“A mudança climática não é uma questão de fé; mas negá-la é um falso debate”

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Por: André | 22 Maio 2015

A mudança climática é real e está comprovada cientificamente. Deve ser debatida. Melhor, qual modelo de desenvolvimento a humanidade quer para o futuro? Essas são considerações de Felipe Calderón Hinojosa, ex-presidente do México e atual presidente da Comissão Global de Economia e Clima. Ele participou, em Roma, de uma conferência e, junto com outros especialistas, foi recebido em audiência pelo Papa Francisco.

O encontro durou um pouco mais de 20 minutos e aconteceu na Casa Santa Marta do Vaticano. A comitiva, de seis pessoas ao todo, participou depois do encontro intitulado “A nova economia global”, que aconteceu na Pontifícia Universidade da Santa Cruz. Nesta entrevista, Calderón antecipou que a próxima encíclica de Bergoglio “provocará controvérsias”.

A entrevista é de Andrés Beltramo Alvarez e publicada por Vatican Insider, 20-05-2015. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

O que espera da próxima encíclica do Papa Francisco sobre o meio ambiente?

É a continuidade de várias chamadas de atenção que vieram da cátedra de Pedro. O Papa Paulo VI já falava de temas que hoje são conhecidos como sustentabilidade. Houve um documento muito importante de Bento XVI sobre o tema e agora uma encíclica que indicará este compromisso do cristão com respeito não apenas aos outros, o próximo mais afetado pelas consequências climáticas que são os mais pobres, mas também o compromisso com a criação, que poucas vezes consideramos com a devida seriedade. Alegra-me o fato de que o Papa Francisco tenha assumido um dos temas medulares para a humanidade. Dois problemas ameaçam o bem-estar da humanidade no futuro: a brecha entre ricos e pobres e a brecha entre o homem e a natureza. O Papa está contribuindo fortemente para suturar as duas.

A encíclica reforçará a luta contra a mudança climática?

Definitivamente. Não estará isenta de controvérsias, o que será um sintoma de que está no caminho certo. Grandes interesses precisam ser movidos, muitos preconceitos precisam ser tocados para entender que estamos acabando com o planeta. Não apenas isso, também o nosso passo erosivo e destrutivo do meio ambiente, nossa responsabilidade na mudança climática está ameaçando o nosso futuro. Requer-se um impulso e uma autoridade moral como o Papa para colocar as coisas no seu devido lugar.

As polêmicas já aparecem, embora a encíclica ainda não tenha sido publicada. Por um lado, os céticos do aquecimento global e, por outro, os alarmistas. Vocês fazem parte da “terceira via”?

A nossa postura é realista. A mudança climática não é uma questão de fé, mas de ciência, e a ciência demonstrou que ela existe, porque, além disso, é obvia e a vemos todos os dias. O aquecimento global existe e isso não é uma questão religiosa, mas de medição dos termômetros do mundo. A temperatura elevou-se em um grau desde a revolução industrial e as últimas três décadas foram as mais quentes de que se tem registro no Hemisfério Norte.

Por outro lado e estatisticamente, está provado que existe uma correlação direta entre o aumento das emissões de carbono e a mudança climática. Então, esse debate é um falso debate: se a mudança climática existe e se ela está afetando a população. É a intervenção da Igreja é fundamental em um cenário em que o comportamento humano marca a diferença. Qual é o comportamento ético que um crente ou não crente deveria ter? Por isso, a encíclica é importante.

Algumas correntes defendem a urgência de controlar a população para lutar contra a mudança climática, mas isso iria contra a doutrina da Igreja. Está de acordo?

São muitas coisas que se combinam. A mudança climática não é fundamentalmente, nem apenas um problema demográfico. É como quem opina que a forma de acabar com o aquecimento global é frear o desenvolvimento e que não exista crescimento. A verdade é que pode haver crescimento e melhoria das condições de vida das pessoas. É claro que existe uma realidade de bens escassos, mas a questão fundamental é o modelo de desenvolvimento que escolhemos: um intensivo em carbono, destrutivo do planeta, ou um baixo carbono, assentado sobre bases urbanas bem planejadas, com uso eficiente de recursos naturais. Nesta segunda alternativa está a chave para a solução.

Como lutar contra a pobreza respeitando a natureza?

Se considerarmos que 1,4 bilhão de pessoas não tem eletricidade agora, a maioria delas na África Subsaariana, temos que pensar na maneira de fornecer-lhes eletricidade e com isso a água potável. Podemos fazer isso usando o velho modelo, com plantas poluidoras que vão envenenar por mais 50 anos a atmosfera, ou podemos fazê-lo no novo modelo com plantas de geração renováveis que são tão ou mais competitivas que as de energia tradicional. Se optamos por esse modelo não só teremos menos emissões de carbono, senão também melhores finanças públicas e melhores níveis de bem-estar para essas pessoas. A pergunta não é se devemos investir ou não em infraestrutura, mas em que tipo de infraestrutura.

Nos próximos 15 anos teremos um bilhão de pessoas morando em cidades. Que tipo de cidades vamos projetar para elas? Optaremos por grandes eixos viários para os carros e casas que se estendem por quilômetros quadrados ao redor ou iremos para cidades melhor planejadas, comunicadas, com transporte público eficiente? Esse é o tipo de decisão que devemos tomar.

Não são propostas utópicas?

Isso é o interessante dos grandes desafios da humanidade, que devem enfrentar muitos obstáculos. Claro que para uma empresa com milhões de dólares investidos em uma reserva de carvão interessa dizer que a mudança climática não existe. Isso me faz lembrar da indústria do tabaco nos Estados Unidos, que nos anos 50 e 60 dedicou-se a fazer anúncios de televisão com atores e atrizes vestidos com guarda-pós brancos, fingindo ser médicos e dizendo que não estava comprovado que o tabaco produzia doenças. A humanidade finalmente enfrentou seus interesses, porque sabemos que o tabaco causa enfisema, câncer, etc. É um pouco o que está acontecendo.

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