A beatificação de Romero. Uma escolha livre de Francisco

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25 Mai 2015

"O primeiro Papa latino-americano decidiu beatificar o bispo-mártir, desmanchando um nó profundo entre o catolicismo do continente e Roma. A beatificação é um momento de forte identificação dos católicos latino-americanos com o “seu” Papa. Romero é para eles um símbolo: fala de um catolicismo latino-americano próximo aos pobres e ao espírito do Vaticano II", escreve Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Santo Egídio, em artigo publicado no jornal Corriere della Sera, 23-05-2015. A tradução é de Benno Dischinger.

Eis o artigo.

Várias delegações e chefes de Estado latino-americanos, os bispos centro-americanos e os de outros Países, umas 300.000 pessoas acorreram à praça das Américas, em San Salvador, onde domina a grande estátua do Salvador do Mundo. O País está em festa, libertado de uma história dolorosa.

É também um momento grandioso para o catolicismo latino-americano, o qual esperava há anos esta passagem para quem já chamavam de “São Romero de América”. O primeiro Papa latino-americano decidiu beatificar o bispo-mártir, desmanchando um nó profundo entre o catolicismo do continente e Roma. A beatificação é um momento de forte identificação dos católicos latino-americanos com o “seu” Papa. Romero é para eles um símbolo: fala de um catolicismo latino-americano próximo aos pobres e ao espírito do Vaticano II, passado pelo sofrimento da instabilidade política (comum a muitos Países do continente). E, no entanto Romero, embora tenha sido morto como mártir no agora distante 1980, não foi beatificado nem por João Paulo II, nem por Bento XVI.

Onde estava o bloqueio? Para alguns setores eclesiásticos ele era um ícone da Teologia da libertação ou da luta política, enquanto sua figura vinha sendo amplamente manipulada. Em vida, Romero teve uma relação difícil com Wojtyla. Ao Papa polaco parecia que o bispo minimizasse o marxismo da guerrilha em luta contra o governo e não se empenhasse pela unidade dos bispos salvadorenhos (todos fogosamente hostis a Romero, exceto um).

No entanto, após o assassinato, Wojtyla se inclinou sobre o sangue vertido. Em 1983, em visita ao País, não obstante a oposição dos bispos e do governo, pretendeu ir à tumba de Romero. Estendeu as mãos sobre ela e disse: “Romero é nosso”.

O Papa Ratzinger conhecia as radicadas hostilidades a Romero. O colombiano, cardeal Lopez Trujillo, combatente contra a Teologia da libertação, se opunha com todas as forças: beatificar Romero era para ele beatificar a Teologia da libertação. Não era fácil para Bento XVI desvincular-se destas oposições, não obstante tivesse expressado apreciação pelo livro do historiador Roberto Morozzo, que reconstruía a biografia do bispo como homem de paz, pastor e amigo dos pobres, vítima de uma situação inevitável.

Francisco está livre dos fantasmas da luta em torno da Teologia da libertação. Havia confiado a um ex-colaborador de Romero em visita a Buenos Aires: “se eu fosse Papa, Romero seria santo”. Ele entende perfeitamente quem seja Romero para a América Latina e sabe quanto tenha sido difícil viver em meio às polarizações ideológicas e políticas dos anos Setenta na América Latina.

Quem foi Romero? Disse-o bem Dom Rivera, seu sucessor e único bispo salvadorenho a apoiá-lo: “Não estou de acordo com aqueles que apresentam Romero como um homem de veste talar passado à revolução, mesmo se faço minha a afirmação que ele encarnou plenamente, naquela realidade injusta de El Salvador... a opção preferencial pelos pobres que a Igreja do Concílio nos pede”.

A história reconstruiu atualmente o seu perfil: longe da ideologia e da violência, não se submeteu ao bloco Igreja-direita. Com demasiada frequência se esqueceu que Romero caiu mártir, crivado pelos projéteis em fragmentação enquanto celebrava a missa, aos 24 de março de 1980.

Na última ida a Roma, havia confiado que retornar a El Salvador para ele queria dizer morte. Na realidade, desde 1977, quando se tornara arcebispo de San Salvador, a tensão tinha crescido. Um ano depois, não participou da posse do presidente da República (responsável por graves violências). Fora próximo dos pobres e aberto ao diálogo com todos. Cada domingo denunciava violência e repressão num País para ele “explosivo”.

No último domingo antes da morte disse aos soldados: “Irmãos, pertenceis ao nosso mesmo povo, matais os vossos irmãos agricultores e ante uma ordem de matar que vem de um homem deve prevalecer a lei de Deus que diz: “Não matarás...”. E concluiu: “Nenhum soldado é obrigado a obedecer a uma ordem que seja contra a lei de Deus...”

Isso foi considerado como um convite à insubordinação pelos setores oligárquicos, que usavam os esquadrões da morte: Romero devia morrer logo. Todavia, após a morte, nos anos da guerra civil (com 70.000 mortos), Romero se tornou um símbolo para tantos. Mostrou a força rochosa da Igreja latino-americana do Vaticano II. O Papa Francisco quis reconhecer um mártir e, com ele, uma história de tantos que é também a sua.

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