A Igreja contextualizada e liberacionista do Papa Francisco. Artigo de Massimo Faggioli

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05 Fevereiro 2015

O Papa Francisco reabriu a conversa sobre matrimônio e família em uma visão contextual do ensinamento da Igreja na sociedade moderna e na cultura moderna. A Igreja desafia os ataques desumanizantes provenientes da cultura moderna, mas não está disposta a desumanizar os católicos no seu desafio à cultura moderna.

O comentário é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor de história do cristianismo da University of St. Thomas, em Minnesota, nos EUA. O artigo foi publicado no sítio Global Pulse, 03-02-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Desde que o Papa Paulo VI fez a primeira peregrinação apostólica da idade moderna ao ir para a Terra Santa em 1964, as viagens ao exterior tornaram-se parte do papado pós-Vaticano II. Mas a função das viagens papais variou em cada pontificado sucessivo.

Com o Papa João Paulo II, essa forma particular de magistério papal atingiu um novo nível por causa do grande número de suas viagens, o que levou o bispo de Roma a um número sem precedentes de países. O Papa Francisco provavelmente não vai acumular o mesmo número de milhas como João Paulo II, mas essa é a diferença menos importante que distingue as suas viagens das do falecido papa polonês.

Um dos novos elementos é a coletiva de imprensa em roda livre que Francisco realiza em cada voo de regresso a Roma. Ele pode não ser o Super-Homem (como alguns cartuns afetuosamente o retratam), mas a mensagem que ele deixa junto ao mundo público e eclesial durante esses intercâmbios no voo com os jornalistas é quase sempre um blockbuster.

Tudo começou com a sua famosa observação em julho de 2013, no voo de volta do Brasil – "Quem sou eu para julgar?". Mas a diferença na forma como Francisco foi criando notícias instantâneas a 10.000 metros de altura, em contraste com os dois pontificados anteriores típicos da cultura pós-moderna, é que o seu pontificado claramente tem ambos os pés no chão e é cauteloso com o excesso de simbolização.

Um artigo do teólogo católico austríaco Kurt Appel, na última edição da revista católica Il Regno, com sede em Bolonha, destaca o caráter virtual da Igreja sob João Paulo II. Ele diz que ela se tornou "um espaço virtual multimidiático universal, em vez de uma rede global de comunidades locais".

Um dos intérpretes mais perspicazes do nosso tempo, o sociólogo e filósofo francês Jean Baudrillard (1929-2007), falava sobre uma sociedade feita de "simulacros". Este é um sistema de signos que permitem que a sociedade funcione, mas que também pode se distanciar da realidade concreta. A velocidade é uma parte da "sociedade do simulacro", porque a capacidade de fazer muito mais coisas, graças à tecnologia, implica uma desresponsabilização.

Em linguagem teológica e para a vida da Igreja, esse tipo de cultura do simulacro carrega dentro de si o risco de uma radical "desencarnação", típica das relações que são mais virtuais do que reais (como é o caso nas redes sociais da internet).

O Papa Francisco entra no sistema de simulacros da nossa sociedade através da porta pós-moderna da mídia global, mas faz isso a fim de reencarnar o Evangelho em relações concretas. Essa é uma despedida de uma das características pós-modernas do pontificado de João Paulo II, em que o papado (e a Igreja) tornaram-se largamente identificadas com a imagem da própria pessoa do papa e, assim, aceleraram a virtualização do catolicismo. Essa virtualização é mais bem visível no novo papel desempenhado pela blogosfera católica. Mas isso tem também um lado teológico que é muito mais persistente e impactante do que a miríade de blogs católicos.

A virtualização do catolicismo no sentido teológico significa o enfraquecimento da voz das Igrejas locais e uma descontextualização da sua posição na Igreja universal. A impaciência do Vaticano com os teólogos da América Latina e da Ásia dos anos 1980 em diante não era só politicamente motivada ou canonicamente formulada. Era uma tentativa de remodelar o catolicismo de acordo com um modelo idealizado e descontextualizado, deixando enormes consequências para a teologia católica, especialmente a teologia moral.

O Papa Francisco está cautelosamente, mas claramente, repensando tudo isso. A sua exortação apostólica de 2013, Evangelii gaudium (o seu documento mais importante até hoje) exalta o papel das Igrejas locais e tem um foco muito claro nos contextos sociais concretos da vida moderna. A geografia e a cultura dos novos cardeais que ele irá criar no consistório da próxima semana representam uma recontextualização da Igreja Católica.

A sua decisão recentemente anunciada de descentralizar a cerimônia do pálio, movendo-a de volta para as arquidioceses locais, é eclesiologicamente muito clara (não obstante o papel do núncio papal, que diz muito sobre a falta de um nível eclesiológico intermediário entre Roma e as Igrejas locais – algo que o Vaticano II apenas tentou abordar).

Esse novo ponto de partida também ficou claramente evidenciado durante a mais recente coletiva de imprensa no voo papal. Falando aos repórteres quando regressava a Roma das Filipinas, o Papa Francisco abordou talvez o documento magisterial mais controverso da história da Igreja contemporânea – a encíclica de Paulo VI de 1968, Humanae vitae, sobre família, vida e contracepção.

Francisco se manteve distante das minúcias da legitimidade dos diversos métodos de contracepção (que ele sabe muito bem que são usados de maneira responsável por muitos casais católicos) e se focou, ao contrário, na relação entre a consciência dos pais e as influências externas. Ele ofereceu uma interpretação que não era moralista, mas antitecnocrática e liberacionista em relação ao ensinamento da Humanae vitae. Talvez esse seja mais um subproduto do fato de eleger um papa não europeu.

Os esforços de Francisco na recontextualização e na desvirtualização também ficaram evidentes nas suas palavras sobre paternidade e maternidade. Ele falou sobre paternidade responsável com uma nitidez e clareza que dizem muito sobre o seu próprio exercício da paternidade espiritual responsável.

Em algumas Igrejas Católicas que foram pegas pelas guerras culturais, muitos padres, bispos, professores e catequistas exortaram os jovens católicos a se casarem cedo e a terem um grande número de filhos o mais cedo possível. A lógica era de que tudo estaria bem, mesmo um casamento de alto risco, a fim de evitar o sexo pré-matrimonial.

Isso nada mais é do que usar o matrimônio como um cassetete, como uma declaração de guerra contra a sociedade moderna, em que o tempo de duração da educação, da formação profissional e do acesso ao emprego se estendeu ao menos por uma década no século passado. Enquanto isso, a idade da maturidade sexual permaneceu a mesma, ou seja, ao menos 10, às vezes 20 anos antes da possibilidade de começar uma família.

O Papa Francisco reabriu a conversa sobre matrimônio e família em uma visão contextual do ensinamento da Igreja na sociedade moderna e na cultura moderna. A Igreja desafia os ataques desumanizantes provenientes da cultura moderna, mas não está disposta a desumanizar os católicos no seu desafio à cultura moderna.

A cultura sexual do cristianismo nos primeiros séculos era ascética e antierótica, mas também liberacionista; ou seja, tentava libertar a pessoa, não apenas da escravidão do mercado de escravos do sexo, que estava prosperando no Império Romano, mas também da escravidão da biologia (para as mulheres, especialmente, valorizadas apenas se capazes de terem filhos).

O retorno do catolicismo à Idade Patrística dos primeiros séculos exige não apenas um novo procedimento para o pálio, ou uma nova geoeclesiologia para a escolha dos cardeais, ou um estilo de vida menos hedonista dos líderes da Igreja. Também pede uma recontextualização radical do ensino da Igreja sobre família, matrimônio e sexualidade.

Aqueles que querem que a Humanae vitae seja revogada não conseguem perceber que isso não só seria irrealista, mas também limitaria drasticamente a visão do Papa Francisco, que está tentando desvirtualizar e recontextualizar a Igreja no mundo moderno.

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