Irmãs americanas merecem um pedido de desculpas pela Visitação Apostólica

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16 Janeiro 2015

Para o jornal católico dos EUA, National Catholic Reporter, a investigação a que foram submetidas as religiosas americanas foi uma farsa, "e nós como Igreja deveríamos nos envergonhar do abuso que estas mulheres fiéis sofreram por causa dela. Elas merecem um pedido de desculpas", defende a publicação em editorial publicado no dia 13-01-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o editorial.

Agora que a curiosamente chamada “Visitação Apostólica” às religiosas dos EUA acabou e que as atuais autoridades do departamento vaticano que supervisiona as ordens religiosas decidiu que estas mulheres merecem elogio, admiração e gratidão, torna-se bastante apropriado se perguntar: “Do que se tratou toda esta investigação?”

Tal investigação pode ser agora vista pela farsa que foi, e nós como Igreja deveríamos nos envergonhar do abuso que estas mulheres fiéis sofreram por causa dela. Elas merecem um pedido de desculpas.

Hoje, parece que a investigação sobre as religiosas americanas encabeçada pela Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica mostrou mais a respeito do que há de errado na cultura clerical masculina do que algo de preocupante com as irmãs.

A gênese desta investigação pode ser atribuída a um grupo relativamente minúsculo da Igreja, onde os ultraconservadores estão convencidos de que o declínio no número de irmãs e sacerdotes é, primeiro, desastroso para a vida religiosa em geral e, segundo, que é causado pelo fato de as ordens abandonarem os velhos modos de se vestir e praticar, e que se estas práticas e trajes fossem restaurados, os números voltariam a crescer.

A primeira suposição baseia-se na falsa noção de que uma estrutura paroquial exigindo grandes setores com salas repletas de sacerdotes e conventos cheios de irmãs é o padrão assim como o essencial para manter a difundir o catolicismo. Existem provas suficientes para desfazer a primeira noção. Departamentos cheios de padres que se acreditam tão significativamente diferentes do resto da humanidade a ponto de poderem ser responsabilizados somente por outros homens semelhantemente afastados podem, sabemos disso, reproduzir o pior escândalo da Igreja em centenas de anos.

Os demógrafos já mostraram que o “modelo” icônico católico das últimas décadas é um modelo insustentável e que os números de sacerdotes e religiosas que tornaram possível um tal projeto durante um breve período constituíram uma exceção. Estes números foram uma anomalia. Eles não existiram antes e provavelmente não existirão mais. O crescimento muitas vezes alardeado das ordens “tradicionais” deve ser visto com precaução. A maioria são pequenos grupos e irão, é provável, permanecerão uma pequena porção da população das religiosas.

A exigência, então, não é desejar uma volta a alguma versão romantizada do catolicismo de 1940 ou 1950, mas sim imaginar e compreender qual configuração a estrutura paroquial deve assumir no futuro e como ela será organizada e conduzida. Os leigos terão de assumir uma maior responsabilidade individual e corporativa para aquilo que significa ser católico e para passar adiante a fé. Terão de se confiar neles num grau muito maior do que temos hoje – e dar-lhes postos de responsabilidade.

Os velhos e cansados da Igreja agiram assim porque os homens, na própria Igreja, se sentiram confortáveis em determinar que as mulheres tinham um problema, que eles (os homens) compreendiam qual era o problema e que sabiam o que fazer com ele sem jamais consultar as ordens religiosas femininas.

O Cardeal Franc Rodé, chefe da congregação vaticana que iniciou a investigação em 2008, publicamente fez o julgamento em 2010, muito antes que o processo estive concluído, de que “a cultura secularizada penetrou nas mentes e corações de algumas pessoas consagradas e de algumas comunidades, onde isto é visto como uma abertura à modernidade e uma forma de abordar o mundo contemporâneo”.

Estas autoridades vaticanas ficaram bastante surpresas pelo grande apoio de base que as irmãs receberam, e devem ter ficado assustadas com a resistência que as ordens femininas mostraram ao processo. O Vaticano logo percebeu que tinha travado a briga errada, com o grupo errado e na hora errada.

As várias trocas na congregação que conduziu a investigação deixaram claro que se estava mais interessado na cooperação e reconstrução da confiança com as irmãs do que na busca de “pecadilhos” que pudessem ser usados para provar as suposições anteriores.

Rodé foi substituído em 2011 pelo arcebispo brasileiro João Bráz de Aviz, quem chegou dizendo que a congregação “tinha começado a escutar de novo” e que eventuais problemas poderiam ser tratados “sem juízos prévios, escutando-se os motivos”.

Dois anos depois, o Papa Francisco entrou em cena, e o tom mudou ainda mais no sentido da misericórdia, escuta e diálogo. Poucos meses antes, um dos cardeais mais próximos a Francisco, Sean O’Malley, da Arquidiocese de Boston, disse num programa nacional de notícias que a investigação sobre as religiosas era um “desastre”.

De fato, foi um desastre, e o fato de que O’Malley se sentiu livre para falar assim é, claramente, um indicativo do grau de mudança que ocorreu. Francisco tem dado um testemunho pessoal poderoso desta mudança, ao levar a nós todos, inclusive os ordenados ao sacerdócio, às margens/periferias. E aqui, como se sabe, é mais provável que ele encontre as irmãs já a trabalho.

Hoje, vamos às regiões mais empobrecidas de qualquer grande cidade do país, lugares onde existem apenas igrejas católicas abandonadas, e aí, em meio à decadência, pobreza, vidas despedaçadas, imigrantes, os sem documentos, estão as religiosas – e cada vez mais as companheiras e associadas que estas mulheres inspiraram. Elas estavam muito à frente do efeito Francisco em saber o quão a Igreja tinha que mudar e para onde ela deveria ir. Elas não fizeram isso de maneira perfeita, e algumas de suas investigações teológicas podem ter causado ataques do coração em suas contrapartes masculinas de vez em quando. Mas suas vidas e orações são exemplos válidos para a Igreja hoje.

Ficamos felizes que o Vaticano tenha concluído esta injustificada, ridiculosamente cara e desnecessária “visitação”. Esperamos que os líderes eclesiásticos façam o mesmo, e rápido, com a investigação em curso da Conferência de Liderança das Religiosas (Leadership Conference of Women Religious), grupo que representa a maior parte das irmãs americanas que as autoridades vaticanas, hoje, veem com “gratidão” e com as quais buscam uma “confiança colaborativa”.

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