Bombas nos campos de concentração: alvo fracassado

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23 Janeiro 2015

A questão da recusa dos governos aliados de bombardearem tanto as ferrovias que transportavam os prisioneiros para Auschwitz, quanto as instalações destinadas ao extermínio despertou no pós-guerra grandes polêmicas e debates duros. Ainda hoje, sobre o assunto, estão sendo publicados dois livros: Bombardare Auschwitz, de Umberto Gentiloni Silveri (Ed. Mondadori, 128 páginas), e Bombardate Auschwitz, de Arcangelo Ferri (Ed. Il Saggiatore, 184 páginas). Por que essas linhas de comunicação não foram postas entre os objetivos aliados? Por que os anglo-americanos não tentaram parar, assim, a máquina do extermínio?

A reportagem é de Anna Foa, publicada no jornal Avvenire, 20-01-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O pedido de bombardear as linhas que terminavam nos trilhos sem saída de Auschwitz-Birkenau foi dirigida aos aliados pelas instituições judaicas e pelo governo polonês no exílio, na primavera e no verão de 1944. Na época, Auschwitz funcionava em plena capacidade e tinha permanecido como o único em funcionamento dos cinco campos de extermínio iniciais: Belzec havia sido fechado em 1943, Majdanec estava prestes a ser desmantelado em previsão da chegada do Exército Vermelho, enquanto em Treblinka e Sobibor haviam sido suspensas as execuções em massa depois de duas tentativas de revolta.

Em Auschwitz, ao contrário, os trens selados continuavam parando, rejeitando sempre novas vítimas. Só em novembro é que a atividade do acampamento seria interrompida, depois do avanço do Exército Vermelho que, no dia 27 de janeiro, libertaria o campo.

Começavam, então, as marchas da morte para mover os prisioneiros para oeste, nos campos de concentração na Alemanha. Também começava a demolição das estruturas de Auschwitz, para tentar esconder o seu funcionamento aos vencedores.

Na primavera de 1944, estava prestes a começar a deportação dos judeus húngaros, que foi dirigida por Eichmann e ocorreu com grande velocidade, a ponto de levar ao extermínio de meio milhão de judeus húngaros em poucos meses. Os trens dos deportados viajavam em plena capacidade, para que o extermínio fosse completado antes que as tropas russas chegassem à Polônia. Para pará-lo, era essencial, portanto, impedir os transportes. Mas também era essencial avisar os judeus húngaros de que a deportação não era dirigida a um campo de trabalho, mas às câmaras de gás. Nenhuma dessas condições foi realizada.

Justamente com o objetivo de evitar a deportação dos judeus húngaros, a rede clandestina de resistência ajudou, em abril de 1944, na fuga de Auschwitz de dois jovens prisioneiros judeus, Rudolf Vrba (o verdadeiro nome era Walter Rosenberg) e Alfréd Wetzler. Eles conseguiram chegar à Eslováquia, onde prestaram um testemunho muito preciso, ratificado e assinado, daquilo que tinham visto no campo. São os chamados "protocolos de Auschwitz", que a organização clandestina judaica imediatamente pôs em circulação, junto com a recomendação para os Estados Maiores dos Exército aliado de bombardear as linhas ferroviárias para Auschwitz.

Os protocolos alcançaram as chancelarias europeias, a imprensa, os países neutros, a Cruz Vermelha, o Congresso Mundial Judaico. Obteve-se uma primeira suspensão das deportações da Hungria, seguido, no entanto, no outono, depois da tomada do poder dirigido por parte dos nazistas, da deportação em marcha forçada de quase todos os judeus húngaros.

Enquanto isso, no verão de 1944, a aviação inglesa tinha fotografado o campo de Auschwitz de cima. A obra tinha sido possível graças à instalação de bases aéreas na Itália meridional liberada. As fotos, porém, não visavam à identificar os alvos de Auschwitz a serem atingidos, mas a preparar o terreno para o bombardeio dos estabelecimentos da Farben, a indústria química importantíssima para o destino da guerra, que tinha estabelecido as suas moderníssimas instalações perto de Auschwitz, em Buna, utilizando como mão de obra os prisioneiros do campo de concentração (entre eles, Primo Levi e Elie Wiesel). As bombas atingiram nada menos do que cinco vezes a fábrica, e, em um caso, atingiram Auschwitz também por erro, sem prejudicar, porém, a linha ferroviária.

Mas por que essa decisão dos comandos aliados? De um lado, havia a vontade de evitar que o conflito se transformasse em uma guerra em defesa dos judeus. Dado o antissemitismo presente mesmo nos países em luta contra Hitler, combater "pelos judeus" poderia se tornar uma arma de propaganda nas mãos dos nazistas.

Além disso, o essencial era vencer a guerra: não havia objetivos intermediários. Isso já havia sido dito pelo vice-primeiro-ministro inglês, Clement Attlee, em janeiro de 1943: "O único remédio real para a pesada política nazista de perseguição racial e religiosa é a vitória dos Aliados. Todo recurso deve ser empregado tendo em vista esse objetivo supremo".

Sob essa ótica, todas as tentativas de resgate organizados pela Agência Judaica fracassaram, incluindo a de libertar um milhão de judeus em troca de 10 mil caminhões, bloqueado pelos ingleses com a prisão em Istambul do negociador que tratava com Eichmann, Joel Brand: uma iniciativa que salvaria todos os judeus húngaros.

Os Aliados, portanto, não puseram a salvação dos judeus entre os objetivos prioritários. O olhar já estava voltado para o pós-guerra, para o julgamento de Nuremberg, para as relações entre as potências vencedoras. As fotos de Auschwitz, com a fumaça dos crematórios, permaneceram 60 anos enterradas nos arquivos, sem sequer serem analisadas. Enquanto isso, cumpria-se o extermínio.

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