A Maria da hierarquia, tão diferente da nossa. Artigo de Joan Chittister

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27 Setembro 2013

Maria era uma mulher não intimidada pela Encarnação, que não devia nada a respostas masculinas, não intimidada a dar orientações sobre o que deveria ser feito, que tinha um alto senso de responsabilidade pessoal e que não tinha nem um pouco de dúvida sobre o seu lugar na hierarquia da Igreja.

A opinião é da irmã beneditina norte-americana Joan Chittister, prioresa por 12 anos da comunidade de Erie, Pennsylvania, nos Estados Unidos, copresidente da Global Peace Initiative of Women, organização internacional parceira da ONU em temas de paz e mulheres, e ex-presidente da Leadership Conference of Women Religious (LCWR).

O artigo foi publicado por Adista, 23-09-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Uma das grandes descobertas científicas do século XX gira em torno do papel desempenhado pela comunicação em situações estressantes – a noção de que o estilo de comunicação de uma pessoa pode suavizar ou endurecer o conflito, dependendo de como ele seja usado; a ideia de que simplesmente a quantidade de informação fornecida em situações cruciais afeta o tom, a eficácia e os resultados das negociações. Como resultado dessas descobertas, corporações inteiras mudaram os seus processos de tomada de decisão e de disseminação de informações.

Então, com isso em mente, as pessoas esperaram obter informações sobre o andamento da visitação vaticana da LCWR a partir do encontro deste ano, em Orlando, na Flórida. Dado o fato de que não veio nenhuma informação, as pessoas tiraram as suas próprias conclusões.

Eu, por outro lado, fui buscar o único fragmento de dados que a assembleia conseguiu produzir sobre o assunto, a homilia que Sartain proferiu aos seus membros. E era um claro fragmento de comunicação.

Nessa homilia, Maria é "quieta", "dócil", submete a si mesma e não tem nenhum "desejo ou necessidade de entender as coisas (...) ou de resolvê-las para a sua própria satisfação pessoal". Não havia – nos é dito aqui – nenhum "não" ou "meu" nela. A Maria dessa homilia é um receptáculo passivo do que ela entende ser a Palavra de Deus.

Bem, talvez. Mas pode ser bom pensar um pouco sobre tudo isso à luz das outras coisas que nós também sabemos sobre Maria.

O objetivo desta coluna não é para analisar o que o bispo disse sobre Maria na festa da Assunção. Ao contrário, eu prefiro olhar para o que ele não disse sobre ela, porque, parece-me, o que ele deixou de fora dessa homilia diz muito sobre o que se espera das mulheres na Igreja Católica.

Por exemplo, Maria responde à declaração do anjo a ela questionando-o. Um anjo! Alguém de uma posição muito mais elevada, ao que parece, do que até mesmo os delegados apostólicos. E só então ela responde com uma resposta "Seja feita a sua vontade" a uma situação em que, aparentemente, um "não" era uma resposta viável. Caso contrário, por que se incomodar conversando?

Ainda mais importante, talvez, é a consciência de que, apesar da seriedade – até mesmo do perigo – da sua situação, Maria não recorreu a homem algum – aos sumos sacerdotes do templo, ao rabino local, ao seu pai ou mesmo a José – para obter instruções sobre o que deveria fazer. Ao invés, ela recorreu a outra mulher em busca da sabedoria que ela precisava e seguiu-a. Não houve visitações aqui.

Em outro exemplo, nas bodas de Caná, Maria dá o seu próprio conjunto de ordens apostólicas a ninguém menos do que o próprio Jesus, assim como para a equipe de servidores, dizendo: "Vão e façam o que ele lhes disser".

A própria Maria questionou a conveniência daquilo que Jesus estava fazendo no templo com os anciãos e, posteriormente, fez parte de uma multidão de familiares e de amigos que estavam até preocupados que Jesus pudesse estar "perdendo o juízo".

E, finalmente, se alguém quiser saber como Maria foi uma figura influente e importante para o desenvolvimento da Igreja primitiva, a própria ideia de ela fazer parte da reunião dos apóstolos em Pentecostes, quando cada um deles foi ungido no discipulado pelo Espírito Santo, deveria ser suficiente para dissipar a noção de que o que temos aqui é uma mulher sem um forte senso de si mesma.

Não, a Maria não mencionada nessa homilia sobre a Assunção era uma mulher não intimidada pela Encarnação, que não devia nada a respostas masculinas, não intimidada a dar orientações sobre o que deveria ser feito, que tinha um alto senso de responsabilidade pessoal e que não tinha nem um pouco de dúvida sobre o seu lugar na hierarquia da Igreja.

Essas, penso eu, são precisamente as qualidades que vemos nas mulheres do nosso próprio tempo que estão abrindo espaço para aquilo que algumas partes da Igreja chamam agora de "feminismo radical".

Do meu ponto de vista, esse é um triste mau uso da linguagem e até mesmo um caso mais triste de cegueira espiritual.

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