29 Setembro 2015

Igualdade, liberdade, fraternidade: são esses os três valores que, há três séculos, a Europa reivindicou, e é neles que está se realizando o encontro entre a Igreja de Francisco e a modernidade laica.
Publicamos aqui alguns trechos do longo editorial de Eugenio Scalfari, jornalista e fundador do jornal italiano La Repubblica, 27-09-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
A pobreza, a discriminação, a corrupção: esses são os males do mundo, e todo o mal restante deriva destes. Assim pensa e diz o Papa Francisco, e essa é a sua pregação que começou na Argentina há 40 anos e continuou com muito maior amplitude de escuta quando se sentou na cadeira de Pedro.
Mas nunca tinha acontecido que esse tema, que em uma palavra onicompreensiva pode ser definido como desigualdade, fosse abordado diante do Congresso dos Estados Unidos da América e, depois, na Assembleia das Nações Unidas. A desigualdade é a causa, e o seu efeito mais visível é a migração, que diz respeito a centenas de milhões de pessoas e povos inteiros que se deslocam de um país ao outro, de um continente ao outro, reivindicando os seus direitos como pessoas e a sua liberdade.
Igualdade, liberdade, fraternidade: são esses os três valores que, há três séculos, a Europa reivindicou, e é neles que está se realizando o encontro entre a Igreja de Francisco e a modernidade laica. Um papa de linguagem profética e revolucionária como ele nunca tinha sido visto antes: jesuíta até o fim, franciscano até o fim, que soube unificar a melhor parte dessas duas ordens da Igreja, aparentemente muito distantes entre si. A sua história é diferente, mas a sua inspiração tem as mesmas finalidades da Igreja missionária de Francisco: ama o teu próximo como e mais do que a ti mesmo.
Várias vezes me fiz a pergunta sobre a relação entre esse papa e a política. Ele exclui que essa relação existe e, de fato, combate o poder temporal da Igreja Católica. Justamente porque uma Igreja missionária como ele a concebe não tem e não deve ser deturpada pelo temporalismo, ou seja, pelo amor ao poder. Os efeitos dessa luta, porém, reverberam com inevitável intensidade na política. Corrupção, discriminação, pobreza são algumas das conotações que caracterizam o poder e deturpam a política.
Não por acaso, Francisco foi acusado de simpatias "comunistas". É uma acusação intencional e injustamente agressiva, à qual Francisco respondeu de forma cristalina: "Eu prego o Evangelho; se os comunistas dizem as mesmas coisas, são eles que adotam o Evangelho".
Alguns amigos me perguntaram quem são, na minha opinião, os homens mais importantes e que mais influenciam a situação do mundo hoje. A minha resposta é: Francisco e Barack Obama. Eles operam em setores diferentes, mas as finalidades são afins.
Infelizmente, eles não terão muito tempo à sua disposição, e é bastante improvável que os seus sucessores estejam à mesma altura deles. É até possível que eles tenham finalidades diferentes das deles. A história, além disso, não é coerente no seu progresso, confiada mais ao acaso do que ao destino; variam as paixões, as emoções, os interesses e, assim, os valores e os ideais.
Mas os momentos culminantes e quem os representa seja para o bem, seja para o mal, permanecem na memória histórica e ajudam as almas vigilantes e responsáveis a levarem em conta o próximo e a "polis", duas palavras que indicam a mesma realidade vista a partir de ângulos diferentes: o próximo se configura em uma convivência entre livres e iguais. Assim gostaríamos que fosse.
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Seria igualmente interessante entender quem são as personalidades mais marcantes na Europa e na Itália, lugares geopolíticos, sociais, econômicos e culturais que nos dizem respeito muito de perto. No nosso continente, Angela Merkel, Mario Draghi e até mesmo Putin: a Rússia é bicontinental, mas a sua parte politicamente essencial é a oeste dos Urais ou até mesmo a oeste do Volga. Portanto, a Europa.
Merkel, nas últimas semanas, perdeu importância de repente, acima de tudo com o que aconteceu e ainda está acontecendo com as ondas de migrantes e a reação que provocaram nos países do Leste Europeu e na própria Alemanha. Depois, ainda mais recentemente, com o escândalo da Volkswagen, que pôs em crise não apenas uma das principais fabricantes de automóveis do mundo inteiro, mas também a indústria alemã como um todo, com possíveis repercussões até mesmo políticas.
A Alemanha está na defensiva em todas as frentes: a das imigrações, a da economia industrial, a de dominação europeia. Essa crise enfraquece a Europa, porque, com uma Alemanha incerta, a Europa também se torna mais incerta. O futuro do nosso continente está intimamente ligado à constituição dos Estados Unidos da Europa.
O último apelo, e de mais autoridade, para que esse evento se realize foi o de Giorgio Napolitano [ex-presidente italiano], que, no congresso sobre justiça promovido em Piacenza, proferiu a respeito palavras muito claras. Se esse evento desaparecer por um tempo indeterminado – disse Napolitano – a Europa e todos os Estados-nações que a compõem se tornariam insignificantes no panorama mundial, com efeitos negativos de caráter econômico social e, consequentemente, político. Uma clareza de julgamento louvável, mas, infelizmente, Napolitano não dispõe mais de instrumentos concretos para dar seguimento ao que ele pensa e diz sobre esse tema. Por sorte, [o atual presidente italiano] Mattarella pensa da mesma forma, e ele dispõe de alguns instrumentos de pressão concreta.
Nesse panorama de incerteza e de enfraquecimento da União Europeia, quem dispõe de instrumentos importantes e concretos é Mario Draghi [economista italiano e presidente do Banco Central Europeu], e ele os está usando cada vez mais drasticamente: aumentou no tempo e na medida a "quantitative easing"; penalizou a liquidez dos bancos quando eles se servem dela para os seus próprios interesses em vez dos dos clientes; está estendendo as garantias para os depositantes e para os bancos, e a aquisição de títulos públicos.
Na sua última declaração pública, ele pediu que a Comissão de Bruxelas e o Parlamento instituam um ministro do Tesouro Europeu que seja o único interlocutor político do Banco Central, responsável por um orçamento europeu muito maior do que o atual, uma dívida pública soberana com relativa emissão de títulos e uma política própria de investimentos. Tudo isso com necessárias cessões de soberania. Ele solicitou, por fim, que a Itália aprove leis trabalhistas e desagravos fiscais que visem a incentivar os investimentos e criar novos postos de trabalho.
Quanto ao aumento das taxas de juros nos Estados Unidos, já decidido pelo Fed norte-americano, isso irá produzir um fortalecimento da taxa de câmbio do dólar, com maior depreciação do euro, que favorecerá ainda mais as exportações de mercadorias europeias (e italianas) rumo à zona do dólar.