Kirill, o patriarca que ama o luxo e o YouTube e chama Putin de "milagre de Deus"

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16 Fevereiro 2016

Das Ilhas das Lágrimas à Ilha da Liberdade, no Caribe, da URSS ao ecumenismo, passando pela Síria. É uma biografia complexa e contraditória a de Vladimir Mikhailovich Gundyayev, 69 anos, nascido na então Leningrado, assim como Vladimir Putin, ordenado monge em 1969, em pleno ateísmo de Estado, desde 1989 chefe do Departamento de Relações Exteriores do Patriarcado, ex-metropolita de Smolensk e Kaliningrado, que subiu à liderança da Igreja Russa desde 2009.

A reportagem é de Lucia Sgueglia, publicada no jornal La Stampa, 13-02-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Filho e neto de sacerdotes, seu avô sofreu 30 anos de Gulag nas famigeradas ilhas Solovki. Ultraconservador e contrário às reformas litúrgicas e doutrinais, na sua nomeação, porém, foi acusado de "modernismo" e de "pró-catolicismo" pela ala mais intransigentes do seu próprio clero.

Apaixonado internauta, hábil comunicador e diplomata, alinhado com o Kremlin sobre os dossiês políticos mais importantes (com excepção da Ucrânia, país irmão na fé). Mas é precisamente ele que abriu a brecha em mil anos de divisão entre a primeiro e a terceira Roma, fazendo o histórico passo que o seu antecessor Alexei II, aquele que trouxe a fé novamente para a Rússia depois de 70 anos de URSS, sempre recusou.

Próximo, muito próximo de Vladimir Putin, de acordo com alguns, incluindo fiéis, ele quase teria cancelado a separação Igreja-Estado. Criticado pelo seu suposto amor pelo luxo, pelo caríssimo relógio suíço Breguet que "desaparece" das fotos oficiais, pelas suspeitas mansões no Mar Negro ou pelos mega-apartamentos em frente ao Kremlin. Acusado de contrabando de cigarros e até mesmo de vínculos com a KGB, por causa dessa sua carreira litúrgica precoce, que começou há muito tempo.

Ao lado de Putin também na cruzada moralista lançada na Rússia com o terceiro mandato: das leis antigays (com declarações homofóbicas, ele considerou "honestos" alguns "terroristas" do Isis em fuga do "radicalismo secular" que celebra as Paradas Gays) à condenação à prisão das "blasfemas" Pussy Riot (das quais é considerado como o inspirador), aos ataques contra a oposição liberal russa, em 2012, ele definiu os protestos em massa nas ruas contra o Kremlin como "gritos de furar os tímpanos", elogiando Putin como "milagre de Deus". Desafiando a misericórdia.

Mas se o líder russo se orgulha de não usar e-mail, o patriarca não gosta de navegar na web, e parece que se irrita muito com as críticas online, tanto que teria pedido aos popes de se absterem de comentários "agressivos" na web. Ele tem a sua própria página no Facebook, um canal no YouTube dedicado aos jovens, desde 1994 é um rosto bem conhecido da TV estatal com o programa semanal "A palavra do pastor".

O Ocidente "bom"

Uma Igreja não pauperista como a buscada por Francisco também é a sua. Mas, em Bergoglio, para os especialistas russos, Kirill vê um papa "não europeu" e não alinhado com os EUA, portanto, um representante de um Ocidente alternativo, "bom". Em 2008, Fidel Castro, inaugurando a primeira Igreja Ortodoxa Russa em Havana, chamou o então metropolita de "aliado contra o imperialismo norte-americano".

O encontro de Cuba, asseguram os kremlinologistas, não teria acontecido sem a bênção do Kremlin. E daria uma mão a Putin para romper o isolamento internacional da Rússia devido a sanções, Ucrânia e Síria, apresentado Moscou como o último defensor da cristandade contra brutais selvagens a Oriente, e "pagãos decadentes" a Ocidente. Com um olho na política religiosa: o primeiro Concílio pan-ortodoxo será realizado em junho, em Creta, depois de 12 séculos, e Kirill, com o Patriarcado de Moscou, visaria a arrancar, legitimada por Francisco, a supremacia moral do rival Bartolomeu, patriarca de Constantinopla, "primus inter pares" entre as Igrejas ortodoxas mundiais.

Mas, em Moscou, todos reconhecem em Gundyayev a inesperada coragem de um passo impopular dentro da sua Igreja: muitos, os mais conservadores, não aprovam o abraço com o Vaticano, em que veem uma coisa só com o Ocidente "inimigo". E, nesse sentido, pode-se dizer, o seu passo é "progressista".