessoas que oferecem confiança nos territórios.

Destaque-me um exemplo para captar melhor sua ideia.

Mulheres e homens que lideram projetos de resistência civil, de propriedades camponesas, comércio e crédito popular, de cultura e educação, de mesas de diálogo e luta contra a mineração ilegal, de organizações indígenas, afro e camponesas para proteger o território.

Poderia apresentar alguns nomes?

Não faço isso porque não quero expô-los. O conflito ainda existe na Colômbia. Olhe o ataque armado desta semana. No país, mataram ao menos 4.000 destes líderes nos últimos 25 anos. Pessoas que não estavam na guerra. Em Magdalena Medio mataram 27 companheiros nossos, desta qualidade.

O ELN conhece estas lideranças nas regiões?

Conhece essas pessoas nos territórios onde opera, e as relações são diversificadas porque estas lideranças protegem a autonomia das comunidades, e porque também o ELN promove lideranças políticas vinculadas a eles. Mas, sobretudo, a sociedade local conhece as pessoas em quem pode confiar, que lutam pela vida de todos e para se manter livres da guerra e da corrupção.

Você acredita que os partidos não representam a sociedade civil?

Não. Não a representam. Tal como existem, são empresas de votos e de controle dos bens públicos para continuar suas empresas. E, paradoxalmente, parte da tarefa que a paz requer é a dignificação da política e a transformação desses aparatos de nossa tradição partidária.

Acredita que os partidos já estão muito contaminados pela corrupção?

Na Colômbia, há uma imensa corrupção e esta se aprofundou nos territórios de guerra, onde a administração e as eleições se subordinaram aos grupos ilegais e às máfias, com o aval dos partidos para arrecadar votos. No entanto, estou convencido que a presença no público das lideranças das sociedades regionais, que inclui gestores populares, culturais, empresariais, pode transformar a política e os partidos.

Diante de um cenário tão difícil como este que você expõe, o que se deve fazer para a construção da paz?

É preciso fazer a construção a partir das pessoas significativas nos territórios, mas não se pode excluir completamente a classe política, porque é a única forma de transformá-la. Olhe: tomara que Rafael Pardo, que é um magnífico ministro para as ações que seguem aos acordos, não vá entregar os recursos da paz às burocracias políticas das regiões de conflito. Que essas burocracias continuem manipulando a seu modo as transferências municipais, mas os recursos da paz não.

Estes são recursos para um período longo, de pelo menos 15 anos, que precisa reconciliar as regiões, incorporar os que vão à guerra, mudar as formas de participação, fazer projetos que correspondam a mudanças estruturais. Estes recursos deveriam ser administrados por entidades mistas, basicamente de lideranças locais e com uma participação menor de alguns membros de burocracias políticas altamente reconhecidas por sua limpeza e por sua integridade, para que as transformações sejam possíveis.

Que riscos graves você enxerga, hoje, para o processo de paz que se inicia com o ELN?

Que é um processo mais complexo que o das FARC. Primeiro, pelo debate interno dentro do ELN, que tomou uma decisão coletiva de paz, mas não irá suspender suas discussões internas. Segundo, pelas autonomias relativas dos comandantes locais, que acarreta, como me explico, que uma frente local tenha exigido dinheiro pelo crime do sequestro de Ramón Cabrales, sendo que pelo que parece havia sido dada a ordem de entregá-lo sem cobrar nada. É preciso garantir formas de participação da sociedade civil, para que toda a sociedade participe a partir das regiões, e não só os partidários do ELN, porque, caso contrário, não chegaremos a nada.

O ELN aceitará que uma mudança estrutural no país não pode ser imediata?

A exigência de mudanças estruturais imediatas pode ser outra dificuldade, caso o ELN insista nisso. Porque a paz tem dois momentos distintos: um é o peacemaking, fazer a paz, sem fazer transformações estruturais porque na mesa de diálogo não há uma representação de toda a Nação que permita legitimamente mudar a Constituição ou mudar o modelo econômico, ou as leis do país. Depois, terminada a guerra, excluídas as armas da política, vem o peacebuilding, a construção da paz, que é o momento de mudanças estruturais empreendidas pela participação democrática de todos os colombianos, mudanças que precisam ser muito profundas para garantir a sustentabilidade da paz.

De quais mudanças estruturais estamos falando?

Para que me entenda sobre as mudanças estruturais, olhe as listas no Google: estamos entre os dez países mais corruptos do mundo, mais desiguais do mundo, com mais impunidade no mundo. Hoje, mais uma vez somos o primeiro produtor mundial de coca, somos um dos países mais destruidores do meio ambiente, sendo o primeiro do mundo em páramos e o segundo em ecossistemas. Ou seja, é necessário fazer mudanças estruturais muito sérias, mas isso não é para ser feito na mesa de negociações. Nela, devem ser estabelecidas as condições para abandonar a guerra que nos destrói como comunidades humana; em seguida, virá o debate democrático, participativo, para as mudanças que essa paz reivindica para se consolidar.

Quais são as vantagens do acordo?

A determinação em acabar com a luta armada neste país e com a presença das armas na política, e isto, nós, que estamos interessados na paz, precisamos defender; é uma posição que o ELN nunca havia tomado com tanta determinação e acordado com o Governo.

Acredita que, sim, estamos próximos de colocar fim à violência?

Estamos próximos de romper o olho do furacão, que é nos matar pela guerra política. Contrariamente ao que muita gente pensa na Colômbia, no sentido de que os guerrilheiros são simplesmente bandidos que estão por trás da coca e que estão cheios de dinheiro, quando se conversa a fundo com os líderes guerrilheiros, percebe-se que ali houve uma opção de consciência, de pessoas que pensam que a classe dirigentes do país é inimiga do povo e tomam a decisão de lutar contra isso, mesmo que os matem, para que as coisas mudem. Nós, que não compartilhamos com essa opção, temos, no entanto, que reconhecer que existe. E que o caminho é o diálogo para convencer aqueles que têm as armas, lado a lado, de que nós não precisamos nos matar para conseguir uma sociedade reconciliada e justa. E que quanto mais demorarmos para parar a guerra, mais demoraremos em dar início às transformações necessárias. Isso é o que se está conseguindo em Havana e que se espera com o ELN.

Este embate entre o presidente Santos e o ex-presidente Uribe tornará a paz impossível?

O que está em jogo não é o futuro do presidente Santos, nem o futuro político do ex-presidente Uribe, nem o futuro das FARC, mas a possibilidade de que nós possamos viver como seres humanos.

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