Dia da Memória: ''Em Auschwitz, eles nos disseram: vocês vão durar três meses''

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26 Janeiro 2015

A voz fraca, o jeito afável das pessoas idosas, também nele a paixão pelo relato: enquanto fala Jozef Paczynski, às vezes nos esquecemos de que a sua história e a de um sobrevivente de Auschwitz. Polonês, ele partiu com o primeiro "carregamento" humano para o campo de concentração que se torna o símbolo absoluto do Holocausto: "Éramos 728, eu tinha 19 anos, fiquei lá de 1940 até o dia 19 de janeiro de 1945: saí com o último transporte, a marcha da morte que nos levou para Mauthaunsen (onde ele foi resgatado pelos norte-americanos). Eu fiquei lá por cinco anos e dois meses".

A reportagem é de Rosanna Pugliese Berlino, publicada pela agência Ansa, 20-01-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Em vista do próximo aniversário dos 70 anos da libertação, que serão festejados no dia 27 de janeiro, Paczynski fala na casa do encontro de Auschwitz, um refúgio nascido justamente para levar adiante a memória, a poucos passos do campo de concentração.

Em um pequeno encontro com a imprensa estrangeira alemã, do qual a Ansa participou, ele recorda os acontecimentos vividos quanto era muito jovem, depois de ser capturado pelos nazistas de Hitler. "Quando cheguei lá, não sabia o que era. O nome não nos dizia nada", afirma ele sobre Auschwitz

"Mas me lembro bem das palavras que o vice-comandante, Karl Fritzsch, no disse: 'Aqui vocês não estão em um sanatório. Vocês vão durar três meses. Se forem judeus, não mais do que seis semanas'', repete, citando literalmente a mensagem de "boas-vindas" no lugar em que seria exterminados ao menos 1,1 milhão de pessoas.

"Eu pensei: por que eu deveria morrer? Sou saudável, jovem, honesto, não fiz nada", foi a reação. E Paczynski, de fato, teve a sorte de sobreviver, talvez também graças ao trabalho: "Fui levado como assistente do barbeiro". "Um dia, chegou um suboficial que disse: 'O pequeno polonês deve vir'. Ele se referia a mim", conta.

Jozef tinha sido escolhido para cortar os cabelos do comandante do campo, o temidíssimo Rudolf Höss. "Quando eles me disseram isso, eu não acreditei. Depois, me perguntaram se eu estava com boa saúde e me levaram até ele." Ao desespero, somou-se a angústia: "Eu tinha muito medo, minhas mãos tremiam. Segui o suboficial. Na porta, a senhora Höss me abriu e me conduziu ao primeiro andar. Nunca tinha cortado os cabelos antes daquele dia, mas eu tinha visto fazerem isso muitas vezes, e então, mesmo assustado, comecei a fazer o meu trabalho. E o fiz bem. Mas ele não disse uma palavra, nem uma palavra".

Uma atitude que Höss – "pai de família exemplar, cinco filhos, não batia em nenhum deles, severo, dava indicações claras aos outros" – manteve também depois, todas as vezes que, regularmente, o jovem barbeiro era levado até ele, para lavar e cortar o cabelo. "Talvez ele me achasse nojento, dava-lhe repugnância."

Paczynski esteve entre aqueles que, justamente graças ao emprego assumido no campo de concentração, teve a oportunidade de sobreviver, mas, sobre a sua vida em Auschwitz, ele não fala como um "privilegiado": "Eu trabalhava honestamente, nunca tive uma vantagem". Só a sorte de sobreviver, apesar do tifo, da fome, da vida desumana do campo.

Na sua memória, está esculpido o dia da primeira experiência com o Zyklon B, no dia 3 de setembro de 1941: "Depois do apelo da noite, vi uma coluna de russos, soldados de uniforme: foram levados ao bloco 11". Foram exterminados 600 prisioneiros russos e 250 poloneses naquele dia. "Depois, as SS tiveram muito o que fazer, tiveram que eliminar nada menos do que 850 cadáveres no crematório."

Às imagens petrificantes, seguem-se momentos surreais do relato, com distinções até mesmo sobre os carrascos: "Nem todos eram maus". Paczynski voa de volta no tempo e evoca a véspera de Natal, a primeira do campo de concentração, quando os prisioneiros entoaram canções. O resultado desse concerto improvisado foi uma ordem surpreendente: "Quiseram que mandássemos cartas para casa para nos enviar os instrumentos".

E, assim, nasceu a Orquestra de Auschwitz – "uma orquestra maravilhosa, havia também profissionais de toda a Europa, prisioneiros" – que tocava todas as manhãs e todas as noites. "Especialmente marchas: elas nos acompanhavam ao trabalho e no retorno – conclui – quando muitos, porém, já estavam mortos".

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