“Meu grande objetivo não é o Oscar. É chegar nas pessoas”, diz diretora de 'Que Horas Ela Volta?'

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Por: Cesar Sanson | 11 Setembro 2015

Anna Muylaert é a primeira diretora em 30 anos a representar o Brasil a uma vaga na disputa ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Antes do anúncio feito na manhã da quinta-feira, 10, pelo Ministério da Cultura, de que seu longa Que Horas Ela Volta?, em que Regina Casé vive a doméstica Val, seria o candidato do País, a última mulher a liderar esta corrida tinha sido Suzana Amaral, em 1986, com A Hora da Estrela.

É interessante pensar que são dois longas que trazem também mulheres, lutadoras e ‘do povo’, em busca de um sonho e de uma vida na cidade grande. É justamente pelo fato de a história de Val, que deixou seu Pernambuco natal para trabalhar na casa de uma família paulistana, falar justamente da história de milhares de brasileiros (seja de que regiões, países e bairros eles migraram ou migram todos os dias em busca de uma vida melhor) que ao saber da notícia sobre a pré-indicação, foi no público brasileiro que Anna pensou.“Estou feliz. 

A minha primeira reação é achar que esta notícia vai ajudar o filme a levar mais público ao cinema. Estamos tendo uma grande performance no circuito de arte, mas não tanto na periferia. O filme tem um talento natural para o popular, mas, muito por não termos recursos para investir mais em publicidade (como cartazes em ônibus, por exemplo), ele é um filme compreendido como ‘filme de arte'”, quando ele, na verdade, é amado também na periferia. Eu espero que a gente consiga chegar a mais gente”, declarou a diretora em conversa com o TelaTela, 10-09-2015.

Sobre as chances do filme abocanhar uma das cinco vagas de finalista ao Oscar, fato que não ocorre desde 1998 (quando Central do Brasil, de Walter Salles, disputou a estatueta), Anna é otimista, mas mantém os pés no chão: “Agora temos de pensar na estratégia. Vamos conversar com o Kleber (Medonça, diretor de O Som ao Redor, representante do Brasil em 2013), para o Daniel (Ribeiro, de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, de 2014) para saber como foram as campanhas deles e o caminho a ser traçado”, contou a diretora.

Anna e os produtores do filme (da Gullane Filmes) contarão com apoio oficial do Ministério da Cultura para a campanha, que costuma incluir, como praxe, anúncios do longa em revistas especializadas para apreciação dos votantes da Academia, sessões para que eles vejam ou revejam o longa, além de um intrincado e estratégico trabalho de relações públicas junto à opinião da imprensa e dos profissionais do cinema americano que são habilitados para votar no Oscar.

O diferencial de Que Horas Ela Volta?  é chegar no páreo de Hollywood com um buzz grande, provocado justamente por prêmios recebidos no Festival de Sundance (melhor atuação feminina para Regina Casé e Camila Márdila), no Festival de Berlim, críticas extremamente positivas de veículos de peso como a revista Variety, a Hollywood Reporter, entre outros, além de uma bilheteria expressiva em diversos países.

A concorrência promete ser dura, já que temos outros pesos pesados na disputa como El Club (Chile) e Um Pombo Pousou Num Galho Refletindo Sobre a Existência (Suécia), ambos também premiados em festivais importantes, mas que Que Horas Ela Volta? tem chances ao menos junto aos cerca de 400 voluntários que votam, e escolhem, os filmes que integram a short list (a lista dos cinco finalistas), isso é fato.

Eis a entrevista.

Você estava esperando esta indicação para representar o Brasil no Oscar 2016?

De certa forma, muito pelos comentários que havia e pelas críticas que viemos recebendo ao longo das semanas, esperava sim. E há também o fato de que, como o filme já rodou muito no exterior, tem muitos americanos que querem que a gente vá para a disputa final. É uma força chegar a este ponto com retornos positivos da crítica americana e da internacional. Mas sei que é muito difícil conquistar esta vaga. Mas entre este potencial e o poder econômico para investir na campanha e, de fato, estar entre os finalistas, há um longo caminho. No que depender de mim, vou fazer tudo o que for possível.

Você falou da sua vontade de que o grande público, das periferias do País, vejam o filme. Como tem sido a recepção até agora?

Tem sido incrível. Semana passada, por exemplo, fiz um debate no Cine Belas Artes (em São Paulo), após uma sessão. E tinha um público tão variado. A maioria já tinha visto o filme e estavam vendo novamente. Havia várias universitárias com as mães que eram empregadas domésticas. Havia patroas e empregadas domésticas que foram ver o filme juntos. Muitos estudantes e muita mulher. Foi emocionante. Muita gente no final chorou, diziam coisas como “no escuro do cinema, eu fui vista”. Ouvir isso é muito emocionante. Meu grande objetivo não é o Oscar. É chegar nas pessoas. E isso talvez seja possível por esta grande divulgação que estamos tendo agora e com o fato de que as pessoas amam o filme.

O clássico boca a boca, que cada vez mais é raro no cinema nacional por conta de lançamentos focados no primeiro fim de semana em cartaz, está funcionando bem com Que Horas Ela Volta?

Sim! As pessoas veem o filme, voltam e levam mais gente pra ver junto. Conseguir ficar mais tempo em cartaz para que este movimento aconteça é muito importante. Mas os números dizem que isso está acontecendo mais em capitais. E não tanto nas cidades médias e pequenas, como Santos, por exemplo. Nestas ainda parece que o filme não chegou lá. Não podemos trabalhar na lógica do blockbuster com filmes como este. Por isso eu disse à Barbara Sturm (da distribuidora Pandora) que eu estou disposta a ir a todos os lugares que for preciso para divulgar o filme. Trabalho de formiga mesmo. Não importa o quanto for preciso, mas vamos chegar lá.

Tanto pelo fato de ser um longa dirigido por uma mulher (ainda minoria no cinema nacional e mundial), trazer uma história estrelada por mulheres e pela recente polêmica envolvendo os cineastas Claudio Assis e Lírio Ferreira, em uma sessão-debate no Recife, você vem falando da questão do protagonismo feminino no cinema. Sente que esta discussão cresceu ainda mais desde a estreia do filme?

Esta discussão, na verdade, começou quando o filme começou a fazer seu circuito internacional de festivais, com a participação no Festival de Sundance, de Berlim… Começou a chamar a atenção da mídia e dos produtores estrangeiros e aí entrou em evidência. Claro que o que Lírio e Claudio fizeram foi machista, mas não é algo contra mim. É algo muito mais profundo. Esta questão de que os homens não conseguem ficar no papel de coadjuvantes faz parte da sociedade; e não só do Brasil ou do cinema brasileiro. Muitas feministas têm vindo falar comigo e eu tenho que falar sobre este assunto, claro. Esta discussão toda, no fundo, está me tornando mais forte.

Neste sentido, este é um filme muito estratégico para que o Brasil revele a força do trabalho das mulheres no cinema, não? 

Sim! Exatamente. É algo importante. É um filme simples e com orçamento enxuto, ao contrário de longas mais caros como Cidade de Deus, por exemplo. E isso faz muito bem para o País ter como paradigma. Além disso, fala de uma questão importante brasileira, sobre o momento atual de mudanças sociais. E para terminar, é dirigido por uma mulher. Isso é bom para todo mundo.

E colabora para a discussão sobre o machismo em uma esfera mais global, não?

Sim. Mas esta discussão é muito ampla. O machismo não são só os homens. O machismo é um sistema de regras, que não é sempre contra as mulheres, mas sim um sistema que privilegia o homem. E nós estamos inseridas nisso tanto quanto os homens. O mundo é machista. E agora nós, mulheres fortes, temos que começar a desligar algumas chaves desse mecanismo. Há um horror ao feminino em um sentido global. É a guerra, é o capitalismo, o menino na praia… É um jogo de regras que valoriza o masculino, que é o poder, o sucesso, a riqueza. E tudo que é feminino, que, a priori, não dá poder, é desvalorizado. Discutir e rever tudo isso é muito necessário.

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