Vida e obra da Irmã Dorothy Stang é celebrada na Califórnia

Revista ihu on-line

Juventudes. Protagonismos, transformações e futuro

Edição: 536

Leia mais

No Brasil das reformas, retrocessos no mundo do trabalho

Edição: 535

Leia mais

Etty Hillesum - A resistência alegre contra o mal

Edição: 534

Leia mais

Mais Lidos

  • A maior ameaça para a humanidade não é a mudança climática, mas a Inteligência Artificial, afirma o filósofo de Oxford apoiado por Bill Gates

    LER MAIS
  • 50 anos do assassinato de Padre Henrique serão lembrados na mesa-redonda “Missão, martírio e verdade”

    LER MAIS
  • Dormir na rua e pedalar 12 horas por dia: a rotina dos entregadores de aplicativos

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

12 Fevereiro 2015

Dez anos depois do assassinato da Irmã Dorothy Stang, da Congregação das Irmãs de Notre Dame, a sua alma mater [universidade em que estudou] está homenageando a “anjo da Amazônia” com uma semana de eventos especiais para marcar o seu legado de serviço no campo missionário.

A reportagem é de Sharon Abercrombie, publicada pela National Catholic Reporter, 10-02-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Irmã Dorothy, graduada em 1964 pela Universidade Notre Dame de Namur, em Belmont, Califórnia, passou quase 40 anos no Brasil trabalhando como defensora dos indígenas e da floresta tropical. Foi morta em 12 de fevereiro de 2005 por dois pistoleiros em uma estrada de terra em Anapu, no estado do Pará.

Enfurecidos pelo envolvimento da Irmã Dorothy em ajudar os pobres a ganharem acesso legal à terra, madeireiros e fazendeiros ricos brasileiros encomendaram o seu assassinato. Ao fim, cindo homens acabaram sendo relacionados com sua morte. Um coordenador da Comissão Pastoral da Terra, organização ligada à conferência dos bispos brasileira, disse recentemente ao sítio eletrônico Catholic News Service que apenas um destes continua preso, enquanto que outros três apenas precisam dormir na prisão e um quinto ainda está para cumprir a sua pena.

A celebração da vida e do trabalho da Irmã Dorothy acontece durante a Semana das Fundadoras das Irmãs de Notre Dame de Namur, que vai de 8 a 12 de fevereiro. Na terça-feira, alguns palestrantes – membros familiares, além de colegas de comunidade religiosa e apoiadores – irão partilhar as memórias que trazem da amada e estimada irmã e amiga. Outros eventos incluem a exibição, na quarta-feira, do documentário “Mataram Irmã Dorothy” [1]; na quinta-feira haverá uma visitação ao jardim do campus e uma vigília de oração à luz de velas à noite.

Os eventos de quinta-feira, marcando os 10 anos da morte da religiosa, irão terminar com um concerto, encerrando a semana comemorativa.

O concerto vai ser uma versão abreviada da opera de Evan MackAngel of the Amazon” [Anjo da Amazônia] [2]. Mack, professor de música na Skidmore College, em Saratoga Springs, Nova York, irá ser o maestro, e Caitlin Mathes representará o papel de Dorothy.

Em entrevista ao National Catholic Reporter na semana passada, Mack disse que a vida da Irmã Dorothyatingiu-me em cheio” quando, pela primeira vez, ouviu sobre ela durante um sábado de formação, no ano de 2005, na Paróquia St. Anthony, em Madisonville, Ohio. Na época, Mack trabalhava como diretor do coro paroquial nesta comunidade enquanto estudava música no Cincinnati Conservatory of Music.

A vida dela soou-me como uma ópera”, disse.

Um elemento que particularmente chamou a atenção de Mack foi a bravura da irmã diante da morte iminente. Segundo relatos, a irmã de 73 anos começou ler as Bem-Aventuranças da Bíblia que carregava consigo aos pistoleiros segundos antes de eles atirarem nela. Mack tomou este incidente como base para desenvolver o enredo da ópera, usando diferentes bem-aventuranças para abrir cada cena.

Pesquisas posteriores na Sede Provincial das Irmãs de Notre Dame em Cincinnati, onde Dorothy viveu durante um período de discernimento, revelaram a Mack que os brasileiros não estavam, inicialmente, impressionados quando, em 1966, ela chegou ao país. Para ser aceita, ela e outras irmãs tiveram de trocar o hábito por roupas comuns e “pôr a mão na massa”, disse ele.

A Irmã Marlene DeNardo pode testemunhar estas transformações. Ele fez parte da missão das irmãs de Notre Dame que foi ao Brasil em 1962.

A iniciativa destas irmãs provaram ser um processo de autoesvaziamento completo, disse Irmã Marlene, que trabalha atualmente como diretora espiritual da região de San Francisco e uma das painelistas a falar durante a Semana das Fundadoras.

Tivemos de aprender o idioma e a cultura. Tivemos de aprender a escutar as pessoas com o coração”, recorda a religiosa.

Por email, Irmã Marlene DeNardo contou ao National Catholic Reporter que as irmãs viviam junto aos pobres e testemunharam, por elas mesmas, como eles foram completamente marginalizados pela prática da ditadura militar instalada de apoiar a grilagem de terra, empresas e perpetrar “violência sistêmica, prisões, assassinatos, deslocamentos, perseguição de líderes camponeses e padres que eram torturados, presos e mortos”.

O legado da Irmã Dorothy Stang como serva dos pobres não se perdeu entre os alunos e corpo docente da Universidade Notre Dame de Namur, disse Jim McGarry, diretor do Centro Dorothy Stang para a Justiça Social e Engajamento Comunitário.

Fundado em 2007, este Centro serve como local para dar continuidade ao trabalho da religiosa. Os alunos voluntariam-se em várias áreas: sopão comunitário, escolas, clínicas médicas, casas do trabalhador, áreas de restauração ambiental e abrigos para sem tetos. Quanto ao corpo docente, ele vem incorporando os conceitos de engajamento comunitário e ativismo social em seus cursos.

Estamos tentando realizar um trabalho de solidariedade junto às pessoas mais pobres nas margens do Condado de San Mateo, onde as Irmãs de Notre Dame de Namur estão”, disse McGarry.

O Centro Dorothy Stang usa o exemplo da Irmã Dorothy Stang como uma forma de introduzir os alunos a uma multiplicidade de oportunidades de engajamento comunitário. Os alunos e alunas realizam trabalhos voluntários em programas junto aos jovens e trabalham em colaboração com a população imigrante da região, em busca de moradia segura, trabalho e cuidados médicos. O Centro também realiza uma atividade chamada “Call to Action Day”, um dia por ano em que se propõe realizar atividades sociais voluntariamente.

Quanto ao “anjo da Amazônia”, suas realizações foram muitas.

Segundo um resumo de sua obra organizado pela Trinity Washington University [3], na capital federal americana (outra universidade das Irmãs de Notre Dame), “Dorothy Stang educou mulheres na área da saúde e nutrição, ajudou-as a começar pequenos negócios para sustentar suas famílias e mostrou aos homens quais culturas agrícolas melhor se desenvolveriam na floresta em que viviam. A Irmã Dorothy e as pessoas locais fundaram escolhas de uma única sala de aula só no intuito de ensinar crianças e adultos a ler e escrever”.

Antes de sua morte, Dorothy era parceira no Projeto de Desenvolvimento Sustentável, programa do governo federal brasileiro que incentiva sistemas agrícolas sustentáveis entre as famílias de sem terra. As 35 comunidades de base que ajudou a criar para este propósito contam hoje com 85 ao total. Além disso, o número de 39 escolas nos morros e vilarejos que ela e outras pessoas fundaram cresceu para 115.

A Irmã Marlene DeNardo teve de deixar o Brasil para realizar um outro trabalho missionário, o que fez ela perdesse o contato com a Irmã Dorothy ao longo do tempo. Mas as duas retomaram a proximidade em 1992 quando esta última se inscreveu no Instituto Matthew Fox’s Creation Spirituality, da Universidade de Holy Names, em Oakland, Califórnia, para passar um período sabático de quatro meses.

Nós nos reunimos e nos religamos de uma maneira fantástica”, disse. “Eram inspiradoras as histórias da Irmã Dorothy e o programa em que ela participou, de espiritualidade e cosmologia da criação, deu-lhe a chance de se renovar, aprofundar e reintegrar o seu compromisso com o povo e o meio ambiente”.

Marilene DeNardo define a espiritualidade e a visão de mundo da sua colega de congregação como aquela que “via o mundo, todas as pessoas e a criação como sagrado e bom, cheio da presença numinosa do bom Deus. Assim, a destruição de uma destas coisas era, na verdade, de alguma forma uma profanação. Um sacrilégio.

Ela fez amizade e defendeu os [pequenos] agricultores, a floresta e todas as formas de vida selvagem porque, para ela, estas e toda a criação eram expressões e reflexos do Sagrado”, disse.

A obra de Dorothy Stang não teve muito a ver com salvar a alma dos pobres, disse Irmã Marilene. Em vez disso, “ela cuidou do bem-estar material deles para que pudessem viver e florescer, para que tivessem dignidade e uma vida. O bem-estar dessas pessoas importava para ela. Era uma questão espiritual”.

Notas:

[1] O filme pode ser encontrado no YouTube aqui.

[2] Ópera sobre a Irmã Dorothy Stang. Mais informações.

[3] Texto disponível em inglês aqui.

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Vida e obra da Irmã Dorothy Stang é celebrada na Califórnia - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV