Séculos de teologia e medidas políticas para recompor o Grande Cisma. Artigo de Silvia Ronchey

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11 Fevereiro 2016

Hoje, quando quem se coloca como defensor da cristandade no mundo islâmico em chamas é novamente, como séculos atrás, um "czar", o movimento de Francisco parece ser novamente um chamado à Realpolitik: a melhor arma que a Igreja soube usar na história quando olhou não para as questões internas, mas para as grandes convulsões do globo.

A análise é da filóloga e bizantinista italiana Silvia Ronchey, professora da Universidade Roma Tre. O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 07-02-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A recomposição do cisma entre as Igrejas tem na história um precedente concreto: a Bula de União que, em 1439, no Concílio de Ferrara-Florença, foi lida por Bessarion, então delegado bizantino, e pelo cardeal Cesarini, representante do Papa Eugênio IV.

Depois de séculos de tentativas, parecia abolido aquele "golpe de tesoura" ("cisma", do grego esquizo, "cortado em dois"), que tinha dividido a cristandade em 1054, nos tempos do cardeal de Silvacandida, legado do Papa Leão IX, e de Miguel Cerulário, patriarca de Constantinopla.

A motivação da excomunhão recíproca entre papa e patriarca era política. Silvacandida reiterava a antiga pretensão do primado petrino, reivindicando a supremacia do bispo de uma Igreja, a de Roma, que tinha se feito Estado.

Cerulário queria se impor sobre o seu próprio imperador, verdadeiro líder da Igreja em um Estado, o bizantino, em que o clero tinha sido deposto pelo poder secular.

Não eram menos políticos os outros assuntos dogmáticos do cisma: à parte do celibato dos padres ou da questão dos pães ázimos, estava no centro, e está ainda hoje, a questão do Filioque. Concílios e concílios, na época das disputas trinitárias, tinham discutido sutilmente a processão do Espírito Santo, para concordar no fim que ele procedia do Pai através do Filho (per Filium).

A reivindicação bizarra, que surgiu na distante e selvagem Espanha dos séculos escuros, de que o divino Pneuma procedia do Pai "e do Filho" (Filioque, justamente) não era uma alternativa real para a conclusão dos grandes Padres conciliares. O Filioque católico era uma interpolação incultura que não se podia nem sequer incluir entre as tantas definições errôneas da teologia trinitária. Mas esse erro, que distorcia o Credo Niceno-Constantinopolitano, tinha sido defendido pelos seus bons motivos pelos papas dos tempos de Carlos Magno, que havia imposto um pequeno e próprio "Sacro Império Romano" rival daquele que até então era hegemônico, Bizâncio.

Sobre essa forçação, o papado havia prosperado e reforçado a sua influência na Europa. A assunção do Filioque como bandeira do cisma, portanto, era tanto teologicamente pretextuosa quanto eminentemente político-real.

Igualmente realista, em um momento de implacável avanço islâmico, havia sido a Bula de União de Florença. A contrapartida do transformismo dogmático de Bessarion era a grande expedição militar das potências europeias para evitar que Constantinopla caísse na mão dos turcos, efetivamente organizada por Roma, mas fracassada em Varna em 1444, por causa de uma daquelas variáveis caóticas de que a história é feita.

Sem a traição de alguns mercadores genoveses, a União de Florença talvez teria se sustentado, o mundo cristão não teria se dividido. Mas a história não se faz com os "se". Depois do massacre de Varna, a União foi vista no Ocidente como uma maldição. No Oriente, ela já havia sido denunciada não só pelo clero constantinopolitano, mas também e principalmente pela desenfreada Igreja russa.

Isidoro de Kiev, que, junto com Bessarion tinha-a concertada, foi preso na fortaleza do Grande Príncipe de Moscou. Não se sabe como ele conseguiu fugir de lá, mas ele o fez e chegou a Roma, onde se tornou "cardeal oriental" da Cúria. Ainda na véspera da queda de Constantinopla, ele celebrou em Santa Sofia uma grande missa "com as Igrejas unidas". Depois, combateu nos bastiões, foi derrotado, salvou-se e escreveu ao papa que o demônio islâmico apontava para a Europa e "ameaçava entrar em São Pedro".

Era um exagero, mas é preciso dizer que a queda de Constantinopla em 1453 teve sobre o mundo um efeito traumático comparável ao da queda das Torres Gêmeas: insinuou um terror do Islã e uma islamofobia que só poucos iluminados como Nicolau de Cusa ou o papa humanista Pio II tentaram atenuar. Com a Segunda Roma amplamente islamizada, o primado da cristandade oriental passou para a Terceira Roma, Moscou.

As núpcias de Ivan III e Zoe Paleologina transplantaram para a Rússia a sucessão dinástica dos "césares", soldando-a ainda mais com a ortodoxia. A doutrina teológico-autocrática da Terceira Roma czarista, apoiada por Ivan, o Terrível, se perpetuaria até o império comunista. Na era moderna, não seria mais a Igreja grega, definhando sob a turcocracia, mas a russa, ligada a um Estado forte, o verdadeiro obstáculo ao primado dos papas. Terceira margem no duelo entre Império Otomano e potências europeias, Moscou não revogaria nunca o fechamento à União manifestada desde o início pelo seu clero.

Desde o encontro de Jerusalém com o Patriarca de Constantinopla, Bartolomeu, em maio de 2014, Bergoglio anunciou uma celebração conjunta entre católicos e ortodoxos do Concílio de Niceia de 325, que 17 séculos atrás expressou a formulação original do credo. Último em um crescendo de mensagens à Igreja Russa, preliminar ao Conselho pan-ortodoxo de junho, o gesto de abertura ao Patriarca Kyril parece ser, na estratégia ecumênica de Francisco, uma ajuda não só para o diálogo entre ortodoxos e católicos, mas também para o diálogo interno entre ortodoxos, condicionado pela sua complexa história.

Hoje, quando quem se coloca como defensor da cristandade no mundo islâmico em chamas é novamente, como séculos atrás, um "czar", o movimento de Francisco parece ser novamente um chamado à Realpolitik: a melhor arma que a Igreja soube usar na história quando olhou não para as questões internas, mas para as grandes convulsões do globo.

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