O próximo Sínodo já está em construção. Sobre os padres casados

Revista ihu on-line

Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

Edição: 545

Leia mais

Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

Edição: 544

Leia mais

Ontologias Anarquistas. Um pensamento para além do cânone

Edição: 543

Leia mais

Mais Lidos

  • O que deve ser cancelado? Eis a questão

    LER MAIS
  • CNBB emite nota sobre o desrespeito à fé cristã

    LER MAIS
  • Indígena assassinado no Maranhão é o 4º Guajajara morto de forma violenta em menos de dois meses

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

Por: André | 11 Dezembro 2015

Em meados de fevereiro de 2016, o Papa Francisco irá para Chiapas, onde centenas de diáconos com esposas pressionam para serem ordenados sacerdotes. Também na Amazônia o ponto de inflexão parece próximo. Estava tudo escrito na agenda do cardeal Martini.

A reportagem é de Sandro Magister e publicada por Chiesa.it, 09-12-2015. A tradução é de André Langer.

Enquanto se aguarda o pronunciamento do Papa Francisco sobre a comunhão aos divorciados recasados, tema debatido em dois sínodos e nos quais houve divisões, já é possível vislumbrar qual será o tema da próxima sessão sinodal: os padres casados.

A escolha do tema cabe ao Papa, como aconteceu com os sínodos passados e como acontecerá com o próximo, independentemente do que também propuserem os 15 cardeais e bispos do conselho que faz a ponte entre uma sessão e outra.

Vários indícios dão a entender que os padres casados será o próximo tema de discussão sinodal.

* * *

O primeiro indício é a clara vontade do Papa Francisco de colocar em prática o programa apresentado em 1999 pelo cardeal Carlo Maria Martini, em uma intervenção memorável no Sínodo daquele ano.

O então arcebispo de Milão, jesuíta e líder indicustível da ala “liberal” da hierarquia, disse ter “tido um sonho”: o de uma Igreja capaz de colocar-se em estado sinodal permanente, com um “debate colegiado e autorizado entre todos os bispos sobre alguns temas centrais”.

Estes são os “temas centrais” enumerados por ele: “A falta de ministros ordenados, o papel da mulher na sociedade e na Igreja, a disciplina do matrimônio, a visão católica da sexualidade, a prática penitencial, as relações com as Igrejas irmãs da ortodoxia e, mais em geral, a necessidade de reviver a esperança ecumênica, a relação entre democracia e valores e a relação entre leis civis e lei moral”.

Da agenda martiniana, os dois sínodos convocados até agora pelo Papa Francisco discutiram precisamente “a disciplina do matrimônio” e em parte “a visão católica da sexualidade”.

Nada proíbe, então, que o “tema central” do próximo sínodo possa ser aquele que Martini colocou à frente de todos os outros: “a falta de ministros ordenados”.

* * *

A falta de padres – que na Igreja católica latina são normalmente celibatários – é sentida particularmente em algumas regiões do mundo, sobretudo na América Latina.

Há um ano, o bispo Erwin Kräutler, austríaco de nascimento e titular no Brasil da Prelazia do Xingu, que dispõe de apenas 25 padres para um território maior que a Itália e, consequentemente, com a possibilidade de celebrar a missa e os sacramentos apenas duas ou três vezes ao ano nas localidades mais remotas, transmitiu ao Papa Francisco o pedido de muitos bispos como ele de suprir a falta de padres celibatários conferindo a ordem sagrada também a “varões provados”, isto é, a homens de virtude comprovada e casados.

O pedido não é novo. E os bispos brasileiros – mas não exclusivamente eles – fizeram-no várias vezes. O cardeal Cláudio Hummes, de 81 anos de idade, arcebispo emérito de São Paulo e amigo e grande eleitor de Jorge Mario Bergoglio, já o propôs quando era prefeito da Congregação para o Clero, entre 2006 e 2010.

Atualmente, Hummes é presidente da Comissão para a Amazônia, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, e da Rede Pan-Americana, que reúne 25 cardeais e bispos dos países da região, além de representantes indígenas de diferentes etnias locais. No exercício deste cargo declarou, no mês passado, na Rádio Vaticano que ele se propõe a “trabalhar para que haja uma Igreja indígena, uma Igreja imersa na história, na cultura e na religião dos indígenas, uma Igreja que tenha como guia um clero indígena. Eles têm direito a isso. Eles são a última periferia que temos, a mais distante”.

Desta vez, Hummes não disse mais. Mas, sabe-se que dizer “clero indígena” neste contexto significa propor um clero também casado.

Este ano correu o boato de que o Papa Francisco teria escrito ao cardeal brasileiro Cláudio Hummes uma carta em apoio a uma reflexão sobre o celibato eclesiástico e sobre a ordenação de “varões provados”. O Pe. Federico Lombardi negou a existência desta carta. Mas, acrescentou, “é verdade que o Papa convidou mais de uma vez os bispos brasileiros para buscar e propor com coragem as soluções pastorais que considerem apropriadas para enfrentar os grandes problemas pastorais de seu país”.

* * *

Em outra área da América Latina, em Chiapas, no sul do México, a pressão pelo clero casado concretizou-se nas décadas passadas na ordenação de um número exorbitante de várias centenas de diáconos indígenas, em uma diocese tão extensa como a de San Cristóbal de Las Casas, na qual os padres são poucas dezenas e quase todos idosos.

A ordenação em massa destes diáconos, todos casados, chegou ao seu ponto culminante nos 40 anos de episcopado, de 1959 até 2000, de Samuel Ruiz García, que se tornou célebre por sua proximidade com o Subcomandante Marcos, no longo conflito em Chiapas entre o Exército Zapatista de Libertação (EZLN) e o governo federal mexicano.

Mas, em 2000, com a renúncia de Ruiz García, Roma ordenou a suspensão das ordenações de novos diáconos. Proibiu o costume de chamá-los “diáconos indígenas”, como se constituíssem uma tipologia nova e diferente dos ministérios da Igreja. Ordenou que as esposas não se fizessem chamar “diaconisas”, nem muito menos fazer crer que também elas tinham recebido uma ordenação sacramental, por causa do costume de impor as mãos também a elas durante o rito de ordenação dos maridos. Solicitou aos diáconos já ordenados para que declarassem publicamente que sua ordenação acabava ali e não constituía de maneira alguma uma etapa para uma posterior ordenação sacerdotal, como padres casados.

Mas, depois da chegada de Bergoglio ao papado, a proibição foi revogada. Em maio de 2014, Roma autorizou novamente o sucessor de Ruiz García, o bispo Felipe Arizmendi Esquivel, para retomar as ordenações diaconais. O bispo anunciou rapidamente que tinha a previsão de ordenar cerca de 100 novos diáconos.

Ao mesmo tempo, em Roma, o Papa Francisco procedia a uma profunda mudança de diretores e de pessoal da Congregação para o Clero, na qual se aninhava a maior resistência contra a introdução de um clero casado.

Mas, há mais. Agora é certo que Francisco, em sua próxima viagem intercontinental, na metade de fevereiro, ao México, fará uma etapa precisamente em Chiapas, em San Cristóbal de Las Casas.

No dia 10 de fevereiro passado, Francisco, ao receber em Santa Marta os 12 padres, dos quais cinco deixaram o ministério porque se casaram, disse, ao ser interpelado: “O problema está presente na minha agenda”.

Já há quem preveja um passo a mais: que Francisco volte a colocar em discussão não apenas o celibato do clero, mas também a proibição da ordenação sagrada das mulheres. É o que deseja, por exemplo, uma famosa irmã beneditina estadunidense, Joan Chittister.

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

O próximo Sínodo já está em construção. Sobre os padres casados - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV