Para Moscou é hora de responder às aberturas ecumênicas do Papa Francisco

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15 Dezembro 2014

Em sua recente visita a Bartolomeu I (28-30 de novembro de 2014), o Papa Francisco sublinhou o ecumenismo do sangue, capaz de superar as dificuldades dos teólogos; mostrou proximidade a Kirill, o patriarca ortodoxo de Moscou; propôs novas vias de unidade superando o ‘uniatismo’. Para o Patriarcado russo é tempo de dar passos além do impasse.

A reportagem é de Hieromonaco Ioann, publicada pelo portal Asia News, 11-12-2014. A tradução é de Benno Dischinger.

Não se pode esperar”, assim se intitulava aos 4 de dezembro um longo artigo no sítio ortodoxo russo bogoslov.ru, assinado pelo Hieromonaco Ioann (Giovanni Guaita), no qual – após haver reassumido os pontos salientes da visita do Papa ao Patriarca de Constantinopla – se reflete sobre a urgência também para a Igreja ortodoxa de superar o “impasse”, no qual se encontra o diálogo ecumênico. O hieromonge Ioann, que por anos trabalhou no Departamento para as relações externas do Patriarcado de Moscou, faz notar como o Chefe da Igreja católica esteja há tempo lançando sinais a Moscou para superar os obstáculos que dividem as duas comunidades. Tanto que também sobre a questão dos uniatas (os Greco-católicos da Ucrânia, com rito oriental, mas fiéis ao Papa) “pela primeira vez um romano pontífice expressou uma opinião que coincide com a posição dos ortodoxos”. O artigo lança a interrogação sobre a resposta da Igreja russa ao apelo de Francisco: “Não se pode esperar: a unidade é um caminho, um caminho que se deve fazer, que se deve fazer juntos”.

Asia News repropõe em seguida, numa tradução do russo, alguns passos do artigo. Uma síntese mais ampla será publicada no número de Asia News de janeiro de 2015. Proximamente, na Itália, a edição integral do artigo será publicada pela revista Il Regno.

No seu discurso pronunciado no final da liturgia na catedral patriarcal de San Giorgio al Fanar, sede do Patriarcado de Constantinopla, o Pontífice... de modo extremamente simples e claro, conectou o diálogo teológico entre católicos e ortodoxos, que nos últimos tempos parece encontrar-se numa situação de impasse, com a componente carismática, pessoal e espiritual da busca da unidade entre a tradição cristã do Oriente e aquela do Ocidente.

Quero assegurar a cada um de vós – declarou depois o Papa com convicção – que, para chegar à meta suspirada da plena unidade, a Igreja católica não pretende impor alguma exigência”. É aqui oportuno notar que o Papa Francisco, desde o início do seu pontificado... se apresentou “à cidade e ao mundo”, não como pontífice ou Papa, mas como o “bispo da Igreja de Roma, que preside na caridade”.

Na opinião de quem escreve, a primeira, improvisada saudação do novo Pontífice aos romanos da sacada de São Pedro, não somente mostra claramente os seus dotes humanos e espirituais, mas contem em germe sua eclesiologia... As palavras do primeiro discursinho do Balcão das Bênçãos da Basílica vaticana representam algo mais do que a simples expressão da humildade cristã de Jorge Maria Bergoglio: elas refletem sua compreensão do primado como serviço na caridade. Dificilmente, na história da Igreja católica dos últimos séculos poderão ser encontrados outros exemplos de Pontífices romanos que de maneira tão explícita se tenham qualificado exclusivamente como “bispo de Roma”. 

Durante o vôo de retorno a Roma, respondendo à pergunta de um jornalista russo sobre as perspectivas de diálogo com o Patriarcado de Moscou, o Papa Francisco disse, com sua costumeira e surpreendente simplicidade: “Antes direi algo sobre toda a Ortodoxia, e depois “chegarei” a Moscou. Eu creio que com a Ortodoxia estejamos a caminho... O que devemos esperar? Que os teólogos se ponham de acordo? ”...

Sempre na conferência de imprensa no avião, o Papa disse “que talvez alguém não possa entender, mas... As Igrejas católicas orientais têm direito de existir, é verdade. Mas, o uniatismo é uma palavra de outra época. Deve-se encontrar outro caminho”. De tal modo, falando com os jornalistas, o Papa, com uma só frase, poder-se-ia dizer, removeu a pedra de tropeço entre ortodoxos e católicos existente já há muitos séculos (a primeira União, de Lion, remonta a 1274), e que nos últimos tempos se tornara o maior obstáculo ao diálogo. Pela primeira vez um Pontífice romano expressou sobre esta diatribe uma opinião que coincide com a posição dos ortodoxos. Nos últimos tempos a Igreja ortodoxa russa insiste com sempre mais frequência no fato que no futuro a questão do primado, no quadro da Comissão mista para o diálogo teológico, deverá ser enfrentada paralelamente à avaliação do fenômeno do uniatismo. Pode-se dizer que aos 30 de novembro de 2014 a Igreja católica não só aceitou as condições postas pela Igreja russa, mas o seu chefe supremo com a própria inesperada declaração desaprovou o fenômeno do uniatismo.

Após uma declaração do gênero, sem precedentes, O Papa Francisco prosseguiu sua conversação com os jornalistas e com toda sinceridade disse sobre o encontro com o Patriarca Kirill: “Nestes últimos tempos, com o problema da guerra, o pobrezinho tem tantos problemas ali que a viagem e o encontro com o Papa passou a um segundo plano. Mas ambos queremos encontrar-nos e queremos ir em frente”. O Papa mostrou ter consciência do problema da oposição interna da parte dos ultra-conservadores que existe em ambas as Igrejas, e sublinhou a importância que ortodoxos e católicos se ponham de acordo sobre a data da Páscoa e a festejem conjuntamente. Em toda a Igreja, segundo o Papa Francisco, os conflitos internos nascem em consequência de certa “introversão” espiritual, quando a Igreja é auto-referencial, dobrada sobre si mesma e os próprios problemas. 

Portanto: “Não se pode esperar: a unidade é um caminho, um caminho que se deve trilhar, que se deve fazer juntos”, diz o bispo de Roma Francisco. Reagirá a Igreja ortodoxa russa a estas palavras? Ou a voz dos problemas internos ressoará para nós mais forte do que a prece do Salvador pela unidade dos seus discípulos e dos seus seguidores nos séculos que estão por vir?

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