Francisco coloca o meio ambiente acima da política de curto prazo

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23 Junho 2015

"Francisco tem pouca paciência para com as soluções e 'arrumações' tecnológicas. Ele faz uma crítica profunda da tecnologia, que muito se assemelha àquela do filósofo Martin Heidegger. Ele não cita Heidegger, mas sim o teólogo favorito de Bento XVI, Romano Guardini, que foi influenciado pelo filósofo", escreve Paul Collins, hitoriador e escritor, em artigo publicado pelo sítio australiano Eureka, 18-06-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Paul Collins publicou “Judgment Day: The Struggle for Life on Earth” (2010).

Eis o artigo.

Hoje em dia, nós o cantamos como “Todas as criaturas de Deus, nosso Rei”. É um hino cósmico de louvor a Deus em que todo o mundo natural se reúne. A encíclica do Papa Francisco, Laudato Si’ (“Louvado Sejas”), cita este hino por inteiro (n. 87).

O biógrafo de São Francisco, Tomás de Celano, diz que todas as criaturas de Deus preenchiam este santo com uma aletria maravilhosa e indescritível quando ele contemplava o sol, ou quando levantava os olhos para a lua, fitava as estrelas, o firmamento (...) Mesmo em direção a pequenas larvas, ele as observava com um amor superior (...) ele costumava pegá-las (...) e colocá-las em local seguro, onde não seriam esmagadas”.

Consciente de que a sua própria morte se aproximava, o santo cantou: “Glória a ti, ó Senhor, pela nossa irmã a morte corporal, da qual ninguém pode escapar”. Francisco, “esta figura ativa e atraente” (n. 10) é onipresente na Laudato Si’.

Esta encíclica é um documento extraordinário dirigido a “cada pessoa que habita neste planeta” e fala sobre os “cuidados da nossa casa comum” (n. 3), sendo essencialmente uma reflexão acerca da vida no mundo contemporâneo. Francisco coloca-se em uma tradição papal de preocupação para o meio ambiente que vai de Paulo VI, em 1971, o Bento XVI. Ele também destaca o trabalho de Patriarca Ortodoxo Bartolomeu, que diz que “cometer um crime contra o mundo natural é um pecado contra nós mesmos (…) e contra Deus”; uma nota de rodapé na encíclica menciona John Chryssavgis, padre ortodoxo nascido na Austrália e assessor teológico/ambiental de Bartolomeu.

Laudato Si’ não pega leve com os que negam o aquecimento global. Com base no consenso científico, o documento diz que “a maior parte do aquecimento global (…) é devida à alta concentração de gases com efeito de estufa (…) emitidos sobretudo por causa da atividade humana” (n. 23). Isso resulta dos “modelos atuais de produção e consumo” (26) e os impactos mais sérios “recairão, nas próximas décadas, sobre os países em vias de desenvolvimento” (25) através da destruição dos ecossistemas, da escassez de água doce (29) e da elevação do nível do mar. O documento não pega leve também com as tecnologias “baseadas nos combustíveis fósseis altamente poluentes, sobretudo o carvão”, que deve ser “progressivamente e sem demora, substituída” (n. 165).

O papa é particularmente crítico com a perda de biodiversidade: “A grande maioria [das milhares de espécies vegetais e animais] extingue-se por razões que têm a ver com alguma atividade humana. Por nossa causa, milhares de espécies já não darão glória a Deus com a sua existência, nem poderão comunicar-nos a sua própria mensagem. Não temos direito de o fazer” (n. 33). Ele é crítico da política de curto prazo, “porque não se pode modificar as políticas relativas às alterações climáticas e à proteção ambiental todas as vezes que muda um governo” (n. 181).

Francisco tem pouca paciência para com as soluções e “arrumações” tecnológicas. Ele faz uma crítica profunda da tecnologia, que muito se assemelha àquela do filósofo Martin Heidegger. Ele não cita Heidegger, mas sim o teólogo favorito de Bento XVI, Romano Guardini, que foi influenciado pelo filósofo. Francisco relaciona a mentalidade da “solução rápida” à “ideia dum crescimento infinito ou ilimitado, que tanto entusiasmou os economistas, os teóricos da finança e da tecnologia” (n. 106). Ele diz que a tecnologia “tem a tendência a fazer com que nada fique fora da sua lógica férrea” (n. 108), que favorece “interesses de determinados grupos de poder” (107).

Outro grupo criticado é o daquelas pessoas – como eu – que dizem que o excesso de população é o problema. “Culpar o incremento demográfico em vez do consumismo exacerbado (…) é uma forma de não enfrentar os problemas”. Ele é crítico de “determinadas políticas de ‘saúde reprodutiva’ que afirmam que o “crescimento demográfico é plenamente compatível com um desenvolvimento integral e solidário” (n. 50). Assim, ele reduz a questão populacional ao consumismo e à desigualdade na distribuição dos bens no mundo.

Isto enfatiza um tema que atravessa Laudato Si’: a tentativa de Francisco de integrar o meio ambiente com a justiça social e a equidade. Até agora, a ênfase católica havia estado sobre a justiça social. Claro, havia o reconhecimento das questões ecológicas, mas estas nunca chegaram a ser o elemento enfatizado. Francisco está tentando reequilibrar estas questões, concentrando-se igualmente sobre o meio ambiente e a equidade. Ele as vê como coisas estreitamente interligadas. “Não há ecologia”, diz ele, “sem uma adequada antropologia” (n. 118). Isso se aproxima da essência de sua mensagem. Tudo está inter-relacionado.

Francisco se esforça para manter a ecologia e a justiça social juntas, porém não tenho muita certeza que ele teve sucesso aqui. Penso isso porque não creio ser esta a maneira correta de se proceder: a ênfase moral primária tem de estar sobre a terra; o mundo natural vem em primeiro lugar.

O capítulo final é uma profunda meditação sobre a contribuição cristã à espiritualidade ecológica e destaca o chamado à “conversão ecológica”. Ele diz que isso “implica gratidão e gratuidade, ou seja, um reconhecimento do mundo como dom recebido do amor do Pai (…) consciência amorosa de não estar separado das outras criaturas, mas de formar com os outros seres do universo uma estupenda comunhão universal” (n. 220).

Laudato Si’ precisa de um bom editor. Eu calculo haver uns quatro escritores diferentes, o que leva à inconsistência e repetição. Mas ainda assim é uma encíclica incisiva, prática, realista e de grande alcance que aborda os problemas mais importantes que enfrentamos, com honestidade e integridade absoluta. Em certos trechos ela é de uma rara beleza, quase poética; por exemplo, o parágrafo 53. É certamente uma carta encíclica extraordinária que vai perturbar um monte de gente na Igreja e no mundo como um todo.