Papa Francisco: ''Precisamos de uma mudança: a economia a serviço dos povos''

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11 Julho 2015

"Nos diversos encontros, nas diversas viagens, comprovei que existe uma espera, uma forte busca, um anseio de mudança em todos os povos do mundo (…) O tempo, irmãos e irmãs, o tempo parece estar se esgotando." O discurso que o Papa Francisco escreveu de próprio punho para o Encontro Mundial dos Movimentos Populares é dirigido "a toda a humanidade". Uma intervenção que fala de "economia comunitária, eu diria, de inspiração cristã" e está destinado a marcar a história do seu pontificado: "Digamos sem medo: queremos uma mudança, uma mudança real, uma mudança redentora. Esse sistema já não se sustenta mais".

A reportagem é de Gian Guido Vecchi, publicada no jornal Corriere della Sera, 10-07-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Quinta-feira à tarde, 9 de julho. Bergoglio está sentado ao lado do presidente Evo Morales, que lhe diz: "Bem-vindo, irmão Francisco". É o discurso mais esperado do pontífice na viagem de oito dias entre Equador, Bolívia e Paraguai. As coisas não estão indo bem no planeta, e é preciso reconhecer isso: "Agricultores sem terra, famílias sem casa, trabalhadores sem direitos, pessoas feridas na sua dignidade", e ainda "guerras insensatas, violência fratricida" e "o solo, a água, o ar e todos os seres da criação sob constante ameaça". Todas "realidades destrutivas" que "respondem a um sistema que se tornou global", um sistema que "impôs a lógica do lucro a todo o custo".

Assim, o papa se faz voz dos pobres e dos povos do mundo, "que o grito dos excluídos se escute na América Latina e em toda a Terra", como uma antecipação da reflexão que será desenvolvida na Assembleia das Nações Unidas de Nova Iorque, no dia 25 de setembro. "Está se castigando a terra, os povos e as pessoas de um modo quase selvagem. E, por trás de tanta dor, tanta morte e destruição, sente-se o fedor daquilo que Basílio de Cesareia chamava de 'o esterco do diabo'".

Contra a austeridade

Este é o ponto: "A ambição desenfreada de dinheiro que governa. O serviço para o bem comum fica relegado". Um sistema que "continua negando a bilhões de irmãos os mais elementares direitos econômicos, sociais e culturais, que atenta contra o projeto de Jesus". É hora de "uma alternativa humana" para a "globalização da exclusão e da indiferença", de uma mudança radical "que nasce dos povos e cresce entre os pobres", de uma "resistência ativa" ao "sistema idolátrico que exclui, degrada e mata" as pessoas e está produzindo "danos talvez irreversíveis ao ecossistema".

Um discurso muito amplo, que propomos e merece ser lido por inteiro, com uma passagem sobre o neocolonialismo das finanças e dos poderosos que parece evocar também a crise grega: "O novo colonialismo adota diversas fachadas. Às vezes, é o poder anônimo do ídolo dinheiro: corporações, financiadores, alguns tratados denominados 'de livre comércio' e a imposição de medidas de 'austeridade' que sempre apertam o cinto dos trabalhadores e dos pobres".

Conversão

Por isso, é preciso mudar. O papa se dirige aos movimentos. Em Santa Cruz, também está o presidente boliviano, Evo Morales. Já não é mais o tempo de "pessimismo charlatão". Também não basta uma mudança estrutural, adverte Francisco: "Dolorosamente, sabemos que uma mudança de estruturas que não é acompanhada por uma sincera conversão das atitudes e do coração termina, em longo ou curto prazo, por se burocratizar, corromper e sucumbir. É preciso mudar o coração. Por isso, eu gosto tanto da imagem do processo, em que a paixão por semear, por regar serenamente o que outros irão florescer, substitui a ansiedade por ocupar todos os espaços de poder disponíveis e ver resultados imediatos".

Não se trata de ideologia, tudo nasce de olhar na realidade o rosto concreto das mulheres e dos homens: "Não se ama nem os conceitos nem as ideias: amam-se as pessoas".

Propriedade privada

É hora de propostas concretas. "Inclusive dentro dessa minoria cada vez mais reduzida que acredita se beneficiar com esse sistema, reina a insatisfação e especialmente a tristeza." Francisco explica que "nem o papa nem a Igreja tem o monopólio da interpretação da realidade social, nem a proposta de soluções para problemas contemporâneos".

No entanto, ele propõe "três grandes tarefas" para mudar. Começando pela necessidade de "pôr a economia a serviço dos povos". A economia "não deveria ser um mecanismo de acumulação, mas a adequada administração da casa comum". E não pode bastar o "decoroso apoio" dos pobres.

As palavras de Francisco são claras, como a reflexão sobre a propriedade privada: "A distribuição justa dos frutos da terra e o trabalho humano não é mera filantropia. É um dever moral. Para os cristãos, o compromisso é ainda mais forte: é um mandamento. Trata-se de devolver aos pobres e aos povos o que lhes pertence. O destino universal dos bens não é um adorno discursivo da doutrina social da Igreja. É uma realidade anterior à propriedade privada. A propriedade, muito em especial quando afeta os recursos naturais, deve estar sempre em função das necessidades dos povos".

E ainda: "A Bíblia nos recorda que Deus escuta o clamor do seu povo, e eu também gostaria de voltar a unir a minha voz à de vocês: os famosos três 't', terra, teto e trabalho para todos os nossos irmãos e irmãs. Eu disse e repito: são direitos sagrados. Vale a pena, vale a pena lutar por eles".

Neocolonialismo

A segunda tarefa que o papa propõe é "unir os nossos povos no caminho da paz e da justiça". Francisco usa palavras muito duras contra o neocolonialismo, a globalização que aniquila as diferenças: "Os povos do mundo querem ser artífices do seu próprio destino. Eles querem transitar em paz a sua marcha à justiça. Eles não querem tutelas nem ingerências em que o mais forte subordina o mais fraco. Eles querem que a sua cultura, o seu idioma, os seus processos sociais e tradições religiosas sejam respeitados. Nenhum poder fático ou constituído tem direito de privar os países pobres do pleno exercício da sua soberania".

Nenhum dos grandes problemas da humanidade pode ser resolvido sem a "interação" entre os Estados e os povos, "nenhum governo pode agir fora de uma responsabilidade comum". Assim, Bergoglio escreve: "O colonialismo, novo e velho, que reduz os países pobres a meros provedores de matéria-prima e de trabalho barato gera violência, miséria, migrações forçadas e todos os males que podemos ver (…) Porque ao pôr a periferia em função do centro, nega-se-lhes o direito a um desenvolvimento integral. E isso, irmãos, é iniquidade, e a iniquidade gera violência que não haverá recursos policiais, militares ou de inteligência capazes de deter".

A terceira tarefa é "defender a Mãe Terra", e vale o mesmo discurso: "Não se pode permitir que certos interesses – que são globais, mas não universais – se imponham, submetam Estados e organizações internacionais e continuem destruindo a criação".

Mea culpa e luta

Francisco é o primeiro papa jesuíta da história. E, dessas terras, os jesuítas foram expulsos em 1767 porque defendiam os índios. A Companhia de Jesus tinha se posto contra as potências da época e pagou por isso com a supressão em 1773.

Por isso, é notável que justamente Bergoglio, no seu discurso, peça "humildemente perdão" em nome da Igreja pelas "ofensas" e pelos "crimes contra os povos originários". Mas a Igreja também é composta pelos "muitos bispos, sacerdotes e leigos" que defenderam os índios até o martírio.

Um testemunho em favor dos últimos que continua até hoje: "A Igreja, seus filhos e filhas, são uma parte da identidade dos povos na América Latina. Identidade que, tanto aqui como em outros países, alguns poderes se empenham em apagar, talvez porque a nossa fé é revolucionária, porque a nossa fé desafia a tirania do ídolo dinheiro".

A última palavra é dirigida aos artesãos, agricultores, pescadores, catadores, a todos aqueles que estão participando do Encontro Mundial de Movimentos Populares na Feira de Santa Cruz: "Os povos e seus movimentos estão chamados a clamar, a se mobilizar, a exigir – pacífica, mas tenazmente – a adoção urgente de medidas apropriadas. (…) Sigam com a sua luta".

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