Fernando Cardenal, o grande educador

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Por: André | 07 Março 2016

“Efetivamente, Fernando pensava, nos seus 82 anos, em lançar e dirigir uma campanha mundial de alfabetização em torno da encíclica ecológica do Papa Francisco. Tratava-se de um grande sonho – seu último sonho? –, o sonho de organizar um movimento internacional de educação ambiental guiado pelos princípios da Laudato si’”, escreve Citlali Rovirosa-Madrazo em artigo publicado por Confidencial, 29-02-2016. A tradução é de André Langer.

Citlali Rovirosa-Madrazo, mexicana, é Visiting Research Fellow at the SGIA at Durham University e autora de BAUMAN, Zygmunt. Vida a crédito: conversas com Citlali Rovirosa-Madrazo. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.

Eis o artigo.

Tive a felicidade de estar perto deste grande homem em inumeráveis e muito diferentes situações; fui privilegiada porque pude sentar-me à sua mesa, andar juntos por cidades e campos, escrever, meditar e conversar nos mais diversos ambientes, quer seja nos gélidos túneis do subterrâneo de Londres ou sobrevoando as espessas cordilheiras e povoados da Nicarágua nos helicópteros da Campanha Nacional de Alfabetização (CNA), transportando medicamentos, lanternas, lápis e cadernos para os alfabetizadores que tornaram realidade a memorável CNA liderada pelo entranhável jesuíta. Seu legado mais conhecido: a redução da taxa de analfabetismo de 51,35% (e até 90% nas zonas mais remotas do país) para 12,9%.

Além das nossas andanças pela Nicarágua, tive o privilégio de participar com o jesuíta de reuniões com ativistas, funcionários e catedráticos em Barcelona, Moscou, Cidade do México e Londres, buscando apoio para projetos de educação, organizando conferências, arrecadando fundos ou promovendo a ideia de uma campanha mundial de alfabetização para a paz e os direitos humanos (em 1986, a Unesco apoiaria o primeiro projeto piloto na Cidade do México).

Mas foi nos primeiros anos da década de 1970 que reparei pela primeira vez no jesuíta. Ainda me deslumbra sua enigmática figura cruzando os jardins de uma escola católica situada perto da minha casa, onde Fernando passou breves temporadas como capelão ou professor de Filosofia. Quem ia me dizer que, anos mais tarde, eu acabaria viajando para a Nicarágua e trabalhando com aquele fantasma luminoso de olhos meigos que perambulava sozinho pelos templos e capelas da Cidade do México.

Na Nicarágua nasceu a mais bela amizade e uma longa relação profissional, começando pela CNA, onde inicialmente me nomeou ‘coordenadora de pesquisas fotográficas’ ou algo parecido. Seguiram-se uma série de viagens e encontros: recordo-o ainda tremendo de frio escondido em uma chamarra com o zíper estragado quando me recebeu na estação de trem em Tarragona, na Espanha. E me lembro dele também tiritando na Universidade de Essex, na Inglaterra, quando saímos para celebrar com Ernesto Laclau a participação de Fernando na conferência que organizamos para que os estudantes escutassem o jesuíta da Nicarágua.

Ernesto tinha dificuldades para compreender a permanência e a tenacidade de Fernando, sua lealdade revolucionária (não obstante, já tinha dado claros sinais de ruptura com os sandinistas, desmascarando os seus McBeths e revelando uma ciclópea teia nos intrincados muros do poder). Fernando, por sua vez, tinha dificuldades para entender, ou melhor dito, não tinha tempo, para as elucubrações teóricas e abstrações de Ernesto (e eu gostava de imaginar que ambos, simplesmente, sonhavam o mesmo sonho em diferentes cores).

Outros episódios e viagens se seguiram: gestões para buscar financiamento para novos projetos educativos, reuniões com organizações, fundações e agências na Europa e na América Latina. Nunca me esqueço da perplexidade estampada em seu rosto quando, ao concluir uma sessão de trabalho com organismos doadores, uma funcionária londrinense colocou no seu bolso da camisa um cheque de cinco libras esterlinas – seria para pagar o táxi? – nunca entendemos, mas o fato nos deu elementos para rir por algumas horas no trem de volta.

E assim, ao longo dos anos se sucederam inumeráveis anedotas, gestões e incumbências até nos levar aos nossos últimos e mais recentes trabalhos: buscar o apoio do Parlamento Europeu e diversas agências, como a Cáritas Europa, para lançar a última epopeia, a última aventura de Fernando: o dia mundial de educação ecológica Laudato si’...

Não viveu para ver seu último livro publicado

Uma das nossas colaborações mais recentes é o livro intitulado Francisco: entre a Ciência e a Teologia Moral. Terra, Revolução e Destino Comum, que a Hispamar publicará nos próximos dias.

Ironicamente, poucas horas antes do seu falecimento, eu havia recebido o desenho da capa da editora. Com sete horas de diferença entre Manágua e Londres, e sem me ter dado conta da pungente notícia, me dispunha a escrever à projetista para lhe agradecer pelo envio e sugerir-lhe que fizéssemos uma tentativa de levar a capa do livro ao hospitalizado Fernando.

Embora estivéssemos conscientes da delicadeza de sua situação, no penúltimo laudo médico havia indícios de melhoria, e ao fazer chegar a capa ao nosso amado amigo, poderíamos dar-lhe a satisfação de saber que finalmente, após um prolongado e doloroso processo, o livro estava para entrar na imprensa. Tragicamente, não seria assim, e em vez de lhe dar a alegria de que sua obra estava a ponto de ver a luz, a notícia de seu último alento nos invadiu de obscuridade: quanto mais cruel seria a nossa dor.

Neste livro confirmaríamos essa grande aptidão de Fernando de inspirar audiências muito diferentes: religiosas ou irreligiosas, jovens ou adultos, da academia “ou do bar”. Trata-se de um livro inspirado na ascensão do primeiro papa latino-americano e do primeiro jesuíta ao trono de São Pedro.

Quando iniciamos o projeto sabíamos que estávamos diante de algo inusitado, mas nenhum dos dois tínhamos ideia do rumo ou alcance do pontificado do papa argentino. Quando, no primeiro aniversário, iniciamos formalmente as conversas, pensávamos que o nosso livro estaria terminado em meses. Não suspeitávamos de demoras técnicas ou editoriais, nem contratempos de saúde (como se estivéssemos nos alternando, ambos cairíamos convalescentes em diferentes ocasiões).

Mas, sobretudo, não contávamos com a diligência do Papa Francisco. Vimo-nos ultrapassados, literalmente arrastados, pelo ritmo do ex-cardeal de Buenos Aires: “este papa não dá trégua”, costumávamos protestar, e justo quando pensávamos que estávamos para concluir a análise das questões mais importantes do seu pontificado, o Bispo de Roma nos fazia outra surpresa.

Em nossa publicação, é verdade, havíamos abordado uma infinidade de temas: examinamos alguns dos problemas mais urgentes da nossa convulsionada era – o fundamentalismo religioso e o fundamentalismo secular, a relação entre ciência e religião, o advento do yihadismo internacional, os novos desafios da Doutrina Moral da Igreja e da sexualidade humana (temas sobre os quais Fernando se pronunciou radicalmente e sobre os quais faz revelações muito íntimas), a atualidade da Doutrina Social da Igreja, a vigência da Teologia da Libertação, as rupturas epistemológicas e a nova revolução ecológica do Papa Francisco, após a publicação de sua encíclica ecológica. E é justamente este tema que nos leva de volta à grandeza dos sonhos de Fernando: sua convicção de levar, por meio da educação, a mensagem da Laudato si’ ao mundo.

A campanha mundial de alfabetização Laudato si’

Efetivamente, Fernando pensava, nos seus 82 anos, em lançar e dirigir uma campanha mundial de alfabetização em torno da encíclica ecológica do Papa Francisco. Tratava-se de um grande sonho – seu último sonho? –, o sonho de organizar um movimento internacional de educação ambiental guiado pelos princípios da Laudato si’.

Poucas horas depois da publicação da encíclica ecológica, em junho de 2015, ambos esmiuçávamos e analisávamos rigorosamente o texto: “– estás pensando o mesmo que eu?... – Sim, claro, temos que voltar a alfabetizar”. Desenvolver, portanto, uma visão pedagógica para a educação ecológica do nosso século, seria a nossa próxima atribuição.

Sem dúvida, Fernando sabia que não se podia ficar à margem da Laudato si’. Fernando não ficaria de braços cruzados e dormiria em seus louros; sua formação jesuíta e sua histórica missão como dirigente da CNA o obrigavam a fundir o magistério educativo com sua nova missão apostólica de protetor da natureza. Não podia ser de outra maneira.

O Padre Superior da Ordem dos Jesuítas da Nicarágua, Iñaki Zubizarreta, refletia nas honras fúnebres que Fernando foi “um homem que com seu entusiasmo infeccioso foi capaz de contagiar dezenas de milhares de jovens”. Certamente, mais de três décadas depois daquela gesta, Fernando estava convencido de que ele podia reproduzir o mesmo fenômeno, uma grande revolução educativa, desta vez inspirada na encíclica Laudato si’. Estava realmente convencido de que o faria; apesar de estar consciente da fragilidade e da precariedade de sua saúde, o inaciano dos fachos especiais não hesitou em liderar o empreendimento internacional de uma grande empresa ecológica.

Desde a fundação da Companhia de Jesus no século XVI, seus seguidores entenderam o alcance de sua missão pedagógica e fizeram da educação e da ciência um apostolado: Fernando nunca conseguiu abandonar esta incumbência. O mandato do magistério da educação sempre fez parte do próprio carisma da ordem religiosa à qual Fernando Cardenal entregou sua vida. Como visionário que era, Fernando pôde entender as repercussões da Laudato si’ na nova relação da Igreja católica com a ciência. Mas, sobretudo, compreendeu o papel da educação na construção de uma nova relação do homem com a natureza. Aqui está a importância do seu projeto.

Seu ímpeto não deixava de surpreender, a tarefa era (é) monumental, mas Fernando mostrou-se rotundamente decidido a levá-la a cabo. Não vacilou. Jamais duvidou que o faria, e, o que é pior, não me permitiu o luxo de duvidar. De modo que, desde os primeiros dias elaboramos planos de ação (muito preliminares, é verdade); iniciamos bases de dados, elaboramos documentos formulando estratégias, objetivos, visão e enfoques pedagógicos, e começamos a abordar algumas agências internacionais e diversas universidades.

Fernando escreveu para os seus contatos nas universidades jesuítas, reuniu sua equipe em Manágua, ao mesmo tempo que convocou, informalmente, representantes de diversos setores, representantes de agências internacionais com sede em Manágua, como a Trocaire, e algumas organizações de base, e publicou no sítio de internet da organização que presidia, Fe y Alegría, um comunicado anunciando suas intenções. A semente estava lançada.

Durante as honras fúnebres o ex-ministro da Educação, Miguel de Castilla, lamentou que com a partida de Fernando o mundo da educação na América Latina estava de luto. Sem dúvida. Não apenas porque uma figura emblemática tenha partido, mas porque se corre na América Latina o risco de perder a sabedoria e o enfoque educativo que Fernando defendeu desde que esteve à frente do Ministério da Educação de seu país: o paradigma pedagógico inspirado em outro grande do continente, o brasileiro Paulo Freire, e sua visão da educação como práxis de libertação.

A missão de Fernando continua, e foi encomendada aos jovens da América Latina, em quem o inaciano depositou toda a sua confiança e toda a sua esperança. “Fernando Cardenal foi uma voz profética para a juventude nicaraguense”, declarava a ex-ministra da Saúde, Dora María Téllez. E, em sua homenagem ao entranhável jesuíta, a poetisa Gioconda Belli lamentou que “perdemos o general da batalha mais bela do nosso país: a batalha contra a ignorância”. A isso eu gostaria de acrescentar: enquanto o general tiver quem lhe escreva... enquanto houver quem cultive as sementes da alfabetização ecológica e da educação ambiental, o general viverá entre nós.

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