“Rompeu-se a ideia de progresso”

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Por: Jonas | 16 Março 2015

“Não existiria Podemos sem o acompanhamento e o estudo das experiências de mudança política na América Latina. Quando dizemos isso na Europa, respondem-nos: ‘isso significa que vocês querem copiar esses modelos’. Não, de maneira alguma. Não entendem nada. Não é preciso copiá-los porque muitas dessas transformações, que exigiram verdadeiros fatos de heroísmo coletivo, nós já conquistamos, como os sistemas de seguridade social e infraestrutura. A briga que estamos travando é para não ter que enfrentar um cenário como o que os governos populares latino-americanos precisaram lidar, após duas décadas de decomposição social e institucional”, afirmou Iñigo Errejón, secretário de Política do Podemos, o partido de esquerda que colocou em xeque o regime bipartidário que governa a Espanha, há mais de três décadas. Em visita a Buenos Aires, Errejón falou no Centro Cultural de Cooperação (CCC) sobre a crise que atravessa Europa, por conta do neoliberalismo, e sobre as possibilidades que se abrem para movimentos políticos alternativos.

A reportagem é de Fernando Krakwiak, publicada por Página/12, 13-03-2015. A tradução é do Cepat.

Podemos é um partido político espanhol, fundado em janeiro de 2014, que quatro meses após sua criação surpreendeu ao ficar em quarto lugar nas eleições para o Parlamento Europeu, com 8%. Desde então, não parou de crescer e nas últimas pesquisas figura como a primeira força em intenção de voto, na frente do Partido Popular e do PSOE. Este novo partido é liderado pelo professor universitário Pablo Iglesias e Errejón é seu virtual número dois. Podemos despertou tanta expectativa que este cientista político de apenas 31 anos, chefe de campanha nas eleições do ano passado, foi o encarregado de encerrar, ontem, no CCC, o painel ‘Diálogos e construções a partir do Sul’, junto com René Ramírez, secretário de Ciência e Tecnologia do Equador; Alfredo Serrano Mancilla, diretor do Centro Latino-Americano de Geopolítica, e Juan Carlos Junio, diretor do CCC. Além disso, no sábado participará do Foro Internacional pela Emancipação e a Igualdade, que acontece no Teatro Cervantes, onde fará parte de um painel ao lado do ministro de Economia, Axel Kicillof, e da dirigente chilena Camila Vallejos.

Errejón afirmou que as crescentes chances eleitorais do Podemos são consequência da fenomenal crise econômica e política que a Espanha atravessa. “Somente em momentos politicamente excepcionais é que pessoas como nós estão em condições de desafiar os poderosos”, afirmou. Em seguida, foi além na caracterização da conjuntura que enfrentam: “Estamos diante de uma crise orgânica do regime político nascido em 1978. Não diante de uma crise de Estado. Nunca veremos um presidente sair de La Moncloa em um helicóptero. Não aconteceu nem sequer na Grécia, onde os níveis de conflitos sociais e políticos foram os mais altos, desde os anos 1970. O que vivemos é o colapso das instituições em prover certezas e satisfazer uma boa parte das reivindicações. Na Espanha minha geração é a primeira que sabe positivamente que viverá pior do que viveram seus pais. Rompeu-se a ideia de progresso e desenvolvimento linear. Isso tem um efeito devastador sobre a adesão dos setores médios à ordem”, acrescentou.

Também se referiu às reações que o crescimento de seu partido gera no establishment. “O jornal El País, ao informar sobre a primeira pesquisa que colocava o Podemos como a principal força, intitulou ‘A ira cidadã coloca o Podemos na primeira posição’. É uma visão tipicamente liberal conservadora de que há um voto racional e outro voto infantil de pessoas que se cansaram e estão dispostas a votar inclusive em pessoas como nós. Há uma tentativa de cobrir os olhos e de pensar que o problema pode acabar. Ou seja, acreditam que se são capazes de aguentar este ano e conter, pode ser que haja certo efeito de recuperação econômica e que a resignação e o medo façam o resto”, sustentou.

Não obstante, reconheceu que a chegada do Syriza ao poder na Grécia aumenta as possibilidades do Podemos. “Bastou um governo com extremas dificuldades em um país extraordinariamente frágil da União Europeia, como é a Grécia, que tem 2% do produto dessa região e que muito facilmente pode ser chantageado, como foi antes, ir a Bruxelas para negociar e não para receber deveres, para vermos movimentos na Europa. Vimos Juncker se distanciar de Angela Merkel e dizer que uma parte da política de austeridade falhou, vimos Renzi e Hollande julgando um governo grego patriota e decente como político mau para fazer o papel de político bom e dizer ‘eu não sou tão radical como os gregos, mas algumas coisas não estão funcionando’. Isto significa que os equilíbrios que pareciam sólidos se moveram”, disse. Por sua vez, revelou que a maior resistência que o Syriza enfrenta não vem das potências europeias: “Os companheiros gregos nos dizem que os governos mais cruéis nas negociações no Eurogrupo são os da Espanha e de Portugal, convertidos em sipaios, que ao invés de pensar nos interesses de seus povos, pensam em seus interesses eleitorais. Acontece que se a Grécia demonstra que é possível fazer outra coisa, perdem o álibi. Esse é um exemplo que apavora os maus governantes que no sul da Europa usaram Bruxelas como uma desculpa para tudo, protagonizando o maior avanço da desigualdade e da concentração da renda”.

Errejón aproveitou também para responder aqueles que acusam o Podemos de atentar contra a integração regional que expressa a União Europeia. “Quando nós criticamos a política de austeridade e as chantagens impostas pela troika (N. d. R.: FMI, Banco Central Europeu e Comissão Europeia), autoridades que não foram eleitas por ninguém nos dizem que somos eurocéticos ou antieuropeus e dizemos para eles que somos profundamente europeus, mas que o projeto de integração europeia foi sequestrado pelas elites financeiras, acabando com aquilo a partir do qual os europeus podiam se sentir seguros, por ter construído o espaço, certamente repassando os custos para o sul do planeta, de maior garantia, proteção social e defesa dos direitos humanos, que existiu durante muito tempo. Esse pacto que caracterizou a Europa do pós-guerra foi quebrado e não foram as maiorias sociais europeias que o quebraram, mas, sim, o avanço do capital financeiro e dos setores oligárquicos”, concluiu.

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