O relatório da Visitação Apostólica traz desafios e esperanças a irmãs americanas

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17 Dezembro 2014

Nunca se fez tanto por tão pouco.

Esta paráfrase da declaração de Churchill sobre o ministério da defesa britânico na Segunda Guerra Mundial pode ser dita em relação aos esforços das ordens religiosas em atrair novos membros nestes últimos 50 anos. Tal preocupação atravessa o tão esperado relatório final da Visitação Apostólica, datado em 8 de setembro de 2014 e divulgado em Roma nesta terça-feira, 16 de dezembro.

O comentário é de Mary Ann Walsh, membro da Northeast Community das Irmãs da Misericórdia das Américas, publicada pela revista America, 16-12-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Assinado pelo cardeal João Braz de Aviz, prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada, e Dom José Rodríguez Carballo, secretário da mesma congregação, o documento abordou a incapacidade das ordens religiosas de atrair novos membros, no caso, novas religiosas. Ele afirma que, a despeito das diferenças entre as ordens, as “tendências gerais entre a grande maioria dos institutos religiosos, especialmente as que se relacionam o envelhecimento e diminuição do número de membros, estão claras”.

“Atualmente, um número significativo de institutos religiosos femininos está investindo uma quantidade considerável de energia – espiritual e material – no sentido de promover vocações.

Anda que para muitos institutos estes esforços resultaram num aumento do número de candidatas que entram e permanecem, para muitos outros os resultados não estão compatíveis com as expectativas e com o empenho demonstrado”, diz o relatório. “Alguns institutos relataram que suspenderam as iniciativas vocacionais por uma série de motivos, o mais comum sendo o declínio no número de membros e a diferença de idade, cada vez maior, entre os membros atuais e as candidatas potenciais.

Este declínio constitui uma preocupação central para as ordens religiosas. Os institutos têm enfrentado esta situação de cabeça erguida sem muito sucesso, segundo um relatório sobre as ordens religiosas femininas contemporâneas submetido pela Irmã Claire Millea, religiosa de Connecticut e Superiora Geral da Congregação das Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus. Irmã Millea foi incumbida pelo Vaticano do desafio, nada invejável, de avaliar a vida religiosa feminina nos EUA hoje.

Millea apresentou um relatório imparcial produzido a partir de reuniões realizadas junto a várias ordens religiosas. Este seu relatório, baseado num diálogo “de irmã para irmã”, envolveu uma ampla consulta bem como visitas a ordens específicas. Nos casos em que foram convenientes relatórios negativos, eles acabaram sendo enviados diretamente às ordens e não foram incluídos no relatório público.

Uma recepção cautelosa

Apesar dos esforços em ser justo, o relatório foi recebido com um sentimento de injustiça, pois muitas irmãs americanas, mesmo alguns bispos, e outros católicos se surpreenderam quando a visitação foi anunciada. A maioria dos leigos ficaram do lado das irmãs (e não do lado do Vaticano).

Estes disseram que as religiosas poderiam errar um pouco, pois elas lhes educaram e educaram os seus filhos, além de tê-los atendidos nos hospitais que construíram e administram.

Acrescentando-se a esta confusão estava a investigação (subsequente e ainda em curso) sobre a Conferência de Liderança das Religiosas (ou Leadership Conference of Women Religious – LCWR) conduzida pela Congregação para a Doutrina da Fé – CDF. As duas investigações pareceram ter relação entre si (aquela feita sobre as ordens religiosas femininas em geral e esta referente ao LCWR), embora o Vaticano sustente que elas são consultas separadas e não estão relacionadas.

A Congregação para os Institutos de Vida Consagrada, que supervisiona as ordens religiosas, “está bem ciente de que a Visitação Apostólica foi recebida com apreensão e suspeita por algumas religiosas”, afirma o texto do relatório. “Este sentimento resultou numa recusa, por parte de alguns institutos, em colaborar plenamente no processo. Embora a falta de uma cooperação plena tenha sido uma decepção dolorosa para nós, fazemos uso da presente oportunidade para convidar todos os institutos religiosos a aceitarem o nosso desejo de nos envolvermos num diálogo respeitoso e frutífero com eles [os institutos]”.

Este relatório forneceu números preocupantes.

“Hoje, a idade média das religiosas apostólicas nos Estados Unidos é de 70 anos. O atual número de aproximadamente 50 mil religiosas constitui um declínio dos cerca de 125 mil que havia em meados da década de 1960, quando o número de religiosos no país alcançou o seu pico”, lê-se no texto divulgado. “É importante notar, no entanto, que este grande número de religiosos na década de 1960 foi um fenômeno relativamente curto, incomum na experiência da vida religiosa na história dos EUA. O crescimento constante do número de religiosas chegou ao seu pico entre os anos de 1940 e 1960, após o que começou a cair, já que muitas das irmãs que haviam entrado durante estes anos de pico abandonaram a vida religiosa, as irmãs remanescentes envelheceram e consideravelmente menos mulheres se juntaram aos institutos”.

O relatório considerou outros setores da vida religiosa além das vocações: o carisma, as finanças, a oração comunitária, comunhão eclesial e outros temas, incluindo as mulheres na Igreja.

“A maioria dos institutos religiosos estão intensificando os seus esforços para partilhar o carisma que tem com colaboradores leigos e aqueles a quem servem de forma que o carisma possa continuar a enriquecer a vida da Igreja. Programas eficazes de formação na missão preparam os leigos a levarem adiante os ministérios das próprias congregações ou promovidos por elas segundo o carisma original”, continua o texto. “Programas associados ou semelhantes capacitam os leigos a partilharem, em diferentes graus, a vida e o carisma do instituto”.

“Esta Congregação para os Institutos de Vida Consagrada elogia estas formas criativas de partilhar os dons missionários dados pelo Espírito Santo à Igreja e pede que a diferença essencial entre os religiosos e os leigos dedicados que mantêm uma relação especial com o instituto seja respeitada e celebrada”, lê-se no relatório.

Algumas contradições

O relatório desta Visitação Apostólica observou algumas contradições. O que está escrito nos livros dos institutos religiosos acerca da oração e das Escrituras nem sempre é vivido.

“Uma revisão das constituições e de outras diretrizes dos institutos religiosos apostólicos revelou que, em geral, os institutos têm orientações para a participação nos sacramentos e em práticas comunitárias saudáveis”, afirma o relatório. “Esta Congregação pediu para os membros de cada um dos institutos que avaliassem a atual prática litúrgica e de oração. Pedimos a elas que discernissem quais medidas precisam ser tomadas para fomentar ainda mais a relação íntima das irmãs com Cristo e uma espiritualidade comunal sadia com base na vida sacramental da Igreja e nas Escrituras sagradas”.

O texto diz ainda que “a Igreja está continuamente desafiada a ter uma compreensão e uma experiência renovada deste encontro místico. No entanto, deve-se ter cautela para não deslocar Cristo do centro da criação e de nossa fé”. O relatório final afirmou, mais adiante, que a Congregação “pede a todos os institutos religiosos para reverem, com cuidado, suas práticas espirituais e seu ministério, garantindo que estes estejam em harmonia com o ensinamento católico acerca de Deus, da criação, Encarnação e Redenção”.

O relatório também falou sobre aquelas que cresceram com um frágil sentido comunitário e que, agora, buscam literalmente viver juntas. Estas mulheres também desejam uma prática mais moderna, desde vestir um hábito a usar uma cruz na lapela.

“Em geral”, diz o texto do relatório, “as candidatas à vida religiosa apostólica tendem a ser mais velhas, com mais instrução e mais culturalmente diversas do que no passado. As responsáveis pelas vocações e formação entrevistadas observaram que as candidatas, muitas vezes, desejam a experiência de viver em comunidades formativas e muitos anseiam ser reconhecidas externamente como mulheres consagradas. Este é um desafio particular presentes nos institutos cujo estilo de vida não enfatiza tais aspectos da vida religiosa”.

“Para as religiosas nos EUA, a expressão da vida comunitária é variada, indo desde comunidades compostas de muitos indivíduos que vivem uma vida comum estruturada a indivíduos que vivem sozinhos ou com uma outra irmã, de seu próprio instituto ou de outro. A maioria das religiosas que moram sozinhas assim o fazem por motivos de ministério ou de saúde, e tanto estas pessoas quanto os seus institutos estão compromissados com apoio, comunicação e contribuição mútuos para com a vida da comunidade”, diz o texto. “Exortamos os institutos a refletirem profundamente sobre a experiência vivida da dimensão comunitária de suas vidas consagradas e a dar passos, com coragem, no sentido de fortalecer as suas comunidades de forma que possam se tornar, ainda mais, sinais convincentes da comunhão em Cristo”.

A Congregação para os Institutos de Vida Consagrada pediu que “os institutos religiosos avaliassem os seus programas de formação iniciais e continuados, certificando-se de que eles forneçam uma preparação teológica, humana, cultural, espiritual e pastoral sólida, que dê atenção especial à integração harmoniosa de todos estes variados aspectos”.

Agora, o desafio da Igreja é lidar com a mágoa que surgiu, já que o chamado da Igreja para as visitações pareceu desconsiderar o que dezenas de milhares de irmãs haviam realizado, seja no passado ou no presente.

As irmãs se irritaram quando a visitação procurou obter, inicialmente, informações financeiras, quando muitas das ordens não disponibilizaram tais dados.

Histórias envolvendo irmãs que estavam sendo mal pagas ou que foram demitidas sumariamente por um pastor recém-nomeado feriram as relações entre as autoridades eclesiásticas e algumas irmãs em particular. Há muitas histórias de tratamento injusto que estas irmãs acabaram vivenciando ou, pelo menos, ouvindo.

“Apesar de uma gestão cuidadosa, a maioria dos institutos relataram uma perda significativa e permanente de renda, por muitas razões. Entre elas estão as consequências de longo prazo de as religiosas virem sendo insuficientemente recompensadas pelo ministério que realizam. A atual diminuição no número de membros na maioria dos institutos resulta em menos irmãs recebendo salários ou remuneração. Religiosas idosas trabalhando como voluntárias não recebem remuneração pelo serviço prestado”, acrescentou o texto. “Além disso, muitas das irmãs que atuam junto aos pobres e marginalizados são parcial ou inteiramente subsidiadas pelos seus institutos. Algumas irmãs que trabalham nas estruturas eclesiais recebem salários relativamente baixos ou perderam as suas posições com a diminuição das instituições a que servem”.

O texto do relatório acrescentou ainda que “em muitos institutos, o planejamento a longo prazo para a assistência das irmãs idosas, aposentadas e enfermas é uma das principais prioridades”. Diz que “um grande número de institutos religiosos recebem auxílio através do National Religious Retirement Office – NRRO. Esta organização realiza um apelo anual, conduzido em nível paroquial, que angaria a maior quantidade de donativos de todas as coletas dizimais em nível nacional. Desde a sua criação em 1988, o NRRO distribuiu mais de U$ 500 milhões a institutos religiosos femininos para a assistência das irmãs idosas e enfermas. O respeito e a gratidão dos católicos americanos pelas religiosas estão clara e concretamente demonstrados nesta manifestação de apoio. Apesar da gestão responsável e assistência do NRRO, muitos institutos ainda enfrentam dificuldades neste sentido”.

A Congregação para os Institutos de Vida Consagrada “encoraja todos os institutos religiosos em seus esforços a administrar, com sabedoria, os seus recursos, a fim de suprir as necessidades de seus membros e levar adiante a missão evangelizadora da Igreja”, diz o relatório. “Ao mesmo tempo, pedimos a todas as religiosas, por seus testemunhos individuais e grupais da pobreza evangélica, que ouçam o apelo do Papa Francisco para imitar a Cristo, que se tornou pobre e sempre esteve próximo dos pobres, de forma que possamos contribuir, realmente, para o desenvolvimento integral dos membros mais negligenciados da sociedade”.

O desafio da relação com os pastores também atraiu interesse.

“Várias irmãs trouxeram ao Visitador Apostólico o desejo de um maior reconhecimento e apoio, por parte dos pastores, para com a contribuição das religiosas na Igreja”, lê-se no documento. “Elas observaram a necessidade permanente de um diálogo honesto com os bispos e o clero como um meio de esclarecer o papel delas na Igreja e fortalecer o testemunho e eficácia delas como fiéis aos ensinamentos e à missão da Igreja”.

Os problemas citados no relatório são reconhecidos pela maioria das religiosas. Será que elas conseguem viver o que dizem os seus estatutos/constituições no dia a dia, por exemplo, ressaltando a devoção à missa e às Escrituras? As jovens querem uma comunidade distintiva e vestes diferenciadas para pô-las à parte das demais mulheres leigas, sendo assim “contraculturais”.

As ordens religiosas estão prontas para garantir estes elementos? Elas precisam garanti-lo? Asordens religiosas podem acomodar tanto as novas irmãs quanto as mais velhas? O Vaticano poderá cumprir as promessas de incluir as mulheres nas tomadas de decisão?

Uma colaboração mais próxima?

A Congregação para os Institutos de Vida Consagrada fez um pedido de reconciliação quando prometeu que “o próximo Ano da Vida Consagrada é uma ótima oportunidade para todos nós dentro da Igreja – religiosos, religiosas, clero e leigos – no sentido de darmos passos em direção ao perdão e reconciliação que oferecerão um testemunho radiante e atraente de comunhão fraternal a todos”.

A Congregação refirmou o desejo de “fortalecer o espírito de comunhão eclesial em nosso contato direto com as conferências das principais superioras religiosas, bem como com as superioras e membros dos institutos em particular”. “Expressamos a nossa esperança de que, juntos, podemos acolher este momento presente como uma oportunidade para transformar a incerteza e hesitação numa confiança colaborativa, de forma que o Senhor possa nos conduzir adiante na missão que nos confiou em nome das pessoas a que servimos”.

A Congregação para os Religiosos demonstrou também esperança quando afirmou, no relatório, que o “Papa Francisco pediu que o nosso dicastério, em estreita colaboração com a Congregação para dos Bispos, atualizasse o documento curial ‘Mutuae Relationes’ referente à colaboração entre os bispos e religiosos/as, de acordo com a determinação da Igreja de fomentar a comunhão eclesial, o que todos nós desejamos”.

As mulheres estarão envolvidas?

O relatório final da Visitação Apostólica também afirmou que “nós acolhemos, com alegria, as muitas declarações recentes do Papa Francisco sobre as contribuições indispensáveis e únicas das mulheres à sociedade e à Igreja. Na [exortação apostólica] ‘Evangelii Gaudium’, o Santo Padre prontamente reconheceu que ‘muitas mulheres partilham responsabilidades pastorais com os padres, ajudando a orientar as pessoas, famílias e grupos, e oferecendo novas contribuições para a reflexão teológica. Precisamos, porém, criar oportunidades mais amplas para uma presença feminina mais incisiva na Igreja”.

Mais adiante, o texto declara que esta “Congregação tem o compromisso de realizar a determinação do Papa Francisco de que o ‘gênio feminino’ encontre expressão nos vários ambientes onde decisões importantes são feitas, tanto na Igreja como nas estruturas sociais”. Acrescentou ainda que “continuaremos a trabalhar para ver que as religiosas competentes estarão ativamente envolvidas no diálogo eclesial concernente ao ‘papel possível das mulheres nas tomadas de decisão em diferentes segmentos da vida da Igreja”.

Como pessoas de esperança, só poderemos avançar.

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