‘Lulismo vive seu momento mais difícil, mas não podemos ainda decretar seu fim’. Entrevista com André Singer

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Por: Jonas | 15 Maio 2015

Os poucos meses que já se passaram nesse segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, o quarto sob o comando do Partido dos Trabalhadores, podem trazer sensações tão díspares quanto intensas. De um lado, a briga de facções que se instalou entre um governismo, envergonhado e tacanho e forças oposicionistas, oportunistas e golpistas. De outro, a apatia de setores médios da população e a revolta entre forças políticas e sociais progressistas.
 
O cenário não poderia ser muito diferente para um governo que se elegeu sob marketing eleitoral mentiroso e que, nem bem iniciado o segundo mandato, parecia velho. Para complicar, um governo que, nesse exato momento, dá mostras de nem mesmo estar governando de fato.
 
Para ajudar a compreender essa intrincada conjuntura política nacional, o Correio da Cidadania entrevistou André Singer, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e autor de importantes obras de interpretação sócio-política da realidade nacional, dentre elas, aquelas que se destinam ao entendimento do fenômeno chamado de ‘lulismo’.
 
Singer ressalta a fraqueza política do atual governo – algo que teria suas sementes já em 2012, desde que as pressões por um ajuste recessivo se reforçaram, ameaçando o ensaio desenvolvimentista do começo do mandato da presidente Dilma. “Olhando pelo ângulo da pressão do capital, era praticamente certo que seria feito o que estamos vendo agora. Surpreendente é que, durante a campanha para a reeleição, a presidente optou por um discurso à esquerda, o que mobilizou setores da sociedade para um engajamento em sua campanha, decisivo para a vitória. Dessa forma, quando ela, 24 horas depois, deixou vazar que iria escolher alguém do mercado para o Ministério da Fazenda, e confirmou, criou-se uma decepção muito grande. Isso começou, assim, a desenhar um quadro de enfraquecimento político”.
 
Ainda que a ideia do impeachment tenha atualmente expressão institucional no país, já que encampada por segmentos poderosos do maior partido de oposição do país, o PSDB, Singer acredita que a presidente irá cumprir seu mandato. Quanto ao lulismo e o petismo, o cientista político enxerga seus futuros em aberto. Mas é enfático em afirmar que o primeiro atravessa o seu momento mais difícil e que o PT é hoje um partido que gravita fundamentalmente em torno do lulismo. Isso, em sua visão, significa que deixou de ser um “partido de classe”.
 
Singer discorre, finalmente, sobre os atuais protestos e manifestações, pró e contra o governo, que ocorrem país afora e sobre as possibilidades que se abrem para a atuação da esquerda. Como colunista de um dos jornais de maior circulação no país, a Folha de S. Paulo, e uma das raras vozes na mídia corporativa a trazer um debate alternativo e progressista, dá sua opinião sobre a mídia hoje no Brasil.

A entrevista é de Valéria Nader e Gabriel Brito, com a colaboração de Raphael Sanz, publicada por Correio da Cidadania, 13-05-2015.

Eis a entrevista.
 
 Aumentos tarifários, desaceleração econômica, crise hídrica e elétrica, escândalos de corrupção. Como vê hoje o país e o seu governo, que pareceu velho nem bem iniciado o segundo mandato e que agora dá mostras de quase nem mesmo estar governando de fato?

No que diz respeito à economia, meu enfoque é político, já que não sou economista. Mas, pelo que vejo, a situação de hoje precisa ser compreendida à luz do que vem ocorrendo desde 2012. Creio que a presidente Dilma tentou, entre 2011 e 2012, fazer uma suave, porém importante, inflexão da política econômica, no sentido de tentar modificar o chamado tripé macroeconômico neoliberal. Ela produziu uma importante redução da taxa de juros, chegamos perto de uma taxa real de 1,5% em sua fase mais baixa, o que é muito significativo na economia brasileira. Produziu uma pequena desvalorização do real e algumas ações no sentido de controle cambial, fundamentais para a retomada da indústria brasileira. E, simultaneamente, manteve o investimento público, que já vinha desde o segundo governo Lula.
 
Portanto, esse conjunto de ações apontava na direção de uma retomada do crescimento, com reindustrialização e aceleração da distribuição de renda. Entre 2011 e 2012, poder-se-ia dizer que as melhores promessas da campanha de 2010 eram cumpridas. O problema é que o projeto, ao qual chamo de ensaio desenvolvimentista, deu errado. No sentido de que o investimento, em lugar de crescer, caiu, já em 2012, e a inflação deu uma pequena subida. A soma dessas duas coisas criou uma situação bem difícil para o governo Dilma.
 
Do ponto de vista político, o assunto que mais interessa, ou que melhor conheço, houve uma recomposição do empresariado e da burguesia brasileira, que tinha se dividido entre duas frações: uma rentista e outra produtivista. Essa divisão ficou mais clara no segundo governo Lula, mas vinha se mostrando desde o primeiro.
 
Paradoxalmente, em 2012 houve uma recomposição em torno das bandeiras neoliberais. E ninguém sabe muito bem por que isso aconteceu. Minha hipótese é de que tenha sido por razões políticas, mas não é o que interessa discutir aqui. O fato é que aconteceu.
 
Dilma chegou no final de 2012 numa situação econômica um pouco difícil e com uma frente burguesa inteira contra ela, cobrando aquilo que está sendo feito agora. Entre 2012 e 2014, na verdade, a presidente de certa forma adiou o processo, o fez pela metade, porque autorizou o BC a aumentar juros novamente, o que, em certa medida, tem a ver com a inflação, mas, por outro lado, impede o processo desenvolvimentista.
 
Ao mesmo tempo, ela seguiu algumas das políticas desenvolvimentistas polêmicas do ponto de vista da esquerda: através das desonerações da folha de pagamentos, uma reivindicação importante dos industriais para aumentar a competitividade da indústria brasileira, mas que, no médio e longo prazo, se dá às custas da previdência dos trabalhadores. No primeiro momento, o Tesouro segura, mas depois haverá cobrança sobre a previdência.
 
Assim, digamos que 2013 e 2014 foram anos de política híbrida, pois não se teve mais condição de continuar desvalorizando o real por conta do impacto sobre a inflação e da subida de preços dos produtos importados. Dessa forma, seria preciso começar a produzir aqui, imediatamente. Se não tem investimento pra isso, não tem produção e a equação não fecha.
 
Resultado: a pressão pelo ajuste recessivo veio crescendo ao longo dos anos, de tal forma que, olhando pelo ângulo da pressão do capital, era praticamente certo que seria feito o que estamos vendo agora. Surpreendente é que, durante a campanha para a reeleição, a presidente optou por um discurso à esquerda, o que mobilizou setores da sociedade para um engajamento em sua campanha, decisivo para a vitória.
 
Dessa forma, quando ela, 24 horas depois, deixou vazar que iria escolher alguém do mercado para o Ministério da Fazenda, e confirmou, criou-se uma decepção muito grande. E um sentimento de engano muito forte. Isso começou, assim, a desenhar um quadro de enfraquecimento político, que foi se acentuar na medida em que essa política de ajuste recessivo já pegou a economia em uma condição ruim. A economia já tinha parado em 2014, já tínhamos uma espécie de prenúncios vagos de desemprego, que vieram a se concretizar. E o ajuste acentua a paralisia e o retrocesso econômico.
 
Esse cenário potencializa rapidamente decepção em setores mais progressistas. E há um segundo elemento de fraqueza política, bastante grave, e que se combina aos fatores de crise: de um lado, a investigação da operação Lava Jato, que, não obstante podermos discutir diversos aspectos de como interpretar o assunto, bem complexo, é, evidentemente, um grande escândalo de corrupção, e pega a base do governo. Há políticos do PSDB aqui e ali envolvidos, mas a base de governo está no centro e é o alvo de um importante desgaste. De outro lado, ocorreu o erro tático de se disputar a presidência da Câmara contra o Eduardo Cunha e sofrer uma derrota visível, que deu muita liberdade ao Cunha de se colocar numa posição que, na realidade, é de oposição ao governo.
 
Combinados esses elementos, temos um governo que começa muito fraco e com um ajuste recessivo que ninguém sabe bem até onde vai. Lendo os economistas, vemos um grau de incerteza. Há aqueles que dizem que será um ajuste mais rápido e suave, tem quem diga que será longo e catastrófico, e tem quem fica no meio termo. No fundo, ninguém sabe o que vai acontecer e onde o processo vai parar. É o panorama em que nos encontramos hoje.

Diante de todo esse quadro, acredita que vivemos, de alguma forma, uma crise institucional no país, inclusive com a possibilidade de eventual abertura de um processo de impeachment, ou mesmo de uma renúncia de fato da presidente, até pela celeuma criada até aqui? O que resultaria para o país em um tal cenário?

Estamos em uma situação em que tais cenários se colocam. Portanto, há a possibilidade de uma crise institucional – que não está dada. Um elemento muito importante é que os militares mostram interesse zero em intervir na cena política. Estamos diante de uma situação que favorece saídas democráticas para a crise. Por esse ponto de vista, o quadro é muito diferente de 1964. Por outro lado, um governo muito fraco dá ensejo a movimentos de impeachment, os quais considero movimentos de golpe branco. Por mais que setores da sociedade não gostem do governo, e têm esse direito democrático, o impeachment não pode ser usado como forma de sub-parlamentarismo.
 
Ou seja, não se pode destituir um governo simplesmente por estar fraco, este não pode ser o pretexto de impeachment. O instrumento não foi feito pra isso. Foi feito para que, em casos extremos, nos quais ficarem comprovados crimes de responsabilidade, se abra um processo. Impeachment serve para interromper uma situação na qual a presidência da República está visivelmente comprometida com crimes de responsabilidade. E não é o caso. Todo mundo sabe que a Dilma é uma mandatária honesta, comprometida com valores republicanos. Pode-se fazer todo tipo de crítica, mas um impeachment nessas condições seria um golpe branco.
 
No entanto, não podemos deixar de enxergar que tal movimento existe na sociedade. Creio que, até este momento, ainda é um movimento isolado. Porém, já há setores significativos do PSDB que se manifestaram em favor. Por enquanto, o PSDB, como partido, não aprovou tal proposta e conteve os que são favoráveis. Mas, na bancada de deputados federais, essa é uma posição significativa. E se o principal partido de oposição compra a ideia, ela deixa de ser movimento isolado na sociedade, e passa a ter expressão institucional.
 
Eu realmente faço votos de que isso não aconteça. E acho que todos aqueles empenhados na solução democrática, onde me incluo, precisam reconhecer que até agora o PSDB não tomou esse rumo. Precisamos trazer o PSDB para a solução democrática, e não empurrá-lo para o lado de um golpe branco. Com relação à renúncia, sempre haverá pressão nesse sentido, hoje pequena. Acredito que a presidente tem uma biografia que mostra capacidade de resistência suficiente pra não chegar a tal.
 
Estamos diante de um governo fraco. Tal fraqueza deverá continuar por um período não pequeno, o que depende da economia, ainda que não exclusivamente, sendo que ninguém sabe quanto tempo vai durar o processo recessivo e o quão profundo será. Mas acredito que a presidente tem condições de cumprir o mandato, que é o que devemos apoiar, mesmo fazendo as críticas, como eu as faço, a respeito do ajuste recessivo, que considero equivocado.

Você mencionou o sub-parlamentarismo. Ainda que afastado por ora o espectro de uma renúncia ou impeachment, não estamos, de um certo modo, já vivendo sob uma espécie de sub-parlamentarismo, uma vez diante de um governo fraco, sem um comando pleno da economia e da política nacionais? Teremos pela frente um tempo sob esse sub-parlamentarismo que você mencionou?

Não podemos nos confundir com as palavras. Sem dúvida, é um governo fraco, começou fraco. De fato, Dilma teve de delegar funções. Na economia, houve uma terceirização, o Ministério da Fazenda aplica a política do PSDB. Na política, teve de chamar o vice Michel Temer e entregar-lhe a articulação política, que agora está na mão do PMDB. Existe essa espécie de delegação. Mas não chamaria de sub-parlamentarismo, e sim de um governo presidencialista fraco, num país hiper-presidencialista como o Brasil, não apenas no sentido de que o presidente tem todas as atribuições de um presidente dos EUA: ele também possui a atribuição de, até certo ponto legislar, por meio de Medidas Provisórias e Decretos.
 
Portanto, é muito forte o presidencialismo aqui, a figura do presidente dá o norte do país, é o centro em torno do qual gira a política nacional. Na medida em que a presidência se enfraquece, temos um teor de confusão e, até certo ponto, irracionalidade, porque as forças começam a agir por si próprias, às vezes de acordo com interesses apenas locais, mas com importantes repercussões na vida do país. Veja-se, por exemplo, a questão da terceirização. Temos, assim, uma situação instável, mas não chamaria de sub-parlamentarismo. Chamaria de regime presidencialista de presidência fraca. Quão fraca e por quanto tempo não sabemos, mas a situação é essa.
 
Penso que o Brasil precisa aprender a conviver com isso: em alguns momentos, a presidência vai estar mais fraca, em outros, mais forte, mas não deixa de ser a presidência da República. Esse é o nosso sistema de governo. Precisamos, no conjunto da sociedade, não só nos acostumar a esse contexto, como construir mecanismos para operar os conflitos, que podem acontecer por diversos motivos. Presidência fraca não é presidência inexistente.

Como um ideólogo e estudioso do que se convencionou chamar de lulismo’, o que significa este conceito, em sua origem e nas atuais circunstâncias históricas do país? E o que responderia a outros estudiosos que veem hoje um esfacelamento da “hegemonia lulista”, em função de se terem esgotado as condições econômicas que deram base a um de seus sustentáculos essenciais, a conciliação de classes - o que, na acepção de alguns estudiosos, como Ruy Braga, está também associado ao fim do consentimento passivo das massas populares?

Só faço um reparo: eu não sou ideólogo do lulismo. E aproveito a oportunidade de falar disso. Sou um analista que tenta entender o processo político brasileiro. O conceito de lulismo me pareceu útil pra compreender um determinado período. Mas a pergunta é fundamental. É o momento mais difícil do lulismo, desde que começou – e creio que começou a se gestar em 2003, não antes. Neste processo de 12 anos, é o momento mais difícil.
 
Pego a pergunta em termos literais, não para dar uma resposta fechada, mas pra focar na questão da hegemonia. O que é hegemonia? Na minha opinião, é a capacidade de direção, de dar uma orientação à sociedade, a partir de determinadas frações ou coalizões de classe. Diria que o lulismo vive seu momento mais difícil porque sua capacidade de direção está em xeque. Fundamentalmente, pela razão de que, se este ajuste recessivo tiver a profundidade que pensam os analistas mais pessimistas – um quadro de alto desemprego, seguro-desemprego restrito pela aprovação das novas regras, lei de terceirizações aprovada –, teremos um conjunto de medidas que vão rebaixar o custo da mão de obra, em outras palavras, o valor do trabalho. Trata-se de algo que põe sob questão o modelo lulista.
 
O modelo lulista é uma política de redução da pobreza extrema, porém, com repercussões favoráveis junto à classe trabalhadora organizada. À medida que se reduz o desemprego, criam-se condições de luta pra classe trabalhadora organizada. E foi isso que aconteceu nos últimos 12 anos. Tanto que houve ganhos salariais. Se formos ver, não foram enormes, mas no conjunto foram. Tanto no salário mínimo, que cresceu 70%, como nos ganhos salariais das categorias que negociaram nos últimos 12 anos. Toda negociação salarial tinha um ganho de 1%, 2%, 3%, o que na soma é significativo.
 
Portanto, houve uma melhora da condição de vida dos trabalhadores em geral. Não só dos muito pobres, que chamo de sub-proletariado, como também dos trabalhadores organizados. Se agora passarmos a uma política que diminua o valor da mão de obra, teremos uma novidade dentro do lulismo que questiona o próprio modelo.
 
A segunda coisa que menciono: a base principal do lulismo não é a classe trabalhadora organizada, embora ela seja indiretamente favorecida por tais medidas. É o sub-proletariado. Acredito que, se a recessão for muito profunda, afetará esse setor também, que até agora está protegido, porque as medidas mais diretamente dirigidas a ele, como o Bolsa família, continuam. Mas repare, por exemplo, que o Financiamento Estudantil (FIES – não diretamente dirigido a esse setor, mas uma das políticas de caráter importante desenhadas no período) está sendo cortado. Claro, porque o tamanho do contingenciamento de recursos do ajuste obriga tais cortes.
 
Assim, elementos importantes do lulismo estão sendo ameaçados. Talvez a diferença na minha análise em relação a certos colegas é que não digo que o processo chegou ao fim. O jogo está sendo jogado, e nesse sentido temos de considerar a potencialidade do lulismo e a liderança, especificamente, do ex-presidente Lula, que já parece mais disposto a disputar em 2018. Portanto, dentro do jogo. Para estar no jogo, ele precisa conter essas medidas, senão não estará dentro. Há uma razão política, portanto, pela qual digo: não vamos decretar o fim do lulismo antes que ele acabe, mas vamos reconhecer que existem problemas muito sérios em jogo.
 
O que tenho dito repetidamente, e ainda vejo motivos pra sustentar, é que há margens de manobras para o lulismo e o ex-presidente. Por isso não adotei a ideia de sub-parlamentarismo. A presidente está acuada, mas tem margens que pode utilizar, a depender de como a situação evoluir. Volto a dizer: há setores de indeterminação, ninguém sabe.
 
Eu diria: ameaçado o lulismo está. A eleição de 2014 já abateu setores lulistas, que decidiram votar no PSDB e se converteram a este lado. Há, assim, realmente, grandes perigos, mas não decretaria o fim do lulismo.

Quanto ao PT, partido há 12 anos no comando do país, Chico de Oliveira, em entrevista ao Correio, narrou não o enxergar hoje mais como um partido, mas como uma liderança personificada, como uma expressão das forças que o lulismo agrega. O que você tem a dizer sobre o partido e o seu futuro?

Eu vi essas observações do professor Chico de Oliveira, a quem respeito muito. Discordaria dele no seguinte: mesmo que sejam um conjunto de forças lulistas, que giram em torno do ex-presidente Lula, ainda é um partido. Com essas características. É, digamos, uma marca não só do atual PT, mas da história dos partidos populares brasileiros. E este não é um tipo de experiência que não se veja em outros lugares do mundo, isto é, lideranças destacadas de alguma maneira se tornarem dominantes no partido.
 
Na época da primeira guerra, o Weber dizia algo semelhante sobre a Alemanha. Que o presidencialismo gera esse tipo de situação, porque os candidatos a presidente com muita capacidade eleitoral subordinam o partido. Num certo sentido, é até bom, dizia ele, porque tais lideranças têm capacidade de dar orientação, enquanto, em partidos dominados por uma burocracia, não se sabe por onde se orientar.
 
Quero dizer apenas o seguinte: eu concordo que hoje o PT gira em torno do lulismo. Foi o que tentei dizer no meu livro Os Sentidos do Lulismo, no capítulo 2, intitulado A segunda alma do Partido dos Trabalhadores. Essa segunda alma é lulista. Não é mais o PT com a alma do Sion. Portanto, mudaria um pouco mais a formulação: não é mais aquele partido. Não é mesmo, e não é de hoje, não se trata de um fenômeno atual. Mas ainda é um partido.
 
O que é atual é o seguinte: a Operação Lava Jato, na sequência do Mensalão, é um golpe terrível e o PT tem de se haver com isso de algum jeito, porque a autoridade moral do partido está sendo minada. E não há partido que possa passar ligeiramente por algo do tipo. Terá de enfrentar o problema. E agora surgem os primeiros sinais de que o fará. Como exatamente, não sei, mas terá de enfrentar a questão.
 
Por outro lado, o partido está comprometido, pois decidiu fazer a política da oposição no campo econômico, o que gera um desgaste enorme. O partido está tendo de pagar, porque é o partido do governo, ele está amarrado a este governo e, em certa medida, o governo não o consultou - segundo declarações que li de figuras como o ex-governador Tarso Genro. Portanto, acho que essas duas circunstâncias combinadas caracterizam um momento extremamente difícil para o PT, o que é diferente das questões que se aplicam ao lulismo, embora estejam relacionadas.

Há uma diversidade de vozes críticas que trabalham com a noção do efeito perverso que o PT, com sua trajetória posterior aos anos de maior combatividade, teve para o campo progressista de esquerda. O que diria quanto ao que significou e significa o PT para a esquerda e para sua eventual reconstrução?

O PT se deslocou da posição de um partido, outrora, nitidamente de esquerda, o que foi algo extraordinário para o Brasil, pois, com a ilegalidade do Partido Comunista, nunca tínhamos tido a experiência de um partido de classe legal. E durante 20 anos, entre 1980 e 2002, o PT foi um projeto bem sucedido de um partido de classe no Brasil. Isso marcou a política brasileira do período. Com o deslocamento para o lulismo, o PT continua sendo um partido do campo da esquerda, é extremamente sólido, muito enraizado e capilarizado no Brasil. E com o lulismo, tornou-se um partido popular.
 
Isso deu uma chance à esquerda que não foi aproveitada: houve um momento em que setores que sempre votaram com os conservadores, e estiveram sempre sob sua sombra, estavam, digamos, acessíveis para uma visão mais à esquerda. O que não foi aproveitado, não houve a politização que poderia ter havido, razão pela qual chegamos hoje a uma situação complicada. Porque não há dúvida de que o PT é o principal partido do campo da esquerda, no entanto, como se deslocou, não é mais um partido de classe. Portanto, não tem mais o trabalho de politização que fez durante seus primeiros 20 anos e que foi muito útil pra classe trabalhadora brasileira.
 
Agora, como a esquerda brasileira vai se reorganizar? Uma parte dela continua no PT, outra não está mais e há outros partidos que sempre existiram fora do PT. Eu acho que o momento indicaria a formação de uma frente de esquerda, que pudesse dar uma orientação para o conjunto das forças progressistas numa hora tão delicada como essa. Porém, tal frente passa por diversas questões, os interesses particulares de cada partido, as diferenças dentro dos movimentos... Também existe a tradicional e permanente tendência de a esquerda se dividir...
 
Sempre penso, mas talvez seja um pensamento desejoso, que a esquerda talvez conseguisse repetir neste momento justamente o que foi o PT nos anos 80: o grande guarda-chuva sob o qual inúmeros setores de esquerda, que tinham muitas diferenças, conseguiram se aglutinar e manter unidos. Seria preciso repetir uma operação desse grau de inteligência política. Se será possível ou não, só o tempo dirá.

O que pensa da ‘divisão’ do país, com manifestações sendo convocadas contra e a favor do governo, de modo a se aproximarem muitas vezes a uma briga de facções? Como você enxerga tais manifestações, as mais marcantes nos dias 13 e 15 de março?

 Por um certo ponto de vista, são normais. Desde 2013, nas manifestações de junho, vivemos um processo de agudização da luta de classes no país, de conflitos distributivos e acirramento político. Portanto, é normal que num momento político como esse as forças entrem nas ruas e façam manifestações públicas. Mas uma novidade importante foi a potência das manifestações convocadas pela oposição, ou por setores de oposição, em 15 de março e 12 de abril. Foram muito grandes, sendo a primeira bem maior, mas a segunda ainda foi grande, principalmente em São Paulo.
 
Elas expressam, a meu ver, uma novidade. Não é só a direita que foi para a rua. É um fenômeno importante, no caso, o espraiamento do antipetismo, um fenômeno social de relevo, que pegou a chamada classe média tradicional em cheio. Com certas conotações de ódio que são muito deletérias. Uma coisa é ter divergência política, disputar a orientação do país; outra coisa é querer eliminar o adversário. E vejo uma conotação antipopular nessa reação. Chego a qualificá-la quase como uma reação contra o povo brasileiro, porque é uma reação contra a melhora das condições de vida dos setores populares. Isso é muito ruim.
 
Porém, acho que também há muita gente de centro nas manifestações. Tais pessoas, de centro, estão insatisfeitas com a situação do país, por razões compreensíveis, e estão procurando uma saída, de tal modo que, justamente pra voltar a falar de hegemonia e direção, é preciso disputá-las e dar-lhes uma orientação. Minha expectativa seria que se formasse uma frente de esquerda ampla o suficiente pra poder oferecer uma alternativa ao que está sendo feito, em relação à saída recessiva que vemos, e ver se construímos uma maioria em torno dessa opção, que considero muito boa para o Brasil.

Qual a sua opinião sobre tantas movimentações, greves e protestos sociais que têm acontecido país afora, e que correm por fora daquelas que ocorrem com ‘dia marcado? Indicam a possibilidade de incremento de massividade, quiçá um novo junho de 2013?

Não. Junho de 2013 não vai se repetir. Foi um processo confuso e muito misturado, de tendências políticas antagônicas. E elas não têm por que estarem juntas novamente. Aquele tipo de conformação não se repetirá. Não estou vendo nenhuma saída desse tipo no curto prazo. Acho que viveremos um período longo de disputa, o qual exigirá muita paciência e inteligência. Paciência no sentido de que democracia é assim mesmo, quando a situação fica mais difícil e disputada, os conflitos se acirram.
 
Acho importante dizer, e vale pra direita, esquerda e centro, que é preciso apostar em saídas democráticas. Vamos disputar, mas democraticamente. Isso faz bastante diferença. E inteligência, do ângulo da esquerda, porque não será possível construir uma saída econômica para o Brasil sem conformar uma grande maioria. Porque as saídas que a esquerda gostaria envolvem confrontos com o capital internacional. Não se faz esse confronto com chance de vitória se não houver uma ampla maioria por trás. O problema todo é a construção dessa maioria. Por isso insisto na questão de se construir a frente.

Mas olhando tantas greves e protestos, sem muita conexão em nível nacional, mas em número crescente nos últimos anos (a exemplo dos garis do Rio ou dos professores em São Paulo e Paraná),  acredita que possa surgir alguma força alternativa organizada para além dos setores pró ou contra o governo, uma espécie de “terceira via”?

 Esses movimentos mencionados, de fato, existem, e são expressão da luta que está posta. Do mesmo modo que temos setores de direita e centro indo para a rua em torno de um projeto que considero regressivo, temos setores que começam a se mobilizar em torno de seus interesses específicos, mas apontando a um projeto mais progressista. A questão, novamente, é juntar tudo em torno de uma opção que aponte para o conjunto.
 
Não falamos muito disso aqui, porque analisamos o ajuste recessivo, mas, numa próxima oportunidade, talvez devamos falar das alternativas. Não podemos só criticar. Não se trata apenas de resistir ao ajuste recessivo, mas também de oferecer uma alternativa de direção. Assim, o problema está em como conformar, ao mesmo tempo, uma grande frente que envolva tais movimentos em voga, muito importantes, e também a construção de um projeto factível de desenvolvimento do país.
 
Os problemas reais estão colocados. E não são simples de resolver. Digamos que seria a combinação das duas coisas que permitiria pensar em uma alternativa. Não falaria em terceira via, mas na elaboração de uma alternativa progressista para esta crise.

Finalmente, como uma das raras vozes com espaço na grande imprensa a trazer a visão de um campo mais progressista, como tem visto a postura dessa mídia, tão criticada por espectros políticos de esquerda, e chamada de golpista por representantes do governo?

Temos de ter uma posição de princípio a favor da pluralidade dos meios de comunicação e sua absoluta liberdade. E precisamos reconhecer que, com todos os problemas que têm os meios de comunicação, eles são decisivos na fiscalização do poder dentro das democracias. Podemos dizer que só se dá atenção a algumas denúncias, e não a outras, o que deve ser considerado. Porém, não podemos deixar de dizer que uma parte das denúncias tem revelado casos reais, não são fatos inventados. Portanto, é preciso partir do reconhecimento do papel fiscalizador que os meios de comunicação exercem.

 Posto isso, é verdade também que os meios de comunicação maiores tendem a ter uma posição política, social e econômica conservadora. Alguns deles preservam certa pluralidade dentro da qual é possível abrigar pensamentos opostos. Mas, se olharmos a média, a tendência é uma posição conservadora nos aspectos mencionados.

 Portanto, cria-se um desequilíbrio no debate democrático, que pode gerar uma distorção. Porque, se os pontos de vista principais não têm um peso mais ou menos equivalente, de alguma maneira está se falseando a realidade. E, num momento de crise, isso é o mais preocupante.

Porém, acho que as principais saídas estão naquilo que vocês fazem: construir veículos que consigam se firmar e apresentar livremente pontos de vista alternativos, também se apresentando ao debate. Não podemos deixar que a bandeira da liberdade de imprensa e do respeito absoluto à liberdade de expressão fique na mão dos liberais. Essa também é uma bandeira socialista.