A história da dívida da Alemanha se repete na Grécia

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10 Julho 2015

"Mas a economia grega encolheu em um quarto. Seus aposentados estão empobrecidos. Seus bancos estão fechados. Isso conta como consequências. Nenhum governo são imitaria o caminho grego", escreve Eduardo Porter, em artigo publicado por The New York Times, e reproduzido pelo portal Uol, 09-07-2015.

Eis o artigo.

Enquanto as negociações entre a Grécia e seus credores podiam entrar em colapso, culminando na forte rejeição no domingo pelos eleitores gregos das condições exigidas em troca da ajuda financeira, uma foto antiga ressurgiu na Internet.

Ela mostra Hermann Josef Abs, o chefe da delegação da República Federal da Alemanha em Londres, em 27 de fevereiro de 1953, assinando o acordo que, na prática, reduziu pela metade as dívidas do país junto a seus credores estrangeiros.

É uma imagem que ainda repercute hoje. Para os críticos da insistência da Alemanha de que Atenas tem que aceitar uma austeridade mais dolorosa antes que qualquer redução da dívida possa ser colocada na mesa, ela serve como uma réplica contundente: a principal credora exigindo que os gregos paguem pelo esbanjamento passado se beneficiou há não muito tempo de termos mais lenientes do que agora está disposta a oferecer.

Mas além de servir como lembrete da hipocrisia alemã, a imagem oferece uma lição mais importante: coisas desse tipo já foram tratadas com sucesso no passado.

O século 20 oferece um roteiro rico de sucessos e fracassos no trato de crises de dívida soberana. A boa notícia é que agora os economistas em geral entendem os contornos de uma abordagem bem-sucedida. A má notícia é que muitos autores de políticas ainda demoram demais para ouvir seus conselhos –-insistindo primeiro em repetir políticas fracassadas.

"Eu já vi esse filme muitas vezes antes", disse Carmen M. Reinhart, uma professora da Escola Kennedy de Governo, em Harvard, que talvez seja a maior especialista do mundo em crises de dívida soberana. "É muito fácil ficar preso nas idiossincrasias de cada situação individual e não perceber o padrão recorrente."

O padrão histórico recorrente? Endividamentos excessivos são resolvidos apenas após grandes reduções do valor da dívida. Quanto mais tempo demora para uma dívida ser reduzida, maior será a futura redução.

Ninguém deveria entender melhor isso que os alemães. Não apenas por terem se beneficiado com o acordo em 1953, que escorou o milagre econômico do pós-guerra da Alemanha. Vinte anos antes, a Alemanha deu calote em suas dívidas da Primeira Guerra Mundial, após sofrer com um surto de hiperinflação e depressão econômica que ajudaram a conduzir Hitler ao poder.

É uma lição geral sobre a natureza da dívida. Mas os calotes da Primeira Guerra Mundial de mais de uma dúzia de países nos anos 30 e a reestruturação da dívida externa de alguns países pelo plano Brady, no início dos anos 90, que acabou com uma década de alto endividamento e nenhum crescimento na América Latina e em outros países em desenvolvimento, são uma lição que precisa ser reaprendida repetidas vezes.

Ambos episódios foram precedidos por uma década ou mais de negociações e reestruturações que - não diferente dos primeiros programas de resgate da Grécia – prolongaram o vencimento das dívidas e reduziram suas taxas de juros. Mas as crises terminam e as economias melhoram apenas após a redução da dívida.

Em um estudo recente, Reinhart e Christoph Trebesch, da Universidade de Munique, apontaram para as fortes recuperações econômicas após os calotes de 1934 –-que reduziram a dívida estrangeira dos países devedores em pelo menos 43%, em média-– e do plano Brady, que reduziu as dívidas dos devedores em média em 36%.

"A saída da crise em ambos os episódios ocorreu apenas após uma profunda redução do valor nominal da dívida", eles concluíram. "Formas mais suaves de alívio para a dívida, como prolongamento do vencimento e reduções das taxas de juros, geralmente não são seguidos por maior crescimento econômico ou por melhor rating de crédito."

Os autores de políticas ainda precisam entender isso.

Isso vale até para o Fundo Monetário Internacional (FMI), que foi criado depois da Segunda Guerra Mundial para lidar precisamente com essas situações. Sua abordagem para a crise da dívida europeia, há cinco anos, começou com a afirmação de que o calote por países avançados era "desnecessário, indesejável e improvável". Para justificar isso, ele montou uma análise do potencial econômico grego que beirava a fantasia.

Até recentemente, em março de 2014, o FMI argumentava que o governo em Atenas poderia retirar 3% da economia grega na forma de superávit primário neste ano, e 4,5% no ano que vem, e ainda assim desfrutar de um crescimento econômico de 4%.

Como ele conseguiria esse feito? Moleza. O crescimento total da produtividade grega só teria que passar de último para o topo da lista dos países do euro. Sua oferta de mão de obra teria que saltar para o topo da lista e sua taxa de emprego teria que atingir os níveis da Alemanha.

As suposições contrastavam chocantemente com a realidade cotidiana da Grécia, onde mais de um quarto da força de trabalho está desempregada, cerca de três quartos dos empréstimos bancários estão inadimplentes, o pagamento de impostos é rotineiramente adiado ou evitado e o governo financia a si mesmo não pagando suas contas.

Peter Doyle, um ex-economista sênior do FMI que deixou a entidade enojado pela forma como ela lidou com a crise financeira mundial, escreveu: "Não é uma virtude se o 'otimismo' resulta em diagnóstico errado em série de um problema sério: na melhor das hipóteses, ele prolonga o mal; na pior, pode ser fatal".

Os credores, é claro, não gostam de reduzir a dívida dos devedores. Mas não é a forma como a Alemanha e seus aliados justificam sua abordagem. Eles empregam em vez disso o argumento do "risco moral": se for oferecida à Grécia uma saída fácil de sua dívida, o que a impediria de voltar a gastar o dinheiro dos outros? Que tipo de lição isso passaria para, digamos, Portugal?

Mas a economia grega encolheu em um quarto. Seus aposentados estão empobrecidos. Seus bancos estão fechados. Isso conta como consequências. Nenhum governo são imitaria o caminho grego.

A Alemanha, na verdade, entende o risco moral de modo invertido. A definição padrão se refere aos credores; cobrir suas perdas os encorajará a conceder empréstimos ruins de novo. E é preciso não esquecer que foi exatamente isso o que os credores da Europa fizeram. A assistência financeira deles à Grécia foi dada para o pagamento aos bancos e investidores alemães, franceses e outros detentores da dívida grega. Ela fez pouco ou nenhum bem à Grécia.

A Grécia tem feito pouco para tratar de sua má gestão econômica endêmica. Mas ela tem poucos incentivos para fazê-lo se os frutos das melhorias econômicas forem todos para seus credores.

Uma explicação caridosa da estratégia dos credores da Grécia é que temiam que o sistema financeiro da Europa era frágil demais em 2010, quando a insolvência da Grécia se tornou aparente, para sobreviver a uma redução da dívida grega. Além disso, a Grécia não era uma exceção, mas um dentre vários países europeus com problemas que poderiam seguir pelo mesmo caminho.

Mas Adam S. Posen, que chefia o Instituto Peterson para Economia Internacional, diz achar que tem mais a ver com covardia política. Os credores da Grécia não estavam preparados para receber o golpe de uma redução da dívida grega e então socorreram explicitamente seu próprio sistema bancário. Assim, recorreram ao que Posen chama de "prolongar e fingir".

"Há um incentivo incrivelmente forte para não reconhecer prejuízos", Posen me disse. Os governos "farão coisas muito mais onerosas desde que não apareçam listadas no orçamento".

Mas há um pequeno motivo para otimismo. Hoje, o risco de contágio pela Grécia é baixo, diz Reinhart. Outros países europeus periféricos estão em melhor forma. E até mesmo os economistas do FMI reconhecem que pode não haver como evitar uma redução da dívida grega. O custo para os credores da Europa seria minúsculo.

Mas a Alemanha ainda não se convenceu. Foi preciso uma década ou mais desde o início da crise da dívida latino-americana até o plano Brady. Apenas o Brasil passou por seis reestruturações da dívida. De modo semelhante, os calotes generalizados de 1934 foram seguidos por mais de uma década de meias medidas fracassadas. Será que a Grécia terá que esperar tanto?

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