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24 Agosto 2015

"Ou o que resta de base social mobilizada ou desembarca de vez do governo e acaba com qualquer resto de duplo discurso como o do tal "apoio crítico" ou toda a esquerda vai pagar um preço alto demais se tudo ruir", escreve Bruno Lima Rocha, professor de de ciência política e de relações internacionais.

Eis o artigo.

O domingo dia 16 foi mais um marco na história política do Brasil. Com entradas ao vivo em rede aberta, incluindo a emissora líder da família Marinho, as marchas e protestos multitudinários da direita ideológica brasileira foram catapultados em importância. Os cortejos passaram na TV com a ausência de contraditório, sem que nenhum repórter tenha sequer colocado um microfone em cadeia nacional na boca dos que diziam querer intervenção militar, ou das viúvas da ditadura com cartazes reclamando pelo fato da repressão não ter matado toda a esquerda a partir de 1964.

Embora mais caricatos do que consequentes, entre neoliberais convictos, americanófilos odiando haverem nascido no Brasil e na América Latina , galvanizados por saudosistas do Terrorismo de Estado, a mensagem estava contida. O desejo de agrupações como MBL, Revoltados On Line, Vem pra Rua, dentre outras, embora não traga cem por cento de acordo, a vontade da direita cibernética é a rendição total do país. Mesmo dentro do capitalismo e ainda que no capitalismo semi-periférico, há algum espaço e margem de manobra, sem romper com a crueldade do sistema obviamente. Ainda assim, os neoliberais brasileiros não tem a menor vocação de elite dirigente de país potência-média e desejam fazer parte do enorme manancial de recursos humanos terceirizáveis pelas transnacionais.

Para tal vale quase qualquer coisa, desde pregar impeachment sem conhecer a regra do mecanismo até aceitar quantias ou apoio explícito de notórios lobbies conservadores dos EUA, como a tristemente conhecida Koch Foundation.

Durante as cenas de horror televisivo, este analista trouxe os seguintes comentários, agora já revisados:

Refletindo o domingão da UDN

Infelizmente, estivemos diante de uma cobertura televisiva em rede aberta dos atos convocados por agrupamentos de tipo neoliberal com estrutura cibernética e modo de funcionamento como uma agência de publicidade de base colaborativa. Esta é a multidão que foi às ruas ao longo do domingo 16 de agosto. Por haver comentado o tema ao longo da semana anterior ao protesto das direitas, não quero ficar me repetindo, mas apenas alertar para alguns tópicos mais relevantes, ao menos no juízo deste que escreve:

- Há o uso indevido das cores nacionais, se bem que o verde dos Bragança e o amarelo dos Habsburgos sejam sinônimos dos símbolos pátrios, também representam a continuidade do reino unido e a tradição escravagista. É absurdo o uso das cores do Brasil pela direita udenista, pelo simples fato de que essa gente nunca foi sequer nacionalista, menos ainda operou no campo do nacionalismo-popular.

Quando deram o golpe em 1964, receberiam de braços abertos as forças armadas dos EUA que vinham invadir o Brasil, e só não desembarcaram porque, como sempre, o populismoroeu a corda.

Jamais perdoaremos Jango pelo recuo e a covardia de não haver ajustado contas com a história quando o mesmo não resistiu aos entreguistas, golpistas, vende-pátrias. Se houvesse uma guerra hipotética entre Brasil X EUA, os que hoje envergam a bandeira da república positivista deixariam o país correndo, torcendo desesperadamente pelo Império. Quando muito, fariam a versão tropical da república de Vichy.

- Também há o uso indevido da moralidade pública por parte desta gente. Ao mesmo tempo em que denunciam a corrupção estrutural nos negócios de Estado (verdade absoluta), negam o papel do corruptor (agente econômico) e se dependesse de um governo de base tucano-udenista, o país não teria sequer política industrial (como não teve) e seria operado por agentes brasileiros do capital transnacional (como já foi). Por isso se dá também a ilegitimidade da Agenda Brasil, do fogo amigo de Renan Calheiros e Joaquim Levy e do vergonhoso 3º turno com o tucano do Bradesco à frente da Fazenda. O povão votou na continuidade do modelo do lulismo e não no recuo neoliberal do 2º governo Dilma. Assim, a direita está governando por dentro e batendo na porta por fora.

- Estivemos diante de uma evidente manipulação midiática porque não há nada de contraditório na cobertura televisiva dos "protestos" de hoje. Como um grupo de carolas que rezam o terço após a missa e esperam seus maridos voltarem dos bordéis após o trabalho, os neo-neo reclamam da Globo quando a emissora não dá cobertura prévia (pré-fato) no Jornal Nacional do sábado dia 15, mas ao mesmo tempo apoiam a TV da família Marinho quando esta concessionária de serviço público age como propagandista do impeachment.

- A máscara de classismo e defesa dos interesses populares do governo Dilma já caiu em novembro do ano passado, quando no auge do 3º turno, a ex-ministra da Casa Civil de Lula admitiu a derrota política na interna do governo e deu carta branca para o governo de banqueiros com base nos desmandos do Copom e nos absurdos derivados do famigerado Boletim Focus.

Já a máscara de "movimentos" como MBL, Revoltados on Line (estes como a música do igualmente famigerado Ultraje a Rigor, "rebeldes sem causa"), Brava Gente e outras derivações neoliberais, tudo isso cai como um castelo de cartas viciadas se eles abrem a boca para montar um programa de governo. O que os neo-neo querem é acabar com os direitos adquiridos na Constituição Federal, dar fim a CLT, ao salário mínimo, revisar a demarcação de terras indígenas e quilombolas, tornar o Banco Central como uma autarquia regulada pelo sistema financeiro e diminuir ainda mais a carga tributária sobre o capital circulante. Enfim, é a defesa inexorável de uma sociedade neoliberal governada por economistas neoclássicos e manipulada por CEOs que ganham fortunas pessoais a partir dos desmandos sociopatas como na bolha de 2008.

- Os tempos são difíceis para a luta popular no Brasil, mas não impossíveis. O PT definitivamente representa hoje o maior defensor do capital brasileiro e das famílias líderes dos respectivos oligopólios.

O PSDB é o espelho dos capitais transnacionais e a não política estruturante para nada. Logo, não há representação das maiorias, nem por dentro da política burguesa (a de intermediação) e menos ainda como referência para a esquerda social que organiza a vida em luta nas ruas e bairros.

Como há espaço de sobra para crescimento de uma proposta de radicalização democrática, é sinal de que após a tormenta conservadora, podemos ter bons tempos abaixo e à esquerda. Agora é resistir à crise e manter a lucidez junto da radicalidade.

A UDN começa a semana de ressaca cívica, mas o empresariado não quer aventuras

Refletindo o momento imediato após a sanha udenista, a ressaca dos absurdos cibernéticos deixou má lembrança, embora não seja possível angariar apoios reais com este tipo de gente na rua, incluindo suas esdrúxulas alas a favor da intervenção militar.  O sistema político inclinou para a direita e a esquizofrenia não coaduna com a análise política mais fria.

Faltam bandeira e representação de classe para ir mais à esquerda. Porque se o PT hoje é o partido do capital nacional e o PSDB do transnacional, qual é o partido de esquerda no Brasil? Mais; será que este partido de esquerda deve necessariamente ser de tipo de intermediação? E, já que estamos na semana das abobrinhas, confesso que quando eu vir o presidente da CUT com a mesma disposição de luta expressa na bravata televisiva, será um dos dias mais felizes de minha vida!

Quanta bobagem....Fiesp e Firjan deram apoio para a continuidade da ordem institucional, logo, a UDN vai ter de arrumar um Major Rubens Vaz para capitalizar em cima deste cadáver (nunca descartemos esta opção como variável  analítica; esta gente não cometeu atrocidades, até agora, mas nunca se sabe). Ou então, o que pode ser mais provável, pegarem o Lula (o próprio) no decorrer da Operação Lava Jato (hoje esta é regulada pelo imponderável segredo de Justiça somado com a delação premiada). Não deixa de ser uma cruel ironia, não quiseram cortar a cabeça da serpente quando era possível - como na CPI do Banestado ou nas operações Chacal e Satiagraha - e o veneno está atingindo a ex-esquerda. Agora, o epílogo desta ópera bufa é ver a CUT de São Paulo e os Metalúrgicos do ABC convocando ato em defesa de Luiz Inácio para defender a imagem e a instalação física do Instituto Lula. Que horror.

Serra e a divisão do alto tucanato

Cabe uma reflexão a respeito do alto tucanato. Ao acompanhar a entrevista do senador José Serra (PSDB-SP) ao Programa Roda Viva (na 2ª, 17 de agosto) me veio a impressão de que não há vontade política de derrubar o governo a qualquer preço e custo. Não parece o mesmo Serra de 2010 e de 2002, nem de perto lembra a Operação Lunus e a capa de Época que afastara Roseana Sarney do páreo pela sucessão de FHC. Pelo visto, o espírito de pauta bomba é exclusivo de Eduardo Cunha (antes da denúncia de Janot) e seus correligionários de missão política, não sendo compartilhada pelos tucanos com chances de vitória em 2018.

Ao mesmo tempo, Serra fez coro com FHC e apontara não acreditar que o governo de Dilma complete seu mandato. Logo, a interna do PSDB vai apertar caso a solução TSE (incendiada após o pedido de investigação vindo de Gilmar Mendes) ou TCU (este não cola de jeito algum) não venha este ano ou no início do ano que vem.

Assim, ganha fôlego – sobrevida no balão de oxigênio -  o governo Dilma e seu apoio em Renan e cia. Ganha fôlego também a inflexão neoliberal de Joaquim Levy e a inflexão à direita de dentro do governo. Para a base da pirâmide, se a inflexão neoliberal for avançando, mais um pouco e a chapa derrotada nas urnas terá todas as suas teses de fato governando.

Apontando conclusões após os atos do dia 20. Segue o brete do "apoio crítico"

Os atos do dia 20 teriam sido perfeitos e aglutinariam as forças caso tivessem sido convocados contra o ajuste fiscal e a famigerada política neoliberal de Joaquim Levy e o governo do COPOM. O dia 20 veio antes tarde do que nunca, e teve, de fato, uma multitudinária envergadura no ato final de São Paulo capital.

Mas, entre sendo analítico e normativo, eu continuo insistindo que ou o que resta de base social mobilizada ou desembarca de vez do governo e acaba com qualquer resto de duplo discurso como o do tal "apoio crítico" ou toda a esquerda vai pagar um preço alto demais se tudo ruir.

Estamos em um momento histórico de fim da hegemonia do PT na esquerda política e ausência de radicalidade na esquerda social. É melhor reconstruir a própria base social do que defender um cadáver político como o pacto de classes onde quando em crise, só o andar de cima vê suas reivindicações atendidas e só o andar debaixo paga a conta.

O duplo discurso só leva a coação da base da pirâmide social. A resposta do Planalto conseguiu ser pior do que até eu mesmo esperava. Em discurso realizado em Cabrobó, sertão pernambucano, durante inauguração de uma fase da obra de transposição das águas do rio São Francisco (o Eixo Norte) a presidente afirmou que “não iria apertar o cinto nos programas sociais”. A ex-ministra de Lula repetira exatamente a mesma promessa de Aécio Neves quando fechou a aliança com Marina Silva no segundo turno de 2014. Garantir as políticas sociais, mas arriscar o modelo de pleno emprego, uma vez que o nível de investimento não cresce e ninguém toca nos lucros do espólio rentista. Logo, Dilma e seus correligionários diretos avisam para quem está na rua: defendam nosso governo, combatam o golpe mas, não exagerem nas reivindicações porque a linha quem dá é o Levy. E ainda dizem que o governo é de “esquerda”....

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