Francisco, "pontifex" entre Roma e América, e dentro da Igreja dos EUA. Artigo de Massimo Faggioli

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25 Setembro 2015

A Igreja norte-americana é um teste importante para o papado, não só em vista do Sínodo dos Bispos, que se abre em duas semanas em Roma, mas também do futuro próximo do catolicismo global.

O comentário é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor de história do cristianismo da University of St. Thomas, em Minnesota, nos EUA. O artigo foi publicado no sítio TheHuffingtonPost.it, 24-09-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Francisco chega como papa a uma Igreja e a um país que o amam, mas deve construir pontes sobretudo com aqueles que até agora mostraram maior frieza em relação ao seu pontificado. Como acontece em algumas famílias, os mais distantes são os seus irmãos, os bispos.

O segundo discurso dessa terça-feira, aos bispos, foi o mais longo e o mais importante. Francisco se apresentou como papa de maneira humilde, sem apontar o dedo contra o episcopado estadunidense. Mas, para além das formas, a substância pareceu ser bem clara e totalmente bergogliana.

Ele não olhou para o passado, nem mesmo para um exame da crise dos abusos sexuais, citada na abertura de maneira indireta, mas muito evidente, reconhecendo aos bispos os esforços "para curar as vítimas".

Francisco pediu aos bispos uma Igreja capaz de diálogo e de encontro com a sociedade, mas, principalmente, unida no seu interior; uma Igreja que não conte com o poder, mas com a pobreza da palavra evangélica; uma Igreja que saiba reconhecer o valor de todas as pessoas para além das opiniões diferentes; uma Igreja que não se proponha uma plataforma intelectual (na Itália, diríamos "o projeto cultural"), mas o Jesus Cristo do Evangelho. Especialmente, propôs uma Igreja em que a cruz não se torne instrumento de reivindicação.

Francisco usou o italiano, que é a língua do bispo de Roma, mas é também uma língua neutra em relação às contendas identitárias internas à Igreja norte-americana, em que as lideranças ainda são quase todas brancas, mas o povo será muito em breve de maioria hispânica.

Aos bispos norte-americanos, Francisco tinha concedido mais no primeiro discurso do dia, um discurso breve (em inglês) diante do presidente Obama na Casa Branca Obama na Casa Branca. Se Obama fez referência à questão da liberdade religiosa no mundo, Francisco citou diretamente a questão da liberdade religiosa nos EUA, verdadeiro ponto de confronto entre os bispos e o governo democrata desde 2009, por causa das medidas previstas pela reforma da saúde sobre a cobertura de procedimentos médicos eticamente problemáticos para a Igreja Católica.

Na Casa Branca, pareceu evidente a sintonia entre o primeiro papa não europeu e o primeiro presidente negro, sobre ambiente, imigração, luta contra a pobreza, Cuba. Mas Francisco falou como bispo também em nome dos seus irmãos bispos.

A citação de Martin Luther King Jr., que fez o famoso discurso "I have a dream" a poucos passos da Casa Branca, evidencia um ponto de passagem essencial para entender os EUA de Obama e daqueles que votaram nele. Por sua parte, Obama citou Jesus: o presidente norte-americano é o único chefe de Estado que pode se dar ao luxo de fazer isso no Ocidente secularizado, sem soar provocatório.

O terceiro texto pronunciado pelo papa (em espanhol) foi a homilia para a canonização de São Junípero Serra, missionário espanhol na Califórnia: é uma decisão polêmica, por ser dificilmente aceitável para aqueles que veem na canonização do santo também a canonização daquelas práticas missionárias violentas. Serra é um caso à parte (melhor do que outros) na Califórnia do século XVIII, mas Francisco não entrou no debate entre historiadores.

Francisco argumentou a canonização de Serra com base em uma visão de Igreja aberta e missionária, durante uma liturgia muito multilíngue, atenta às diversas identidades católicas norte-americanas.

A cerimônia foi concluída pelo agradecimento do cardeal de Washington, Wuerl, ao papa, no qual o cardeal recordou os missionários que chegaram à costa oriental da América do Norte em 1634, esquecendo-se, assim, de que havia católicos ao menos um século antes na Flórida e no sudoeste do país.

Esse lapso do cardeal (porque se tratou de um lapso, embora em um momento importante e público da Igreja norte-americana) revela a dificuldade de contar uma história unitária da Igreja na América – de ter uma narrativa compartilhada em nível intelectual e espiritual.

É uma gafe que revela as dificuldades do catolicismo norte-americano hoje para fazer as contas com todas as suas diversas identidades étnicas (brancos, latinos, afro-americanos, índios nativos e, recentemente, asiáticos), políticas (liberais e conservadores), socioeconômicas, sexuais (hétero, gay, transgênero), de status canônico (clerical, leical, religioso como as freiras).

O Vaticano é o "soft power" por excelência no mundo global, e, para o papa, construir pontes sempre fez parte do seu carisma político. O que é novo é a tarefa de levar novamente a uma possível unidade as muitas e diversas almas de uma Igreja grande e vital, mas também dilacerada na busca da afirmação das suas diversas identidades.

A Igreja norte-americana é um teste importante para o papado, não só em vista do Sínodo dos Bispos, que se abre em duas semanas em Roma, mas também do futuro próximo do catolicismo global.

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