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Rompimento da barragem de rejeitos da Samarco em Mariana: além de tudo, um clássico exemplo de irresponsabilidade na gestão de riscos

"Essas áreas então desocupadas, e que coincidem hoje com a mancha de lama que pode ser vista em imagens aéreas pós-rompimento, seriam então utilizadas para funções de baixa presença humana, como bosques florestados e parques. Ou seja, inaceitável que nessas áreas de extremo risco tenha-se convivido todo esse tempo com a instalação urbana de residências, escolas, comércio, etc", escreve Álvaro Rodrigues dos Santos, geólogo, em artigo publicado por Portal UOL, 16-11-2015.

Eis o artigo.

Não resta dúvida da determinante participação de inaceitáveis descuidos com fatores de ordem hidráulica e geotécnica entre as causas essenciais do rompimento de duas barragens de rejeito da SAMARCO (Vale + BHP Billiton) no município de MarianaMG, e que vai tragicamente se consagrando como uma dos mais graves e letais desastres em obras da engenharia brasileira.

No entanto, há um fator importantíssimo que não vem sendo considerado, que se refere à inadmissível ausência no âmbito da empresa de procedimentos inerentes a um Plano de Gestão de Riscos. Ao menos, algo consistente e funcional.

Uma barragem, por maiores e mais confiáveis que sejam os cuidados com sua segurança, será sempre uma bomba armada. Pelo que, a áreas do vale a jusante das barragens que teoricamente pudessem ser atingidas pelas águas e detritos liberados por uma eventual ruptura devem ser sempre consideradas, na classificação internacional de riscos, como de Muito Alto Risco (risco 4, o mais elevado). Esse nível de preocupação com as áreas a jusante de barragens foi especialmente aguçado após a catástrofe de Banquiau. Em agosto de 1975, na província de Henan, na China, ocorreu um dos mais graves e espetaculares acidentes em obras e engenharia da história humana. O rompimento das barragens de regularização de cheias de Banqiao, no rio Ru, e Shimatan, no rio Hong, provocou a morte de mais de 230.000 pessoas, 145.000 diretamente e 85.000 em conseqüência de uma série de desgraças que se seguiram (fome, falta de atendimentos de emergência, doenças…).

Isso posto, salta aos olhos o absurdo da inexistência de um Plano de Gestão de Riscos que levasse em consideração as atividades humanas e os fatores ambientais no vale atingido, com especial atenção para a ocupação urbana representada pelo o distrito de Bento Rodrigues.

Houvesse atenção para esses cuidados e de há muito a empresa SAMARCO deveria ter providenciado a desocupação das áreas potencialmente mais vulneráveis, com o deslocamento de seus ocupantes para áreas próximas garantidamente seguras. Essas áreas então desocupadas, e que coincidem hoje com a mancha de lama que pode ser vista em imagens aéreas pós-rompimento, seriam então utilizadas para funções de baixa presença humana, como bosques florestados e parques. Ou seja, inaceitável que nessas áreas de extremo risco tenha-se convivido todo esse tempo com a instalação urbana de residências, escolas, comércio, etc.

Da mesma forma chama a atenção a ausência de um Plano de Contingência que envolvesse, devidamente para tanto treinada, a população do referido distrito. Um Plano de Contingência pelo qual cada cidadão saberia de antemão o que fazer de imediato e urgente na eventualidade de um sinal combinado que indicasse qualquer evidência de acidente com a barragem.

De imediato, talvez essa a maior lição que situações similares que se espalham por todo o território brasileiro possam tirar do doloroso desastre de Mariana: com a maior urgência possível estruturar Planos de Gestão de Riscos que, por determinações de caráter preventivo de relativamente fácil implementação, possam ao menos evitar que vidas humanas sejam tão gratuita e estupidamente ceifadas.

 

Para ler mais:


  • 12/01/2015 - Enfrentamento dos danos ambientais não pode ficar restrito à redução das taxas de aquecimento planetário. Entrevista especial com Álvaro Rodrigues dos Santos
  • 20/07/2015 - Geólogo discute soluções para enchentes e deslizamentos no Brasil
  • 09/11/2015 - MAB: Vale e BHP Billiton, controladoras da Samarco, são responsáveis pelo rompimento das barragens
  • 12/11/2015 - Liminar obriga Samarco e poder público a preservar provas para reparar danos
  • 10/11/2015 - A lama da Samarco e o jornalismo que não dá nome aos bois
  • 05/06/2014 - Dez coisas que você deveria saber sobre barragens
  • 10/11/2015 - Recuperação ambiental na região de Bento Rodrigues vai demorar de 10 a 15 anos
  • 12/11/2015 - De quanto deve ser a multa? A Samarco é a empresa com o quinto maior lucro líquido do Brasil
  • 12/11/2015 - Mariana: desastres viram chance de ganhar dinheiro sobre o sofrimento
  • 16/11/2015 - “Lama de Mariana pavimentou rios por onde passou. Dano é irreversível”
  • 11/11/2015 - Arcebispo de Mariana convoca todos os atingidos para a organização e a luta popular
  • 16/11/2015 - Mineradoras doaram R$ 6,6 mi a deputados que debatem acidente e regras do setor
  • 12/11/2015 - Acidente no Brasil põe sob os holofotes segurança de minas no mundo todo
  • 16/11/2015 - Ambientalistas querem maior rigor em novo código de mineração
  • 11/11/2015 - A tragédia em Mariana pode afetar o mercado global do minério?
  • 12/11/2015 - Vale. US$ 2 bilhões para despesas com tragédia em Mariana
  • 12/11/2015 - Mariana pode virar acidente mais fatal da gigante BHP, que enfrenta outras polêmicas internacionais
  • 11/11/2015 - Por que é impossível calar diante de mais um desastre induzido?
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