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25 Março 2015

"Engana-se quem imagina que o/a titular do Poder Executivo tudo pode e tudo sabe. E, engana-se mais ainda quem supõe que este/esta titular possa governar sem um atualizado e leal sistema de informações e, obviamente, um sistema de inteligência", escreve Bruno Lima Rocha, professor de ciência política e de relações internacionais.

Eis o artigo.

Neste texto seguimos com o debate para fazer um esforço analítico no sentido de ser o mais didático o possível e assim instrumentalizar o debate à esquerda do governo. Vamos começar com o tema da legitimidade e na sequência, o início do debate quanto a qualidade da liderança política.

A legitimidade é uma meta a ser alcançada a cada dia, precisa ser conquistada, reconquistada e assegurada. Supera em relevância as regras do jogo institucional, pertencendo ao universo do Jogo Real da Política. Pois bem, a fragilidade do atual governo estaria, neste quesito, abalado em duas frentes.

Primeiro, pela proximidade dos projetos estratégicos do governo (Pré-sal) com a suspeita e por vezes evidência de corrupção, onde os partidos oligarcas, as maiores empreiteiras e - aparentemente - também a legenda da presidente, tenha sido denunciado no mesmo esquema. Óbvio que isso não começou agora, mas para o cenário político, precisa do fato. A mesma ausência do fato que não atinge a presidente - ou "ainda não alcança" como constantemente fala o líder do Blocão, Eduardo Cunha, hoje um ator-chave na política nacional - impede a relação. Ou seja, entra como elemento de discurso o fato de que as suspeitas de corrupção na Era FHC na mesma Petrobrás jamais foram investigadas. O que importa ao cenário atual é que há esta suspeita e desta participam partidos da base do governo. Aí entra o segundo problema.

Segundo, a fragilidade de um governo sob ataque e suspeita de corrupção não pode conviver com o acirrado discurso plebiscitário do 2º turno da campanha presidencial (em 2014) e depois o fato de haver rasgado o mesmo discurso (a vaca tossindo....) para ter condições de superar a crise econômica sem abalar os ganhos rentistas. Logo, fica difícil chamar o povo para a rua para defender este governo, sendo que o mesmo traíra aos seus eleitores ainda no final de 2014.

Desta lacuna de legitimidade a direita ideológica e neoliberal se aproveita para atiçar o conservadorismo de estilo UDN e lançar a opção chilena na classe média brasileira e, retroalimentada pelos maiores grupos de mídia do Brasil, transforma-se em histeria coletiva viralizada na internet expandida no Brasil urbano e metropolitano. Na ausência de contraditório jornalístico e com o reforço do agendamento através da Lava Jato, a direita ideológica está cavando um perigoso espaço autônomo, sem depender dos líderes de carreira. Neste cenário, Aécio Neves se preserva como opção Capriles do país.

Qualidade da liderança política e a encruzilhada do Brasil atual

A qualidade da liderança política anda de braços dados com a solidão do exercício do poder. Engana-se quem imagina que o/a titular do Poder Executivo tudo pode e tudo sabe. E, engana-se mais ainda quem supõe que este/esta titular possa governar sem um atualizado e leal sistema de informações e, obviamente, um sistema de inteligência. Pelo visto, o Planalto está como uma peneira, vazando para fora e para baixo, tendo que garantir uma base "aliada" a fórceps e, sendo atropelado por distintos lados ao mesmo tempo. A qualidade da liderança de Dilma é incontestável para seu sistema de crenças, o mesmo não se pode dizer de seu carisma.

Para sorte da reeleita, a direita que não governa com ela não possui alguém com o carisma de um Lacerda e tampouco homens-bomba como a liderança esquálida da Venezuela. Por sorte da América Latina tampouco temos mais as Forças Armadas como Poder Moderador; mas, para desgraça de nossa população, a fraqueza da liderança e a inconsistência programática leva a atual titular a ser em parte refém de seus acordos pela tal da governabilidade e - em paralelo - para a opção preferencial pelos bancos.

Infelizmente a direita está nas ruas, de cara lavada e linguagem publicitária, caminhando para um perigoso desenlace de fim das políticas compensatórias (tímidas e com orçamento mínimo) através de uma linguagem de "união nacional" e unidade dos brasileiros; logo, com uma linguagem condenatória do debate das ações de reparações étnico-raciais além da renda mínima e ações afins. Na ausência de protagonismo de classe, quase tudo recai na ação distributiva do aparelho de Estado. Este é o alvo dos que se mobilizam pela ala direita da política hoje no Brasil.