A dimensão moral das mudanças climáticas – e a coragem de abordá-las

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20 Janeiro 2016

A implementação do Acordo de Paris sobre as mudanças climáticas afinou o debate da encíclica papal Laudato Si’ em um congresso da ONU proposto pela Santa Sé e por várias missões permanentes das Nações Unidas em 15 de janeiro em Genebra.

A reportagem foi publicada por World Council of Churches, 15-01-2016. A tradução de é Isaque Gomes Correa.

Entre os principais personagens do evento estavam o Cardeal Peter Turkson, presidente do Conselho Pontifício “Justiça e Paz; Dom Silvano M. Tomasi, núncio apostólico na missão permanente da Santa Sé nas Nações Unidas; e o secretário-geral do Conselho Mundial de Igrejas – CMI, o Rev. Dr. Olav Fykse Tveit.

A encíclica, emitida seis meses antes da conferência histórica conhecida como COP21 em Paris no fim do ano passado, contou com debates enérgicos sobre o imperativo moral subjacente de se abordar as mudanças climáticas com antecedência às negociações entre os 195 países membros da ONU.

O documento Laudato Si’ catalisa o que as igrejas, em várias partes do mundo e no CMI, vêm dizendo sobre a relação estreita entre o clamor da terra e o clamor dos pobres. Apresentada explicitamente pelo Papa Francisco como parte da Doutrina Social da Igreja, esta encíclica marca um ponto de inflexão ao incluir a criação como uma preocupação-chave e a ecologia integral como parte do ensino católico”, disse Guillermo Kerber, coordenador executivo do programa Cuidado da Criação e Justiça Climática, do CMI.

Segundo a embaixadora francesa María Fernanda Espinosa Garcés, a amplitude da encíclica faz dela o melhor exemplo de uma reflexão ampla a respeito das dimensões filosóficas, éticas e sociais mais profundas colocadas pela crise contemporânea. Na verdade, segundo Tomasi, o documento diz respeito não só às mudanças climáticas como também “a uma crise complexa, social e ambiental”.

Ao apontar para uma noção distorcida da pessoa como a causa originária da crise, o Papa Francisco “exorta cada um de nós a uma conversão ecológica”, disse o Cardeal Turkson. A COP21 “nos dá condições de fazermos um novo começo”, uma virada radical em direção a soluções abrangentes para o meio ambiente e para aspectos sociais da nossa crise coletiva. “Toda decisão carrega uma dimensão moral profunda”, acrescentou Turkson, e nós precisamos nos engajar com os pobres do mundo e com a natureza. 

“Nós recebemos a terra como um jardim”, disse ele. “Não podemos passá-la adiante como um deserto”.

As origens das transformações morais

Precisamos de uma “ação rápida e eficaz” na implementação do Acordo de Paris, disse o Michael Møller, diretor geral da ONU em Genebra. “A liderança moral das comunidades religiosas é fundamental”.

O Acordo de Paris, que comprometeu os países a limitar as mudanças climáticas em até 2ºC, irá necessitar de amplas e substantivas mudanças econômicas, políticas e em nossos estilos de vida. “O problema é ter coragem e imaginação”, disse Moy Hitchen, irmão cristão representando a organização Edmund Rice International no evento em Genebra. “O que tem estado em falta é a vontade de implementar” as políticas e práticas que já conhecemos, afirmou.

Como podemos nutrir e estimular a coragem entre todos os atores a fim de fazer as mudanças radicais necessárias?

“Confrontados com uma crise mundial que tem dimensões políticas, ecológicas, sociais, culturais e religiosas, começamos a ver a profunda necessidade de mudança e transformação para sustentarmos a vida em nosso planeta”, complementou ele. Mesmo assim, “há motivos para termos esperanças”, disse apontando para o engajamento generalizado das igrejas e pessoas na dianteira da COP21.

“Nutrir esperança é um princípio ético fundamental em qualquer relação humana. Não se trata de se ser puramente otimista, ou mesmo ignorar os riscos e problemas. É uma questão de identificarmos aqueles sinais autênticos de esperança”.

Continuando, Hitchen observou: “Todos os seres humanos têm o direito à esperança. A fé em Deus, quem deseja a plenitude da vida para toda a humanidade, é uma forma de se relacionar com o mundo, assim como a convicção e o comprometimento de que algo mais e melhor é possível. A fé é uma contribuição para a esperança. Nós precisamos, portanto, renovar uma teologia da esperança. Uma pergunta importante na crítica da religião é: As religiões e os líderes religiosos estão transmitindo esperança para todos?”

Ao concluir, ele acrescentou que “chegou a hora de os que moldam o discurso moral (…) apontarem mais para as possibilidades existentes de fazermos aquilo que auxilia o futuro do nosso planeta”.