Diocese alemã quer responsabilizar bispo por excessos de gastos

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30 Julho 2015

Uma diocese católica alemã quer elevar a responsabilização episcopal a um novo nível ao responsabilizar o seu antigo “bispo do bling” [bispo da ostentação] pelos 3,9 milhões de euros (4,9 milhões de dólares) perdidos em uma reforma luxuosa feita à residência diocesana.

A reportagem é de Tom Heneghan, publicada pelo sítio Religion News Service, 27-07-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa

Dom Franz-Peter Tebartz-van Elst ganhou o apelido de “do bling” em 2013, quando assessores revelaram que ele havia gasto 31 milhões (equivalente a 34 milhões de dólares) – seis vezes acima da estimativa inicial – num complexo imponente em frente à catedral românica de Limburg, ao norte de Frankfurt.

O Vaticano o expulsou da diocese meses depois e, posteriormente, o transferiu para ocupar um cargo de baixo escalão na Cúria Romana. Tebartz-van Elst parece estar indo pelo mesmo caminho de outros bispos que falharam em suas responsabilidades, como os poucos punidos nos escândalos de abuso sexual clerical que vêm sendo destituídos de suas dioceses.

Todos os custos incorridos nestes casos de abuso, tais como indenização às vítimas, foram deixados a cargo da diocese. Doze dioceses americanas, sobrecarregadas por essas acusações, entraram com pedido de proteção contra falência.

A Diocese de Limburg, que foi mantida longe dos holofotes durante o tempo em que Tebartz-van Elst pagava milhões com dinheiro de um fundo que só ele controlava, descobriu as perdas no escândalo em torno da construção monumental e quer o seu dinheiro de volta. Ela agora está mantendo discussões com o Vaticano para ver se e como o prelado pode ressarci-la.

Quando o caso veio a público em junho de 2013, a diocese disse que o Centro Diocesano São Nicolau custou quase 10 milhões de euros (11 milhões de dólares) para ser construído, cerca de duas vezes o preço original.

As autoridades financeiras da diocese, o seu conselho de sacerdotes e líderes leigos prontamente pediram para ver as contas, e os meios de comunicação começaram a revelar os detalhes que o bispo sigiloso não conseguia explicar.

Descobriu-se que nenhuma despesa foi poupada na restauração de prédio (“Old Vicarage”) que remonta ao século XVI e na construção de um novo edifício moderno por detrás dele. O complexo ostenta uma capela privada que custou 2,9 milhões de euros (3,2 milhões de dólares) para ser construída, uma mesa de reuniões no valor de 25 mil euros (27.400 mil dólares) e uma banheira na residência do bispo no valor de 15 mil euros (16.5 mil dólares).

Depois de dois meses de tumulto nas paróquias e na imprensa, o Papa Francisco enviou um diplomata à Alemanha para investigar o bispo, que claramente não havia compreendido a sua mensagem de uma “Igreja pobre para os pobres”. Tebartz-van Elst foi tirado da diocese em outubro. Com apenas 53 na época, ele mais tarde renunciou e, depois de vários meses sem aparecer em público, o prelado ressurgiu silenciosamente como funcionário do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização.

O bispo auxiliar Manfred Grothe, a quem o Vaticano designou como administrador apostólico de Limburg até que um novo bispo fosse escolhido, conduziu uma investigação completa do escândalo em torno da construção e descobriu que a conta geral incluía 3,9 milhões de euros em perdas definitivas que tiveram de ser anuladas. Tebartz-van Elst encareceu o projeto exigindo alterações tardias e dispendiosas, fazendo com que trabalhos já feitos fossem desfeitos e encomendando estudos de concepção que não foram utilizados.

“O administrador apostólico levantou dúvidas com base no Direito Canônico bem como a questão de uma compensação material em conversações com o Vaticano, a última vez sendo em abril de 2015. Haverá uma outra reunião sobre este assunto no segundo semestre deste ano”, disse o porta-voz diocesano Stephan Schnelle, em comunicado divulgado no dia 23 de julho.

“A decisão sobre se podemos, ou não, exigir um pagamento por parte do bispo emérito, incluindo o quanto e como ele deveria ressarcir, só pode ser feita em cooperação com o Vaticano. Em princípio, a Santa Sé é responsável em caso de ação judicial contra um bispo”.

Schnelle deixou claro que a Diocese de Limburg manteve o Vaticano plenamente informado sobre a investigação local conduzida e não levantou acusações com base no Direito Canônico contra Tebartz-van Elst em algum tribunal vaticano. A diocese estava também tentando esclarecer a extensão total das perdas financeiras.

A diocese também estava revendo a pensão que paga ao seu ex-bispo, informou Schnelle, sem comentar sobre as reportagens publicadas pela imprensa de que Tebartz-van Elst recebia uma quantia de 7 mil euros (7.700,00 dólares) mensais da diocese, além de seu salário mensal pago pelo Vaticano de cerca de 3 mil euros ($ 3.300,00 dólares). “O acordo de pensão prevê um ajustamento se um novo salário for pago. A diocese também está discutindo esta questão com o Vaticano”, disse ele.

Tebartz-van Elst, religioso conservador que foi multado por ter mentido sob juramento em um outro escândalo relativo ao voo de primeira classe que fez quando foi para a Índia, foi capaz de gastar tanto dinheiro sem nenhuma supervisão porque usou os valores depositados num fundo especial não declarado que muitos bispos alemães têm à sua disposição.

Estas reservas, conhecidas como “Bischoeflicher Stuhl” (literalmente, “a cadeira do bispo”), são economias diocesanas não tributáveis e que não têm de ser mencionadas nos relatórios financeiros anuais, onde as dioceses listam o quanto recebem em receitas, doações e em impostos eclesiásticos especiais da parte dos fiéis.

As dioceses mais ricas – geralmente localizadas na região oeste da Alemanha – contam com propriedades antigas, doações de ex-governantes principescos e receitas de investimentos imobiliários aplicados nestes fundos a que somente o bispo e uns poucos assessores têm acesso. As dioceses nos antigos estados comunistas do leste alemão têm muito menos receita ao seu dispor.

Antes do escândalo envolvendo a Diocese de Limburg, apenas duas das 27 dioceses alemãs haviam relevado a quantidade de recursos mantidos em suas reservas. Muitas delas nem sequer tinham registros completos destes valores, ou desvalorizavam os seus ativos porque nunca tiveram de relatá-los. Mas, com a pressão advinda do escândalo “do bling”, elas aos poucos começaram a publicar relatórios informando a sua riqueza global.

Em fevereiro de 2015, a Diocese de Colônia, há muito considerada a mais rica da Alemanha, revelou um valor total de 3,35 bilhões de euros (3,7 bilhões dólares), mais do que a riqueza do Vaticano conhecida na época. (Os novos padrões financeiros vaticanos descobriram, desde então, mais 1 bilhão de euros que não haviam sido declarados anteriormente.) A “cadeira do bispo” contava com 166.2 milhões de euros (181.800 milhões de dólares) em 2012.

A Diocese de Limburg disse que a sua “cadeira do bispo”, que forneceu a maior parte dos fundos que Tebartz-van Elst lançou mão, tinha 92.500 milhões de euros (101.200 milhões de dólares) no final de 2013.

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