Os ricos e a era dos combustíveis fósseis

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05 Março 2015

"Parto da suposição de que a humanidade vai aspirar à - e muitas vezes conseguir - prosperidade hoje vista como normal nos países ricos. Então, precisamos de uma revolução tecnológica acelerada", reflete Martin Wolf, editor e principal analista econômico do FT, em artigo publicado pelo jornal Valor, 04-03-2015.

Eis o artigo.

Nossos ancestrais viveram em eras que chamamos de Idade da Pedra, Idade do Bronze e Idade do Ferro. A nossa é a "idade dos combustíveis fósseis". A energia que extraímos das reservas de luz solar fossilizada na Terra disseminou abundância (compartilhada de forma desigual) pela humanidade. Será que isso vai continuar? Podemos administrar seu impacto em nosso ambiente? As respostas vão modelar o futuro de nossa complexa civilização mundial.

Como sempre, o "Panorama de Energia"[1] da BP vislumbra o possível futuro. Suas previsões podem estar erradas. Ainda assim, nos mostram o provável caminho dos mercados de energia globais até 2035. Apresenta cinco proposições importantes sobre o futuro plausível da energia.

Primeira, projeta-se aumento de 115% na produção econômica mundial até 2035. As economias asiáticas - principalmente China e Índia - deverão gerar mais de 60% dessa expansão.

Os governos deveriam investir pesadamente em novas tecnologias e ciências fundamentais. Por fim, os governos podem ajudar a disseminar as novas tecnologias no exterior e ajudar a financiar sua absorção em casa. Fazer apostas com o clima não é uma opção

O motor principal do aumento na produção mundial deverá ser a alta de 75% na produção real média per capita mundial, à medida que a prosperidade das economias emergentes se equipare à dos países de alta renda. O crescimento da população desempenha um papel nitidamente secundário. Não é o número de pessoas, mas sua prosperidade o que puxa a demanda pela energia usada comercialmente.

Segunda, como resultado do rápido aumento da eficiência energética, o consumo de energia deve crescer apenas 37%; aumento bem menor que o da produção de bens e serviços reais.

Terceira, as emissões de dióxido de carbono deverão aumentar 25%, crescimento em torno a 1% ao ano. Em termos de relação entre a produção e as emissões, trata-se de um feito gigantesco. É, no entanto, inteiramente inadequado, tendo em vista a necessidade de cortar completamente o crescimento das emissões para que tenhamos boas chances de limitar o aumento médio da temperatura mundial a menos de 2° C.

Portanto, em 2035, as emissões de gás carbônico deverão somar 18 bilhões de toneladas acima do patamar sugerido pelo "Cenário 450", da Agência Internacional de Energia (AIE)[2]. Nesse cenário, busca-se limitar a concentração atmosférica de gases causadores do efeito estufa ao equivalente a cerca de 450 partes por milhão de gás carbônico. Para que se alcancem essas metas, algo muito mais radical precisa acontecer.

Quarta, a melhora na eficiência energética é um fator muito mais importante no crescimento relativamente baixo das emissões do que as mudanças nos tipos de fontes de combustível. Isso vale mesmo com o aumento substancial das fontes renováveis. Entre 2013 e 2035, a produção de fontes renováveis de energia deverá aumentar 320%. Ainda assim, sua proporção em relação à produção de energia primária deverá crescer apenas de 2,6% para 6,7%. A porcentagem combinada das fontes renováveis, da energia hidrelétrica e da energia nuclear deverá passar de 9% para 19%. Esta, portanto, deverá continuar sendo a idade dos combustíveis fósseis.

Quinta, a revolução da produção de gás de xisto e do chamado petróleo "compacto" deverá continuar, com sua participação na produção de energia primária aumentando para cerca de 10%. Um resultado importante vai ser uma grande mudança no padrão do comércio exterior das fontes de energia. Prevê-se que os Estados Unidos vão passar de importador líquido de 12 milhões de barris de petróleo por dia em 2005 para exportador líquido até 2035. Enquanto isso, a China deverá passar a ser um importador líquido de mais de 13 milhões de barris diários (depois da autossuficiência gozada no início dos anos 2000); e a Índia, a ser um importador líquido de cerca de 7 milhões de barris diários. Essas mudanças têm implicações geopolíticas imensas.

Seria equivocado chamar essas previsões de uma continuidade "nos negócios como sempre". Elas, na verdade, implicam um ritmo de aumento na eficiência ainda maior que o verificado entre 2000 e 2013. Mas não são radicais. O mundo continuaria a depender pesadamente dos combustíveis fósseis e emitiria quantidades ainda maiores de gases causadores do efeito estufa. Podemos fazer algo melhor do que isso?

Parto da suposição de que a humanidade vai aspirar à - e muitas vezes conseguir - prosperidade hoje vista como normal nos países ricos. Então, precisamos de uma revolução tecnológica acelerada. No Fórum de Energia de Oslo, em fevereiro, ouvi Amory Lovins, do Rocky Mountain Institute [3] descrever uma revolução exatamente desse tipo. Argumentou, por exemplo, que o Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA em 2050 poderia ser 2,5 vezes maior do que é hoje, mesmo se o país parasse de usar completamente a energia nuclear, petrolífera e carbonífera e mesmo se reduzisse o uso de gás natural em mais de 30%. Isso significaria que as emissões de dióxido de carbono seriam apenas 20% do que são hoje.

Além disso, argumentou que a revolução poderia muito bem ser impulsionada apenas por forças do mercado, tendo em vista a superioridade econômica cada vez maior das novas tecnologias. Pode não ser necessário, sinaliza Lovins, tomar ações políticas diretas contra o aumento das emissões de gás carbônico.

A sensação ao ler-se o relatório da BP é de improbabilidade de uma revolução tão radical e rápida guiada pelo mercado (o que não é de surpreender, dado que a BP é uma produtora de combustíveis fósseis). Os obstáculos apresentados são muitos: custos, limites tecnológicos, baixo giro do estoque de capital, incapacidade de adotar políticas internacionalmente e a inércia natural. Em resumo, temo que a BP esteja certa quanto aos obstáculos. Lovins, contudo, pode estar certo quanto às oportunidades, embora apenas se as autoridades lhes derem um grande empurrão.

Se os governos pudessem concordar em adotar um imposto sobre as emissões de gás carbônico, dariam um grande impulso em direção a um futuro energético mais eficiente e menos poluente. Os governos deveriam investir pesadamente em novas tecnologias e ciências fundamentais. Por fim, os governos podem ajudar a disseminar as novas tecnologias no exterior e ajudar a financiar sua absorção em casa. Com esse empurrão, as forças normais do mercado deveriam levar o mundo em direção a um futuro mais sustentável.

A pobreza em massa não é uma opção. Mas fazer apostas cada vez maiores com o clima tampouco é. O rumo certo tem que estar no meio entre uma e outra. Para colocar-nos nesse rumo, precisamos nos livrar dos excessos da idade dos combustíveis fósseis. É um desafio intimidante. Mas que precisa ser superado, em nome de nossos filhos.

Notas

[1http://bit.ly/1a4VBEo

[2http://bit.ly/1pOOXVC

[3http://www.rmi.org/

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