Um Papa para a Commonwealth católica. A teologia do Vaticano II é chave para compreender Francisco

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19 Março 2015

O Jubileu da Misericórdia "está relacionado com o atual processo de desenvolvimento da sinodalidade na Igreja Católica, que é para Francisco algo semelhante ao que foi a convocação do Vaticano II para João XXIII", escreve Massimo Faggioli, professor de história do cristianismo da University of St. Thomas, em Minnesota, nos EUA, em artigo publicado por Global Pulse, 18-03-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Segundo ele, "o papa jesuíta está usando o jubileu de forma tanto estratégica quanto espiritual no trajeto que leva à reunião do Sínodo dos Bispos, de outubro deste ano; o jubileu é um jeito de contornar as elites eclesiais que resistem às mudanças sob o pretexto de defesa da tradição que, dizem eles, é imutável".

Eis o artigo.

O fascínio que os católicos e muitos não católicos sentem pelo Papa Francisco possui raízes em algo muito mais profundo do que o mero populismo.

A proximidade deste papa junto às pessoas – e o seu distanciamento das formalidades da Cúria Romana, que recentemente se chamava “a última corte remanescente na Europa” – é uma proximidade teológica. O seu pontificado está profundamente marcado pela “teologia do povo”, versão argentina da Teologia da Libertação que se desenvolveu após o Concílio Vaticano II (1962-1965). A sua teologia, como articulada pelos autores Lucio Gera e Rafael Tello, também é essencial para a compreensão da decisão de Francisco em convocar um extraordinário “Jubileu da Misericórdia”.

Jubileus são acessórios típicos na caixa de ferramentas católico-romana. A história deles, no entanto, não é desprovida de elementos embaraçosos tais como as práticas devocionais exigidas para se conseguir indulgências, linguagem legalista aplicada à vida espiritual e ao entrelaçamento do religioso e do profano nos assuntos comerciais, tudo fazendo parte do majestoso e barroco “teatro do sagrado” que é Roma.

Mas há algo de novo no jubileu que Francisco convocou.

Tal jubileu está relacionado com o atual processo de desenvolvimento da sinodalidade na Igreja Católica, que é para Francisco algo semelhante ao que foi a convocação do Vaticano II para João XXIII. O papa jesuíta está usando o jubileu de forma tanto estratégica quanto espiritual no trajeto que leva à reunião do Sínodo dos Bispos, de outubro deste ano; o jubileu é um jeito de contornar as elites eclesiais que resistem às mudanças sob o pretexto de defesa da tradição que, dizem eles, é imutável.

O que irá resultar do Sínodo ainda está aberto a especulação e debate. Já quanto à ideia de misericórdia, Francisco tem deixado claro que ela não está aberta [a especulação e debate]. Ele está enviando uma mensagem tanto para os neoconservadores quanto para os tradicionalistas (os dois grupos mais importantes que se opõem a ele) de que a Igreja não pode ficar presa aos teólogos burocratas e suas batalhas ideológicas.

Basicamente, ele está reescrevendo “quem é quem na Igreja Católica”. E aqui estão incluídas as instituições do governo central da Igreja (a Cúria Romana), especialmente a Congregação para a Doutrina da Fé.

O papel do ex-Santo Ofício de modelar a mensagem doutrinal deste pontificado diminuiu grandemente de tamanho (para dizer o mínimo), o que provavelmente marca a mudança mais radical dos últimos 35 anos sob os papados de João Paulo II e Bento XVI. É difícil calcular o quanto de dano foi feito à imagem da Igreja por causa do poder concedido à congregação doutrinal durante os anos-chave do período pós-Vaticano II. Muitos, na Europa e na América do Norte, podem ter esquecido a repressão aos teólogos da libertação iniciada na década de 1980, mas não os católicos da América Latina.

Nesse sentido, o pontificado de Francisco começou a reparar o dano feito no período pós-Vaticano II, incluindo o dano à própria memória do Concílio. Isto está claramente acontecendo, sendo ou não a intenção explícita do papa. Sua decisão de iniciar o Jubileu da Misericórdia no dia 8 de dezembro – o 50º aniversário do término do Concílio Vaticano II – visa continuar o trabalho começado com o Vaticano II.

Ele está convidando toda a Igreja a celebrar o evento eclesial mais importante nos últimos quatro séculos, corrigindo a falha da Igreja institucional de 2012, que realizou celebrações significativas para marcar o 50º da abertura do Concílio. A onda de declarações críticas ou céticas sobre o Vaticano II, que inúmeros cardeais e bispos pertos do fim dos 27 anos de João Paulo II como papa e durante todo o pontificado de Bento XVI, agora parece uma memória distante. Sob Francisco, o Concílio está de volta – e não apenas uma intepretação particular dele.

A teologia do Vaticano II é chave para compreender este papa. Há um fio condutor que liga a “medicina da misericórdia”, que João XXIII invocou quando abriu o Concílio, e o “Evangelho da misericórdia”, sobre o qual Francisco continuamente se baseia.

A significação teológica de todas as suas ações é uma reorientação radical da Igreja para a misericórdia divina. Ele iniciou o seu pontificado sob o signo da misericórdia e, agora, permanecendo fiel a esta instituição ao fazer desta misericórdia o tema do jubileu, o faz dando um novo significado a esta tradição bastante romana no catolicismo.

João Paulo II deu ao “Grande Jubileu de 2000” um caráter ecumênico ao incluir líderes de igrejas não católicas em muitas de suas cerimônias. O Jubileu da Misericórdia que está por vir, convocado por Francisco, será ecumênico, em primeiro lugar, para com todos os católicos, especialmente os que foram excluídos ou que se excluíram da Igreja.

Tanto no pontificado quanto no jubileu, o papel do povo é central. Não apenas Francisco disse, repetidas vezes, que a fé das pessoas nunca está errada (o que os teólogos chamam de sensus fidelium) mas também ele compreende que as instituições da Igreja e do clero precisam, particularmente, ouvir o povo.

Como disse o historiador da Igreja nos EUA Leslie Tentler [1] num recente congresso sobre o Vaticano, ocorrido na University of St. Thomas, em St. Paul, Minnesota, houve uma época em que o clero católico aprendia bastante sobre a vida real de seu povo enquanto ouvia as confissões. Esta prática sacramental, atualmente abandonada pela grande maioria dos católicos, era uma das duas instâncias de comunicação bilateral na Igreja.

O próximo Ano Santo e o impulso penitencial que o Papa Francisco traz à Igreja reconhecem – pelo menos implicitamente – que não só a Igreja precisa voltar à confissão e penitência no intuito de sentir a misericórdia de Deus, mas também que a Igreja institucional precisa ouvir mais o seu povo. O jubileu que está por vir será uma ocasião para que as pessoas vivenciem a misericórdia de Deus na Igreja. No entanto, espera-se que a Igreja como instituição também seja capaz vivenciar a misericórdia das pessoas.

Nota do autor

1.- O livro de Leslie Tentler, “Catholics and Contraception: An American History” [sem tradução para o português], deveria ser de leitura obrigatória para todos os bispos, padres e seminaristas.

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