Religiosas dos EUA reagem ao relatório da visitação apostólica

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18 Dezembro 2014

Religiosas e observadores interessados responderam com gratidão – e um pouco de cautela – à resposta do Vaticano para a visitação apostólica da terça-feira, dizendo que ela representa ao mesmo tempo uma grande mudança de tom em relação ao trabalho das irmãs nos Estados Unidos e um caminho para o diálogo futuro.

A reportagem é de Dan Stockman e Dawn Cherie Araujo, publicada no sítio National Catholic Reporter, 16-12-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A Congregação para a Vida Religiosa do Vaticano realizou uma coletiva de imprensa em Roma na terça-feira para dar a sua resposta à polêmica visitação vaticana de seis anos, sem precedentes, de dezenas de milhares de irmãs católicas dos EUA, em grande parte, elogiando o seu trabalho pela Igreja.

A investigação vaticana, conhecido formalmente como visitação apostólica, foi lançado pela Congregação para a Vida Religiosa em 2008, com a aprovação do Papa Bento XVI. Provavelmente sendo a maior dessas investigações na história da Igreja, ela envolveu o inquérito de cerca de 341 institutos religiosos femininos nos EUA, que incluem cerca de 50 mil mulheres.

"A maneira colaborativa da apresentação me fez realmente querer me envolver com o relatório com energia e abertura", disse Mary Ann Zollmann, das Irmãs da Caridade da Bem-Aventurada Virgem Maria e editora e uma das autoras de Power of Sisterhood: Women Religious Tell the Story of the Apostolic Visitation.

"Foi um grande contraste com a forma que a visitação foi anunciada em 2008 e 2009."

Zollmann disse que ficou especialmente impressionada com a forma como as autoridades vaticanas disseram que queriam trabalhar com as religiosas.

"Houve uma ênfase várias vezes na necessidade do diálogo, da compreensão e da comunhão, e estou ansiosa para ver como isso vai se desdobrar", disse ela. "Eu também fiquei muito contente com a menção, não apenas uma vez, mas várias vezes, da questão do papel das mulheres nos processos de tomada de decisão na nossa Igreja. Eu espero que isso possa fazer parte significativa do diálogo à medida que avançamos."

A Ir. Marcia Allen, das Irmãs de São José, disse que é importante se concentrar no que o relatório diz, não naquilo que muitos temiam que ele seria ou nas alegações de que ele originalmente foi concebido para punir. Allen é presidente das Irmãs de São José de Concordia e presidente eleita da Leadership Conference of Women Religious (LCWR).

"Eu jamais pediria um pedido de desculpas. Eu acho que os responsáveis que começaram isso estavam agindo de acordo com a sua luz. Os responsáveis que estão trazendo isso a um fim estão agindo de acordo com a sua luz", disse Allen. "A Igreja está sempre evoluindo. Como tudo o mais, ela sempre está em um estado de evolução, e, por isso, eu acho que isso indica uma postura convidativa, por assim dizer. E certamente quero aproveitar isso, em vez de pedir um pedido de desculpas."

Francis X. Clooney, padre jesuíta e professor de teologia comparada na Harvard Divinity School, onde também é diretor do Centro para o Estudo das Religiões do Mundo, disse que o relatório mostra uma grande mudança na atitude da Igreja.

"Mesmo que alguém tenha começado a investigação à procura de problemas, apenas a quantidade de bem que as irmãs estão fazendo é impressionante", disse Clooney. "O contexto mudou. Com o Papa Francisco, há um escopo diferente – há a preocupação com os pobres, com a justiça social."

Clooney disse que um mandato separado e independente da Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano sobre a LCWR, chamado de avaliação doutrinal, está agora em um ambiente diferente. A LCWR é composta pela liderança da maioria das congregações de religiosas dos Estados Unidos e foi criticada pelas autoridades da Igreja pelo seu processo de tomada de decisão colaborativo e por se concentrar em questões feministas.

"Há uma realidade objetiva de que a maior parte daquilo que as irmãs estão fazendo, elas o estão fazendo certo, e a Igreja deve imensamente às irmãs", disse Clooney.

As autoridades da LCWR observaram como as religiosas tornaram o processo positivo para si próprias.

"Embora a decisão do Vaticano de conduzir uma visitação apostólica tenha causado grande dor e ansiedade para muitas irmãs católicas, os nossos membros frequentemente falam de como a nossa experiência do estudo tornou-se fonte de uma profunda transformação para os nossos institutos", disse o comunicado.

"O processo nos levou a estudar o coração da nossa vocação, enquanto nos engajávamos em conversas significativas que exploravam a nossa espiritualidade, a nossa missão, a nossa vida comum e as nossas esperanças para o futuro. Ao fazermos isso, os nossos laços umas com as outras cresciam ainda mais profundamente, e a nossa compreensão do potencial dessa vida para servir as necessidades do mundo tornava-se ainda mais aguçada."

Marian Ronan, professora de Estudos Católicos no Seminário Teológico de Nova York e autora de Sister Trouble: The Vatican, the Bishops, and the Nuns, disse que as ações da Igreja vão falar mais alto do que as palavras do relatório.

"Eu acho que é simplesmente um relatório muito gentil, mas ele não precisava existir. A Igreja Católica é uma monarquia absoluta. E os homens tomam todas as decisões", disse Ronan. "Então, se o Papa Francisco morrer, não temos nenhuma ideia do que a próxima pessoa vai fazer. Eu disse há não muito tempo que estamos em uma posição difícil, ao sermos capazes de não fazer nada mais do que rezar para que ele viva por um longo tempo. Porque, se ele morrer, não sabemos quem será o próximo."

Brad Hinze, professor de teologia da Fordham University, disse que o documento da visitação apostólica "pode chegar a apaziguar a ferida e a ofensa sentida por muitas religiosas e pelos seus apoiadores em resposta à investigação inicial. No entanto, ele realmente não aborda as questões concernentes à falta de colaboração genuína dos bispos e padres com as religiosas em áreas de governo da Igreja, um problema que o documento reconhece."

Ele disse que ele "celebra com justiça os carismas de cada comunidade", mas disse que "não está equilibrado com um reconhecimento do desenvolvimento doutrinal em curso em várias áreas da teologia e da prática pastoral que estão sendo exploradas pelas religiosas".

Deborah Rose-Milavec, diretora-executiva da FutureChurch e porta-voz do Nun Justice Project, uma coalizão de 15 organizações católicas progressistas dos Estados Unidos, disse que o relatório é "um bom primeiro passo", especialmente pelo seu tom em relação ao papel das mulheres na Igreja.

"Estamos contentes que o Vaticano tenha aprendido aquilo que já sabíamos, que as freiras católicas dos EUA são estelares", disse Rose-Milavec. "As mulheres têm dito essas coisas por um longo tempo e foram recebidas com muita resistência."

Até mesmo Ann Carey, jornalista católica e autora do livro de 1997 intitulado Sisters in Crisis: The Tragic Unraveling of Women's Religious Communities e da sua atualização de 2013 intitulado Sisters in Crisis, Revisited: From Unraveling to Reform and Renewal, disse que o relatório elogiou legitimamente as boas obras das religiosas.

"No entanto, ele também foi uma demonstração da decisão do Vaticano de realizar a visitação apostólica, pois o relatório admitiu que 'áreas de preocupação', de fato, foram encontradas em alguns institutos religiosos", disse Carey. "O relatório também demonstrou que os temores iniciais que algumas irmãs tinham sobre a visitação eram infundados."

As autoridades do grupo de reforma da Igreja Call to Action disseram em um comunicado que estão "contentes de ver essa bela diversidade de ministérios reconhecido no relatório", mas chamaram as investigações de "perturbadoras".

"Essas injustiças e a má utilização de recursos, tempo e energia institucionais continuam sendo um capítulo decepcionante na história da nossa Igreja", disse o comunicado. "Como as irmãs exortaram na coletiva de imprensa do Vaticano, olhamos para o tempo de cura e reconciliação, confiança mútua e afirmação que deve se enraizar entre o Vaticano e as religiosas dos Estados Unidos. Viver o Evangelho requer a diversidade e o concerto de todos os dons, talentos e carismas."

A Ir. Donna Day, das Irmãs de Loreto, que também foi uma das coautoras de Power of Sisterhood, disse que o relatório mostrou que o Vaticano está começando a reconhecer as religiosas por aquilo que elas são.

"As religiosas realmente se moveram da escuridão para a luz enquanto experimentávamos a visitação apostólica. Mas sempre tivemos esperança, esperança de que nos uniríamos como congregações, esperança de que nos uniríamos como comunidades, enquanto continuássemos o nosso trabalho em missão", disse Day. "A comunidade é para a missão. Esse é o cerne de quem somos, e eu acho que o relatório da visitação apostólica reconhece isso."

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