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29 Fevereiro 2016

“Poucos países como o Brasil demonstram, de forma tão clara, a necessidade e a dificuldade de se criar o que poderíamos chamar de um "corpo político", ou seja, de um sistema de implicação genérica capaz de produzir um espaço comum no qual demandas sociais podem circular e se realizar”, constata Vladimir Safatle, professor do Departamento de Filosofia da USP, em artigo publicado por Folha de S. Paulo, 26-02-2016, sob o título 'Produzir corpos'.

Segundo ele, “o Brasil passou sua história moderna em luta para tentar criar um corpo político que lhe falta, mas mais de uma vez descobriu que só sabe criá-lo de uma forma. Uma forma frágil, cujos efeitos são profundamente ambíguos e acabam sempre por levar a sociedade à paralisia”.

Eis o artigo.

O impasse profundo no qual se encontram a política e a vida nacional expressa, à sua maneira, uma certa limitação do que poderíamos chamar de nossa "imaginação social". Crises, como a que vivemos hoje, ligadas não apenas ao esgotamento de um modelo de desenvolvimento chamado de "lulismo", mas também ao esgotamento dos atores políticos da Nova República, são também crises das formas de se pensar o país.

Boa parte de nossos principais esquemas de compreensão do Brasil foram criados nos anos 1950 e 1960. Eles se demonstraram frutíferos para mobilizar demandas de transformações durante décadas. Foram, à sua maneira, respostas à paralisia que aprisionou o país em vários momentos de sua história. No entanto, há momentos em que você só consegue continuar a agir se aprender a descrever de outra forma a situação na qual está inserido. Longe de ser um mero exercício de redescrição esta é uma estratégia da ação para transformar situações.

Nesse sentido, gostaria de insistir que poucos países como o Brasil demonstram, de forma tão clara, a necessidade e a dificuldade de se criar o que poderíamos chamar de um "corpo político", ou seja, de um sistema de implicação genérica capaz de produzir um espaço comum no qual demandas sociais podem circular e se realizar.

Espaço comum que não é apenas um sistema de regras, mas um campo de afetos. Em um corpo, as afecções de cada parte circulam por todos os lados, criando uma situação na qual a indiferença é impossível. Diria que essa dificuldade de construir corpos políticos é um sintoma importante de um certo bloqueio de nossa imaginação social.

De certa forma, o Brasil passou sua história moderna em luta para tentar criar um corpo político que lhe falta, mas mais de uma vez descobriu que só sabe criá-lo de uma forma. Uma forma frágil, cujos efeitos são profundamente ambíguos e acabam sempre por levar a sociedade à paralisia.

Quando se fala atualmente de corpo político, lembra-se normalmente da figura do Leviatã, de Thomas Hobbes. Hobbes insistia que nenhum valor é mais importante para uma nação que a unidade, a organicidade e a regulação dos conflitos no interior de um sistema capaz de assegurar a estabilidade. Para isso, a sociedade deveria ser compreendida como um corpo no qual todas as partes respondem a um centro funcional, sua cabeça, onde se encontra o poder soberano. O uso da imagem do corpo não era uma mera metáfora. Era um conceito de forte valor de mobilização. Mudamos nosso comportamento quando nos compreendemos como partes de um corpo que nos engloba.

Conhecemos o uso dessa ideia de corpo político uno e orgânico na justificativa de sociedades autoritárias. Alguém como o filósofo Claude Lefort chegou mesmo a afirmar que a democracia deveria ser, necessariamente, um poder sem corpo. Mas poderíamos nos perguntar se todos os corpos são necessariamente modelos de unidade, se não conhecemos corpos que produzem formas de implicação genérica que não poderiam ser compreendidos exatamente como unidade. Às vezes, para pensar política, nossa lógica é demasiado representativa.

Ernesto Laclau, em um impressionante livro sobre o populismo, chamado "A Razão Populista", propõe, entre outras coisas, uma maneira de pensar o populismo como a construção de um corpo a partir de uma multiplicidade contraditória. Longe de desqualificar o populismo como alguma forma de regressão política baseada no culto à personalidade, ele procura compreender sua maneira de criar um campo hegemônico através da convergência de demandas sociais contraditórias.

Lembrem de Getúlio Vargas dizendo: "Meu maior problema não são meus inimigos, mas meus aliados". Sua estrutura de poder era baseada na convergência entre demandas sociais vindas de grupos em posição contraditória, daí a dificuldade de gerir a disputa entre aliados. Algo muito parecido com o que vimos na era Lula. Vargas só podia sobreviver enquanto fosse um "significante vazio", ou seja, alguém que podia levar todos a crer que, no fundo, estava ao seu lado, um pouco como Lula. Foi através deste arranjo frágil que Vargas criou, pela primeira vez, um corpo político no Brasil.

Do ponto de vista estrutural, esse foi o modelo que Lula repetiu e que chegou à exaustão quando as demandas sociais distintas começaram a se anular de forma cada vez mais forte. Contra esse corpo político paralisado, precisamos aprender a criar novos corpos, de maneiras novas. Pois é isso que, de certa forma, falta ao Brasil atual: um corpo.

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