Será que vamos escutar o Papa Francisco?

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24 Setembro 2015

"Em certo sentido, o efeito que a visita do papa pode ter resume-se a se nós iremos, ou não, escutá-lo. Há uma série de obstáculos no caminho de nossa audição atenta ao que ele, o papa, vai dizer", comenta Thomas Reese, jesuíta e jornalista, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 17-09-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

Nas últimas semanas, tenho falado a inúmeras redes de televisão a respeito da visita do Papa Francisco aos Estados Unidos; são tantas vezes que eu estou me sentindo como Paul Revere: “O papa está chegando! O papa está vindo!”

Na maioria das vezes, as perguntas dos repórteres se enquadram em duas categorias: O que ele irá dizer e fazer? E será que isto fará alguma diferença?

Em outro artigo, eu escrevi sobre o que penso que o papa dirá nestes dias. Aqui quero falar sobre o efeito que a visita do papa pode desencadear.

Em certo sentido, o efeito que a visita do papa pode ter resume-se a se nós iremos, ou não, escutá-lo. Há uma série de obstáculos no caminho de nossa audição atenta ao que ele, o papa, vai dizer.

Em primeiro lugar, a nossa escuta vai levar algum tempo. O papa irá proferir uma série de discursos importantes, principalmente a uma sessão conjunta do Congresso, aos bispos dos Estados Unidos e às Nações Unidas. Mas haverá também falas interessantes na Casa Branca e, evidentemente, em suas homilias nas missas em Washington, Nova York e na Filadélfia. Será que o público americano terá a paciência para prestar atenção até o final de todos estes eventos, especialmente quando alguns deles são em espanhol com tradução simultânea?

Além disso, no litoral leste, muitas destes momentos-chave ocorrerão quando as pessoas vão estar no trabalho. Será que o seu chefe vai deixar você escutar o papa falar? Enquanto isso, no outro lado do país, algumas das falas estarão sendo proferidas no início da manhã, quando as pessoas estarão dormindo ou correndo para o trabalho.

Em segundo lugar, mesmo que assistirmos aos discursos, será que nós realmente vamos ouvir o que ele tem a dizer? Os seres humanos têm uma capacidade maravilhosa de acreditar que as pessoas de quem gostam e admiram possuem as mesmas opiniões que as suas. Quantos namorados se casam para só depois descobrir o quão o pouco têm em comum? Existem pesquisas que mostram que muitas pessoas pensam que o papa concorda com elas em uma série de questões quando, na verdade, nao é isso o que acontece. Nós facilmente deixamos de lado as divergências e enfatizamos as convergências. Isso pode ser um problema para os progressistas.

Em terceiro lugar, muitas pessoas jamais irão parar e escutar ou ler os discursos do papa. Eles irão ter acesso às suas mensagem através de reportagens e comentários. Os repórteres precisam simplificar e resumir pensamentos complexos de forma rápida e breve. E os comentadores têm a sua própria agenda, então eles estarão tentados a torcer as palavras do papa na busca de seus propósitos.

Em quarto lugar, existe uma tentação de se concentrar no que o papa não diz e fazer disso a história principal. Alguns repórteres continuaram me perguntando sobre o que o pontífice irá dizer em relação ao controle de natalidade, à ordenação de mulheres e ao casamento gay. A resposta é: pouco ou nada. Se nos colocarmos demasiado atentos a uma lista restrita de questões sobre as quais ele tem de falar, poderemos perder o que ele, de fato, diz.

O último obstáculo entre nós e as palavras do papa são os nossos próprios preconceitos partidários. O nosso país está tão dividido por visões partidárias que alguns, especialmente os conservadores, vão rapidamente descartar o papa quando ele se desviar da ortodoxia política em matéria de imigração, mudanças climáticas ou o capitalismo.

Apesar de todas estas barreiras, eu ainda acho que o papa pode ter um impacto significativo enquanto estiver aqui.

Primeiro, ele será recebido com carinho e respeito pela maioria do público americano. Os seus índices de aprovação são muito elevados, algo que os políticos fariam tudo para ter. É mais fácil escutarmos alguém que amamos e respeitamos.

Por exemplo, se Al Gore ou Hillary Clinton dizem que a mudança climática está acontecendo e que é causada pela atividade humana, os republicanos não vão lhes dar ouvidos. Mas se o papa, a quem a maioria dos autoidentificados católicos conservadores admiram, dizer o mesmo, eles poderão se pôr a ouvir. Eles podem dizer: “Bem, talvez eu deva repensar essa questão”.

As pessoas estão respondendo ao papa porque elas veem um homem coerente com o que diz. Ele pratica o que prega. Ele é verdadeiro. Autêntico. Ele não está tentando vender a si mesmo, como fazem a maioria dos políticos e celebridades; ele está promovendo Jesus e o Evangelho.

Um segundo motivo pelo qual a mensagem do papa pode se fazer presente entre os americanos é que a imprensa o adora. Católicos, ex-católicos, não católicos e até mesmo jornalistas não crentes gostam deste papa. Diariamente, estas pessoas têm de lidar com “egomaníacos”, e é tão bom para elas cobrir alguém assim, tão admirado.

Além disso, ele é motivo para grantes notícias. De repente, os repórteres que cobrem religião têm suas histórias na primeira página dos jornais. E as questões sobre as quais o papa tem falado – imigração, pobreza, paz e meio ambiente – são o tipo de questões que a maioria as pessoas gostaria de cobrir quando se tornam jornalistas. Fazer a cobertura jornalística do papa é emocionante, importante e divertido.

Um terceiro motivo pelo qual a mensagem do papa pode vingar neste país é que Francisco é um comunicador extraordinário – tanto em palavras quanto em ações. Ele sabe como usar uma linguagem simples para se comunicar. Ele não tem medo de usar imagens gráficas quando fala. Ele evita a linguagem acadêmica e abstrações. Ele prega o Evangelho, não o catecismo. Este papa está interessado mais na forma como as pessoas vivem a sua fé, e menos em como elas a articulam.

Como uma pessoa de fé, eu também tenho que acreditar que o Espírito vai estar lá atraindo as pessoas para as palavras de Francisco. Como a maioria dos sacerdotes, antes de pregar eu me curvo diante do altar e rezo a Deus para que ele possa usar as minhas palavras para inspirar as pessoas a ouvir a sua Palavra, não a minha. Por fim, tudo tem a ver com o Espírito. Será que os nossos corações vão ser tocados quando Francisco falar sobre a compaixão e o amor de Deus e sobre a nossa responsabilidade em responder a esse amor amando uns aos outros, especialmente os pobres?

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