"O futuro do planeta está em jogo. Não há espaço para globalizar a indiferença"

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21 Mai 2015

"Quando o futuro do planeta está em jogo, não existem fronteiras políticas, barreiras ou muros atrás dos quais podemos nos esconder para nos proteger dos efeitos da degradação ambiental e social. Não há lugar para a globalização da indiferença, para a economia de exclusão ou para a cultura do desperdício, tantas vezes denunciadas pelo Papa Francisco", afirma Pietro Parolin, cardeal secretário de Estado, em mensagem enviada aos participantes da Conferência “A Nova Economia do Clima. Como o crescimento econômico e a sustentabilidade podem andar de mãos dadas”, promovida na Universidade da Santa Cruz, em Roma, em colaboração com o Pontifício Conselho “Justiça e Paz”, o World Resource Institute, o The New Climate Economy e com a Embaixada dos Países Baixos junto à Santa Sé.

O texto, em inglês, foi publicado pela Sala de Imprensa da Santa Sé, 20-05-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o texto.

Tenho a honra de enviar esta calorosa saudação a todos os participantes da Conferência de hoje sobre “A Nova Economia do Clima. Como o crescimento econômico e a sustentabilidade podem andar de mãos dadas”.

Eu gostaria de iniciar esta breve reflexão recordando a seguinte mensagem da Carta Encíclica Caritas in Veritate do Papa Bento XVI: “Há que avaliar atentamente as consequências que podem ter sobre as pessoas as tendências atuais para uma economia a curto se não mesmo curtíssimo prazo. Isto requer uma nova e profunda reflexão sobre o sentido da economia e dos seus fins, bem como uma revisão profunda e clarividente do modelo de desenvolvimento, para se corrigirem as suas disfunções e desvios. Na realidade, exige-o o estado de saúde ecológica da terra; pede-o sobretudo a crise cultural e moral do homem, cujos sintomas são evidentes por toda a parte” (n. 32).

Estas palavras podem ser uma fonte significativa de inspiração para esta Conferência, que busca explorar a compatibilidade entre crescimento econômico e sustentabilidade bem como desenvolver as chamadas “oportunidades em que todos saem ganhando”, que ajudariam a realizar estes dois importantes objetivos para o bem das gerações atuais e futuras.

Muitos estudos, tal como o conduzido pelo New Climate Economy Report, mostram várias possibilidades para se reforçar as complementaridades entre estes dois objetivos.

Esta Conferência vem em boa hora, visto que estão em andamento dois processos preparatórios importantíssimos do sistema das Nações Unidas: a Cúpula da ONU para adotar uma agenda de desenvolvimento pós-2015 e a Conferência das Partes das Nações Unidas para Mudanças Climáticas – COP-21, em Paris, no próximo mês de dezembro, onde se buscará adotar um novo acordo sobre o enfrentamento dos efeitos adversos das mudanças climáticas. Estes dois movimentos representam a grave responsabilidade moral e ética que cada um de nós tem para com toda a família humana, especialmente os pobres e as futuras gerações.

Em sua Mensagem à COP-20 Lem ima, no Peru, o Papa Francisco sublinhou claramente a “gravidade da incúria e da inação: o tempo para encontrar soluções globais está se esgotando. Apenas podemos encontrar soluções adequadas se atuarmos juntos e de forma harmônica. Existo, por isso, um claro, definitivo e inadiável imperativo ético de agir. Uma luta eficaz contra o aquecimento global será possível unicamente por meio de uma resposta coletiva responsável, que supere os interesses e os comportamentos particulares e se realize livre de pressões políticas e econômicas. Uma resposta coletiva capaz também de superar atitudes de desconfiança e de promover uma cultura da solidariedade, do encontro e diálogo; capaz de demonstrar responsabilidade em proteger o planeta e a família humana”.

Quando o futuro do planeta está em jogo, não existem fronteiras políticas, barreiras ou muros atrás dos quais podemos nos esconder para nos proteger dos efeitos da degradação ambiental e social. Não há lugar para a globalização da indiferença, para a economia de exclusão ou para a cultura do desperdício, tantas vezes denunciadas pelo Papa Francisco (cf. Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, 52, 53, 59).

Evidentemente, o caminho não é fácil, uma vez que esta responsabilidade ética e moral põe em causa a redefiniçao do [atual] modelo de desenvolvimento, exigindo um grande compromisso político e econômico. No entanto, como eu disse na Cúpula sobre o Clima da Nações Unidas em 23 de setembro de 2014: “As bases operacionais e tecnológicas necessárias para facilitar esta responsabilidade mútua já estão disponíveis ou ao nosso alcance. Temos a capacidade de iniciar e fortalecer um processo verdadeiro e benéfico que irrigará, por assim dizer, através de atividades de adaptação e mitigação, o campo da inovação econômica e tecnológica – onde é possível cultivar dois objetivos interconectados: combater pobreza e atenuar os efeitos das mudanças climáticas”.

É minha sincera esperança – e tenho certeza de que ela é possível – que esta Conferência possa dar uma importante contribuição nessa direção, levando em conta que “a dignidade de cada pessoa humana e o bem comum são questões que deveriam estruturar toda a política econômica” (Papa Francisco, Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, n. 203).

Cardeal Pietro Parolin 
Secretário de Estado

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