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11 Setembro 2015

Aproximo-me, sem possuir referências, de um filme brasileiro. Não assisti nada de sua diretora, Anna Muylaert, assim como creio que nunca vi os atores em cena. A presença da cinematografia do Brasil nos cinemas espanhóis é praticamente inexistente, e nada que vi do país em festivais me marcou profundamente. Exceto os notáveis Cidade de Deus, Central do Brasil e Tropa de Elite, não me lembro de outros títulos dos últimos anos que tenham me atraído. E durante um certo tempo existiu uma moda forte com o nascimento do abrasivo cinema novo brasileiro. Tracei tudo quando era adolescente. E, aos poucos, me entediei moderadamente, apesar de ter colocado em um altar Deus e o Diabo na Terra do Sol. Não voltei a vê-lo. Só para garantir. Os cangaceiros e seus matadores fazem parte apenas das minhas lembranças enevoadas.

A reportagem é de Carlos Boyero, publicada por El País, 25-06-2015.

Alguém rotularia Que Horas Ela Volta? [que estreia no Brasil em agosto] como um expoente do cinema social. Um gênero tão digno como os outros, mas ameaçado pelo risco do esquematismo, os lemas, a panfletagem, o tom dogmático, a clareza cansativa sobre a identidade dos mocinhos e dos bandidos, a ausência de matizes, o protagonismo exclusivo da mensagem, as boas intenções. O cinema social que pretende falar da quase sempre ingrata realidade (e o próprio cinema em geral) precisa de talento narrativo ou documental, complexidade, sutileza, força emocional, veracidade, essas coisinhas que alimentam a arte.

Que Horas Ela Volta? fala com inteligência e sensibilidade de algo que não perdeu vigência desde o princípio da humanidade, a chamada luta de classes, por mais que aqueles que estão por cima afirmem que se trata de algo que pertence ao passado, superado pelo progresso, a civilização, um mundo mais justo e falácias similares.

Uma empregada exemplar

A protagonista do filme é uma empregada exemplar (me soaria eufemismo qualificá-la como ajudante), que está há anos servindo exemplarmente uma família endinheirada, educada, com amor pela arte, nada feudal, convenientemente moderna, nada a ver com a alta sociedade retrógrada. E parecem adorá-la, consideram-na como um membro a mais da família. Ela viu crescer o filho do casal e o amor entre eles é mútuo. Ela faz o papel de avó, de confidente, de amiga. E também de empregada.

Nesse ambiente supostamente idílico, com a dona da casa sendo uma sacerdotisa das tendências e seu marido, um milionário ocioso e amável que distrai sua anódina existência pintando, vai aparecer uma tempestade de efeitos devastadores. A stakhanovista e cativante empregada não vê sua filha há dez anos, mas empenha seu salário para que a menina tenha o que precisa (e que horrível deve ser cuidar diariamente, ano após ano, de alguém que tem a mesma idade que sua filha, de quem foi preciso se separar para que ela pudesse ter o que comer). Ela receberá a visita do ser que mais ama, uma jovem demasiadamente natural, que não entende o servilismo, empenhada em passar no vestibular para estudar arquitetura, sem consciência das relações de poder, incapaz de assumir seu papel de filha da empregada, de dormir em um colchão no chão dividindo o pequeno e sombrio quarto de sua mãe em uma casa onde sobram dormitórios vazios, tão desinibida que se senta para tomar o café da manhã na mesa da cozinha com os donos da casa.

Anna Muylaert mantém um controle admirável para que a história não escape de suas mãos, não julga seus personagens, prefere a sugestão ao explícito, combina as luzes e as sombras, sabe que os pequenos gestos, os olhares, a dúvidas, os detalhes podem ser muito mais reveladores e corrosivos do que os discursos. Passando-se quase todo em uma casa, é um filme que não me permite ignorar em momento algum o que estou vendo e escutando, sem que nada me resulte previsível ou lugar-comum, com uma grande curiosidade em saber como a história vai terminar.

Contam-me que a protagonista, Regina Casé, é uma das atrizes mais reconhecidas e famosas do Brasil. Se não soubesse disso, poderia acreditar que não era uma atriz profissional, mas sim alguém que passou a vida trabalhando como empregada. Sua naturalidade e a autenticidade que transmite são extraordinárias. É um filme bom, compreensivo, crítico, luminoso e turvo. Tomara que gostem desta mulher sofrida e surpreendente e de sua rebelde e digna filha.

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