“O problema na Europa é político e não financeiro”

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Por: Jonas | 10 Fevereiro 2015

A Grécia endureceu. Com uma crise econômica que se arrasta desde 2009, um desemprego geral que supera 27% e um desemprego juvenil superior a 40%, com cortes de salários e aumento de impostos, e uma dívida pública de 315 bilhões de euros, os gregos não cederão.

Esta é a mensagem que procura transmitir o novo chefe de governo, o expoente do partido de esquerda Syriza, Alexis Tsipras. Porém, as autoridades da União Europeia não parecem convencidas do fato de que se a Grécia cair, toda a Europa pode cair. Esta é a arma que tem em suas mãos o governo grego e que, talvez, pode dar algum resultado nos próximos dias, segundo a tese de Dimitri Deliolanes, doutor em Ciência Política e correspondente da Televisão Pública Grega na Itália. Deliolanes, que conhece profundamente a situação grega, tendo publicado dois livros sobre o assunto, acaba de publicar um terceiro, “La sfida di Atene” (O desafio de Atenas, Ed. Fandango), sobre a política antiausteridade de Tsipras.

 
Fonte: http://goo.gl/zIsuas  

A entrevista é de Elena Llorente, publicada por Página/12, 08-02-2015. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Após a primeira turnê europeia não muito exitosa do primeiro-ministro Tsipras e de seu ministro de Economia, Yanis Varoufakis, e da próxima reunião de ministros de Economia da União Europeia (11 de fevereiro) e de chefes de governo da Europa (12 de fevereiro), o que o povo grego espera do governo?

O povo grego, que sempre teve um grande sentimento de patriotismo – certamente vocês latino-americanos podem nos entender melhor – espera que seu governo diga de maneira categórica que o povo não quer mais nada com a austeridade. Dito isto, pode-se falar, em seguida, de como pagar a dívida e de todo o restante. Após cinco anos de sofrimentos, a austeridade não nos interessa. A batalha entre a política de Tsipras e a do governo alemão, que defende a austeridade, não é uma batalha de Tsipras, mas, sim, de todos os gregos contra essas decisões. Por isso, há dois dias as pessoas saíram para protestar nas ruas de Atenas, unidas, sem distinções políticas.

Alguns pensam na crise grega como se fosse a da Argentina de 2001, quando se declarou o default da dívida externa...

A Argentina é muito lembrada, nestes dias, na Grécia. Porém, diferente do que ocorreu na Argentina, as pessoas não vão desesperadas ao caixa eletrônico para retirar todo o dinheiro que possuem no banco...

Isto quer dizer que os gregos confiam que haverá uma solução?

Sim, as pessoas estão convencidas de que surgirá uma solução porque, caso contrário, será necessário sair da Zona do Euro. Inclusive, digo isto em meu livro. As pessoas estão convencidas de que se encontrará um compromisso mais ou menos honrável. Do contrário, será o fim da Zona do Euro. Alguns alemães pensam que a saída da Grécia da Zona do Euro poderia provocar danos contidos. Isso não é verdade.

Quer dizer que você descarta a possibilidade de que a Grécia tenha que sair da Zona do Euro?

Nenhum país pode sair da Zona do Euro porque a Zona do Euro se destruiria. Esta é a força da Grécia neste momento. O problema na Europa é político, não financeiro. Há um modelo imposto pelos países ricos e agora surgiu uma alternativa, Tsipras, outra política não liberal, mas, sim, expansiva. Na opinião pública europeia há muita raiva. Refiro-me ao Podemos na Espanha, ao próprio Beppe Grillo na Itália, à francesa Marine Le Pen que conseguiu bons resultados nas eleições europeias, sendo de direita. A raiva contra a austeridade fez que surgissem movimentos antieuropeus por todos os lados. E este é um risco para Europa.

O que acontecerá caso não se consiga um acordo nas reuniões de ministros de Economia e de chefes de governo, nos dias 11 e 12 de fevereiro? Parecem duas datas definidoras...

Essas datas não são definidoras porque há tempo até o vencimento de certos bônus importantes em junho. Varoufakis solicita tempo para poder elaborar com a União Europeia uma política de desenvolvimento, de crescimento. Porque a Grécia gostaria de pegar fundos europeus e destiná-los ao desenvolvimento para, assim, estimular o crescimento econômico. Não se deve esquecer que a dívida grega é agora equivalente a 175% do PIB (Produto Interno Bruto), ao passo que em 2010 era de 130% do PIB. Enquanto isso, a Grécia assumiu outras dívidas e o PIB baixou. A dívida cresceu de forma gigantesca graças à política de austeridade da chamada “troika” (Comissão Europeia, Banco Europeu e Fundo Monetário Internacional).

O encontro programado entre Tsipras e o presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, não poderia abrir uma porta de saída para Grécia?

Penso que, muito sabiamente, o governo grego está cultivando esta alternativa. Contudo, não acredito que seja uma alternativa real. Acredito, no entanto, que é muito sábio cultivá-la. Se os gregos, suponhamos, fossem livres para escolher com quem gostariam de estar militarmente aliados, com Estados Unidos ou com a Rússia, eu acredito que a maioria dos gregos escolheriam os russos. Com os russos temos algumas coisas em comum. Nós temos um inimigo que para eles é um vizinho incômodo, Turquia. A Turquia é uma ameaça, real, concreta e cotidiana para Grécia. Há contínuas violações do espaço aéreo e das águas territoriais gregas. Acredito que a opinião pública veria com bons olhos uma eventual aliança com os russos para garantir a integridade territorial da Grécia.

Após tê-lo entrevistado amplamente para o seu livro, que ideia possui de Tsipras?

Tsipras tem uma trajetória impressionante de realismo, de maturidade política, desde 2012, quando seu partido Syriza surgiu como o principal partido de oposição. No entanto, boa parte de seu partido ficou para trás. Ele não é um ideólogo, é um político hábil, disposto a fazer as justas manobras para conseguir seu objetivo. Entretanto, o problema é que não possui atrás dele um partido em condições de ajudá-lo.

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