A Europa se cala diante do drama dos imigrantes

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Por: Jonas | 31 Agosto 2015

Foi preciso milhares de mortos e dramas espantosos, como os 50 migrantes mortos por asfixia, encontrados em um caminhão na Áustria, ontem, para que os dirigentes europeus começassem a sair da zona de retaguarda, na qual se encontram desde que os primeiros migrantes chegaram à costa da Sicília. O comissário encarregado pela Imigração no interior da União Europeia, Dimitris Avramopoulus, no último dia 13 de agosto, disse que “a imigração não é um problema grego, nem alemão, nem italiano, nem húngaro e nem austríaco”, mas, sim, “europeu”. E, no entanto, apesar dos mais de 100.000 refugiados (números oficiais do organismo Frontex) provenientes da Síria, Afeganistão, Eritreia, Iraque e Sudão do Sul que cruzaram o Mediterrâneo para alcançar o território europeu, no último mês de julho, a Europa se escondeu no silêncio e até destruiu as iniciativas da Comissão Europeia.

A reportagem é de Eduardo Febbro, publicada por Página/12, 28-08-2015. A tradução é do Cepat.

Tanto é assim que, no dia 23 de agosto, o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, publicou uma inflamada coluna de opinião no jornal conservador Le Figaro, onde defendeu os valores humanistas da Europa contra a indiferença, as brigas, o racismo e os antagonismos que enviesam qualquer posição comum em relação à imigração. Juncker recordou que esses migrantes fugiam da “guerra na Síria, do medo de Daesh na Líbia ou da ditadura na Eritreia” e afirmou: “O que me espanta é constatar o ressentimento, a repulsa, o medo com o qual se trata essas pessoas. Incendiar os campos de refugiados, distanciar os barcos dos portos, violentar os solicitantes de asilo ou fechar os olhos frente à miséria e a pobreza, isso não é a Europa”. No entanto, isso é o que ocorre hoje.

Os sucessivos encontros europeus consagrados ao tema das fronteiras e a imigração apenas dissimularam a mordaça que cobria os lábios dos líderes europeus.

Com uma extrema-direita perseguindo as urnas e uma direita cada vez mais dura, que também tira proveito da “ameaça migratória”, o tema é uma bomba-relógio política em cada país. Abordá-lo é se expor a uma controvérsia pública e à conseguinte perda de votos em um eleitorado excessivamente sensibilizado em torno da temática da imigração. Os Estados repetem o mesmo discurso “humanidade e firmeza”. Quase ninguém se atreve a enfrentar um problema complexo e cujas origens são, muitas vezes, as próprias guerras que o Ocidente desencadeou ou os conflitos nos quais interveio (Afeganistão, Síria, Líbia, Iraque).

Na realidade, apesar de seus massivos adversários, quem rompeu o pacto de imobilidade foi a chanceler alemã Angela Merkel. Pela primeira vez, em dez anos, no dia 25 de agosto, Merkel visitou um campo de refugiados na Saxônia, onde escutou o grito de 200 manifestantes que a tratavam como “traidora”. Antes, no dia 24, em Berlim, Merkel e o presidente francês François Hollande pediram que a Europa adote uma resposta “unificada” frente à crise dos migrantes. Até esse momento, os demais responsáveis haviam se mantido em silêncio. A própria chanceler anunciou que todos os refugiados sírios que haviam chegado à Alemanha através de outros países europeus não seriam expulsos. Por surpreendente que seja, Merkel está transformando a direita alemã, no que diz respeito à imigração, com um discurso e ações baseadas nas que, outrora,  foram assumidas pelo Executivo vermelho-verde, ou seja, a aliança entre os social-democratas do SPD e os ambientalistas de Die Grünen.

Na França, durante o mês de agosto (férias), os partidos políticos realizam uma série de reuniões chamadas “universidades de verão”. Em 2015, em plena catástrofe migratória, o Partido Socialista, por exemplo, não tangenciou o tema. O prestígio humanista, ainda que retórico, nem sequer se assomou nos debates. Em relação aos ambientalistas, para além de uma indignação verbal, não houve ação, formulações concretas ou um programa para interpelar o Executivo. Neste deserto de boas intenções, de náufragos, de afogados ou esmagados pelos trens, de dezenas de milhares de pessoas nas fronteiras da Grécia, Hungria, Sérvia, França, Itália, Áustria e Alemanha, a extrema-direita adotou um perfil discreto. Como destaca no jornal Le Monde, Jérôme Fourquet, diretor do departamento de opinião da agência de pesquisa IFOP: “Marine Le Pen (a líder da ultradireita Frente Nacional) não tem necessidade de dizer muito. O combustível está aí”. A direita tradicional, agrupada agora no recém-fundado partido Os Republicanos, tampouco saiu da cova. O único que se destacou, no início do verão, foi Nicolas Sarkozy. O ex-presidente e chefe de Os Republicanos havia comparado o fluxo dos migrantes a um “vazamento de água”.

O imobilismo, as expressões insultuosas, as agressões, a construção de muros e barreiras ou a própria extrema-direita não poderão corrigir o curso dos fatos, nem tampouco o novo encontro com a história que tem a Europa. Segundo Jean-Christophe Dumont, o especialista das migrações na OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico), mais de um milhão de pessoas ingressará clandestinamente de uma maneira ou de outra no Velho Continente. Com mais de 2.000 migrantes mortos até agora, neste ano, as fronteiras europeias são hoje as mais mortíferas do mundo. A Europa se move, por sua vez, entre várias fronteiras incertas: a de seus valores, a do humanismo, a da solidariedade, a do medo, a do racismo, a dos cálculos políticos e a das medidas fortes destinadas a deter o fluxo migratório, recusando receber os migrantes e forçando-lhes a voltar para seus países. A complexidade do drama e da crise é tal que sem uma síntese entre todas essas fronteiras delicadas, os dramas como os da Áustria se propagarão com uma frequência destrutora. O Mediterrâneo continuará sendo uma sepultura a céu aberto e a Europa se tornará um éden entrincheirado.

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