O que esperar da visita do Papa Francisco aos EUA

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23 Setembro 2015

 

A "febre Francisco" está crescendo entre os mais de 68 milhões de católicos, que compõem mais de um quarto da população dos Estados Unidos. Todos os fiéis conversam entre si sobre quem conseguiu os bilhetes para tal evento papal antes da visita do Papa Francisco esta semana. Aqueles que não têm os bilhetes, ao contrário, posam animadamente para fotos ao lado das imagens em tamanho real do papa que apareceram em toda a nação.

A reportagem é de Paul Vallely, publicada no sítio The World Post, 21-09-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Mas o entusiasmo não é universal. A oposição ao Papa Francisco se tornava cada vez mais forte – e também mais febril – enquanto a chegada do pontífice nessa terça-feira à Base Aérea de Andrews, perto de Washington, se aproximava.

Instruções de bom comportamento foram emitidas para os membros do Congresso dos Estados Unidos – nada de apertos de mão, selfies, vaias ou aplausos seletivos de partes individuais do discurso do papa. Tudo isso foi claramente demais para um homem, o representante republicano do Arizona, Paul Gosar. Ele está realizando um boicote individual ao líder de 1,2 bilhão de católicos do mundo.

Gosar objeta ao chamado do papa para a ação contra o aquecimento global – uma mensagem que se espera que Francisco reforce tanto para o Congresso em Washington, na quarta-feira, quanto para a Assembleia Geral da ONU em Nova York, no fim desta semana. Apesar de se descrever como um "católico orgulhoso", Gosar acusa o papa de defender uma "fala socialista", uma "falsa ciência" e de fazer um "papel de bobo das mudanças climáticas".

Ele não é a única voz estridente. Outros conservadores malucos acusaram o papa de ser uma penitência que a Igreja deve "suportar", um comunista de batina e "o homem mais perigoso do planeta". Sem falar daqueles da ala fundamentalista que disseram que ele é o Anticristo.

Duas mensagens diferentes

O que devemos fazer com esse contraste? Ele surge do fato de que o Papa Francisco estará proferindo duas mensagens diferentes. A primeira será às elites políticas, internacionais e clericais. A segunda será às pessoas comuns dos EUA e do resto do mundo que Francisco sabe que o estarão escutando.

O papa deu muitas dicas sobre qual será a sua mensagem para os líderes. O seu manifesto papal, a Evangelii gaudium, atacava os males de um sistema de capitalismo desregulado que cria riqueza para alguns, mas deixa outros excluídos na parte de baixo da pirâmide. É necessária uma mudança política.

Depois, a sua encíclica sobre o ambiente, Laudato si', disse que o aquecimento global e outras espoliações ecológicas se enraízam em um consumismo voraz incentivado por um sistema econômico que não consegue ver para além do lucro a curto prazo. Uma mudança econômica deve ocorrer.

O resultado, diz o papa, é que os fracos, os idosos, os desempregados e os nascituros são lançados no ferro velho, onde são considerados excedentes aos requisitos da sociedade ou sem nenhum valor na economia global. Por trás dessa "economia da exclusão", sugere ele, "esconde-se uma rejeição da ética e uma rejeição de Deus". É necessária uma mudança espiritual.

Os papas anteriores, incluindo João Paulo II e Bento XVI, também fizeram fortes críticas ao capitalismo, mas não falaram com a mesma paixão de Francisco, que trabalhou entre os mais pobres dos pobres nas favelas de Buenos Aires por 20 anos. Como latino-americano, Francisco abriga uma ambivalência adicional em relação aos Estados Unidos, que combina respeito e ressentimento diante da força econômica e política do seu vizinho maior.

E, como o primeiro papa do Sul global, ele olha para o mundo de baixo para cima. Ele disse desde o início que ele quer "uma Igreja pobre para os pobres".

Além disso, ele mudou o foco da Igreja Católica para longe de uma luta de alto nível contra o aborto e o casamento gay e na direção de uma missão de servir os pobres e estender a misericórdia para todos. Ele está muito mais preocupado com questões relacionadas com o dinheiro do que com o sexo. Francisco não vai deixar o mundo rico tranquilo diante de uma economia injusta e desequilibradas e da desigualdade social.

Isso explica a ferocidade da reação contra o Papa Francisco por parte de uma aliança profana de conservadores poderosos, filósofos do livre mercado, apologistas da indústria do petróleo, entusiastas do fracking e negadores das mudanças climáticas.

Mas esse papa não tem medo de interesses escusos e desafiadores. Assim, esperamos uma forte mensagem dele aos políticos dos EUA e aos líderes mundiais nas Nações Unidas sobre o aquecimento global, a crise dos refugiados, a migração, a pobreza, a falta de moradia e o desenvolvimento sustentável.

Bispos conservadores

Os bispos dos EUA – um grupo muito mais conservador do que os católicos que eles lideram – também podem esperar algumas palavras corretivas por parte do papa. Nas últimas duas décadas, muitos deles desenvolveram uma abordagem de confronto diante das questões da ética sexual e das "guerras culturais".

O Papa Francisco – que já havia condenado aqueles que, na Igreja, são muito "obcecados" com o aborto, o casamento gay e a contracepção – tem pouca paciência com essa preocupação. Ele quer que eles façam mais para combater a pobreza.

Nos últimos dias, ele até elogiou as freiras norte-americanas pelo seu trabalho com os pobres – algo pelo qual os bispos conservadores criticaram as freiras, dizendo que elas deveriam passar mais tempo fazendo campanha contra o aborto.

Os bispos dos EUA podem muito bem ouvir – assim como os seus homólogos do Brasil, da Coreia e do Paraguai, quando o papa os visitou – que devem reorientar os seus esforços.

Francisco muitas vezes reserva as suas palavras mais duras para a elite clerical. Em dezembro passado, ele criticou os altos burocratas da Igreja que esperavam uma costumeira mensagem de Natal e, em vez disso, listou as 15 "doenças espirituais" das quais eles sofriam.

Claramente, os mais conservadores dos bispos norte-americanos têm se preparado para receber as críticas. O líder conservador, o arcebispo da Filadélfia, Charles Chaput, recentemente dirigiu-se aos jornalistas de religião para insistir que a sua arquidiocese gasta 20 vezes mais com a pobreza e outras questões de justiça social do que na luta contra o aborto e a contracepção.

"Uma das minhas esperanças mais profundas é que eu goste da sua visita", disse o presidente da Conferência dos Bispos dos EUA, o arcebispo Joseph Kurtz, recentemente – como se a possibilidade de não gostar também tivesse passado pela sua cabeça.

Mas a mensagem do papa para as pessoas comuns dos EUA será bem diferente. Ele deu uma pista disso há algumas semanas, quando fez uma sessão de vídeo com estudantes de Chicago, os sem-teto de Los Angeles e imigrantes perto da fronteira EUA-México, em McAllen, Texas.

Próximo e pessoal, o Papa Francisco foi caloroso, compassivo, afirmativo, tranquilizador e sempre sorridente, com um fluxo de pessoas que compartilharam com ele as suas experiências de vida difíceis. Eles lhe disseram que nem sempre tinham feito as escolhas certas e compartilharam com ele as suas alegrias, tristezas e problemas, como pastor, em vez de papa.

"Sejam corajosos. Deus está com vocês", disse Francisco.

A mensagem era clara: o Papa Francisco também está com vocês.

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