Os reais custos da fratura hidráulica

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Por: André | 05 Dezembro 2014

“Os resultados de Bamberger e Oswald mostraram que os moradores locais sofriam danos novos e graves em sua saúde, bem-estar e meios de vida após o início dos trabalhos de fratura hidráulica. Puderam documentar que ‘animais e humanos tinham sintomas que se relacionam no tempo com as operações de fratura para encontrar gás e petróleo’. Em muitos dos casos, puderam também identificar prováveis vias de exposição às toxinas das perfurações”, escreve Allison Wilson, em artigo publicado no sítio CounterPunch, 30-11-2014. A tradução é de André Langer.

 
Fonte: http://bit.ly/15QlIxR  

Allison Wilson é diretor científico do The Bioscience Resource Project.

Eis o artigo.

Os primeiros pesquisadores a documentarem de forma sistemática as doenças do gado, dos animais domésticos e das pessoas que vivem perto dos lugares onde estão sendo realizadas fraturas hidráulicas  foram Michelle Bamberger e Robert Oswald. Bamberger, veterinária, e Oswald, professor de medicina molecular na Universidade Cornell, serviram-se de um enfoque de estudo de caso – em lares individuais – para encontrar os possíveis efeitos (Bamberger e Oswald 2012).

Já se sabe que muitas das substâncias químicas utilizadas nas perfurações são cancerígenas, são interruptores endócrinos ou contêm outros tipos de toxinas (Colborn et al. 2011). Os estudos de Bamberger e Oswald, realizados durante o atual boom das fraturas hidráulicas, descobriram graves efeitos adversos, entre eles problemas respiratórios, reprodutivos e relacionados ao crescimento dos animais e todo um espectro de sintomas nos seres humanos que denominaram de “síndrome do gás de xisto”. Em última instância, sua pesquisa levou-os a considerar implicações mais amplas das fraturas hidráulicas na agricultura e no sistema alimentar (Bamberger e Oswald 2012 e 2014).

Seu novo livro, The Real Cost of Fracking: How America’s Shale Gas Boom Is Threatening Our Families, Pets, and Food descreve os resultados desta pesquisa. Entretanto, é mostrando a capacidade de penetração dos efeitos nocivos das perfurações na vida das pessoas que Bamberger e Oswald transmitem melhor seus verdadeiros custos.

Por que incluir animais?

A estratégia de incluir animais em sua pesquisa baseou-se na suposição de que os ciclos de vida mais curtos e a maior exposição dos animais aos contaminantes convertem-nos em “sistemas precoces de alerta” diante dos riscos ambientais (Reif 2011, Rabonowitz et al. 2010, Van der Schalie et al. 1999). Além disso, ao serem muitas vezes utilizados para a alimentação, os animais expostos ou doentes poderiam converter-se diretamente em um risco para o sistema alimentar humano.

Estudos detalhados de caso

Em sua publicação de 2012, Bamberger e Oswald reuniram os resultados de 24 estudos de caso realizados em seis Estados dos Estados Unidos onde eram realizadas fraturas hidráulicas na tentativa de encontrar gás. Documentaram as incidências na saúde experimentadas por pessoas e animais que viviam perto dos lugares fraturados e identificaram também as possíveis vias de exposição aos elementos químicos utilizados nas perfurações. Eles publicaram estes casos e a partir de então vêm discutindo suas implicações em revistas científicas (Bamberger e Oswald 2012; 14a).

The Real Cost of Fracking descreve claramente essas descobertas. Entretanto, o livro organiza-se em torno de experiências de primeira mão com animais e pessoas implicadas em sete desses estudos de caso. Essas experiências referem-se à morte de bezerros e à imposição de quarentena aos rebanhos após um vazamento das águas residuais; os touros e os cachorros de Terranova apresentavam contínuos problemas reprodutivos; uso de esteróides com os cavalos ao apresentarem problemas respiratórios. Os autores descobriram crianças com níveis elevados de arsênico no organismo, os adultos sofriam de perda de peso espetaculares e famílias inteiras sofriam da “síndrome do gás de xisto” (ardência nos olhos, dor de garganta, dor de cabeça, hemorragias nasais, vômitos, diarreia, erupções cutâneas). Alguns moradores não podiam entrar em seus lares sem ficaram gravemente doentes e outros perderam seus meios de vida baseados na agricultura e na pecuária.

Durante suas pesquisas, Bamberger e Oswald comprovaram também a indiferença exibida pelo governo e como as táticas utilizadas pela indústria prejudicavam a saúde das pessoas e criavam-lhes problemas financeiros. Essas táticas incluem o segredo sobre os agentes químicos utilizados nas fraturas, o que dificulta um tratamento médico eficaz (McDermott-Levy et al. 2003). Outras incluem assédio e intimidação dos moradores que protestam.

Obstáculos à pesquisa científica e às “provas de nocividade”

Ao expor estas histórias, Bamberger e Oswald descreveram as complexidades de ter que desenvolver uma pesquisa em lugares industriais ativos operados por uma indústria secreta. Por exemplo, os acordos não divulgados ocultam dados potencialmente úteis. Quando as vítimas das fraturas hidráulicas são financeiramente indenizadas por suas perdas, muitas vezes se veem obrigadas a assinar um tipo de acordo que os impede de revelar ao público as doenças ou outras perdas que estejam sofrendo e que estão relacionadas com as fraturas hidráulicas.

Idealmente falando, como prova de nocividade, os pesquisadores poderiam vincular determinados produtos químicos com determinados sintomas de doenças. Isso exigiria a realização de testes químicos para demonstrar que uma determinada substância química estava ausente antes que as fraturas hidráulicas começaram a ser feitas, e que, no entanto, apareceu após o início das mesmas. Os pesquisadores precisariam então estabelecer uma provável via de exposição (isto é, beber água contaminada com a substância química). E, por último, controles independentes de saúde para confirmar que os sintomas das doenças não existiam antes da exposição, mas que apareceram depois.

Além da existência dos acordos não divulgados, The Real Cost of Fracking destaca outras barreiras ao estabelecer tais vínculos. Em primeiro lugar, não há disposições para que se possa realizar provas químicas sistemáticas do ar, solo ou água nos lugares de perfuração e seus arredores. Nem tampouco um monitoramento sistemático da saúde de nenhum tipo. Além disso, sem uma revelação total dos produtos químicos utilizados em cada lugar específico de perfuração, os pesquisadores, veterinários e médicos não podem saber com segurança quais produtos químicos ou efeitos sobre a saúde devem testar.

Os necessários testes sistemáticos ambientais e de saúde em grande escala só podem ser realizados com o apoio de governos e reguladores. A fim de servir ao interesse público, devem ser realizados por uma fonte de confiança e os resultados devem estar à livre disposição. Contra toda lógica, ao não se requerer que esses testes sejam realizados, reguladores e funcionários do governo unem-se à indústria para proclamar que não se demonstrou a existência de uma “prova de nocividade” na fratura hidráulica.

Correlações da fratura hidráulica com problemas de saúde

Apesar desses obstáculos, os resultados de Bamberger e Oswald mostraram que os moradores locais sofriam danos novos e graves em sua saúde, bem-estar e meios de vida após o início dos trabalhos de fratura hidráulica. Puderam documentar que “animais e humanos tinham sintomas que se relacionam no tempo com as operações de fratura para encontrar gás e petróleo”. Em muitos dos casos, puderam também identificar prováveis vias de exposição às toxinas das perfurações. A água dos poços é uma possível via e os autores assinalam a pesquisa de Osborn et al. (2011) que descobriu que “os poços de água nas áreas próximas aos lugares onde se estava operando com gás de xisto estavam contaminados de metano, que possui a assinatura isotópica do gás de xisto”. Estes resultados sugerem que, além do metano liberado pelas perfurações, os poços podem estar contaminados com outros produtos químicos tóxicos.

 
Fonte: http://bit.ly/1BgDerQ  

Reforçando a correlação entre fratura hidráulica e problemas de saúde, Bamberger e Oswald descobriram que em algumas clínicas de saúde da Pensilvânia e do Colorado informaram que alguns pacientes que viviam perto dos lugares de fratura haviam sofrido também da “síndrome do gás de xisto”. Além disso, desde a publicação de seus resultados, outros pesquisadores relataram o aparecimento de problemas de saúde relacionados com a fratura (Bamberger e Oswald 2014b; Macey et al. 2014; McDermott-Levy et al. 2013; Hill 2013; Food and Water Watch Report 2013). No entanto, é provável que estes estudos não identifiquem todos os efeitos nocivos da fratura. Em particular, os problemas reprodutivos dos animais documentados por Bamberger e Oswald sugerem que é necessário que as pessoas que vivem e trabalham perto das perfurações se submetam a uma série de testes para verificar as consequências sobre a reprodução, assim como outros efeitos a longo prazo na saúde.

Terras agrícolas, alimentos e fraturação hidráulica

Bamberger e Oswald destacam-se pela transmissão dos efeitos nocivos da fraturação hidráulica nos habitantes locais. No entanto, a síntese de seus dados com a de outros pesquisadores leva-os a uma preocupação muito mais ampla. Sua análise sugere que se a fratura hidráulica continuar a se expandir provocará um impacto negativo grave na agricultura e na qualidade dos alimentos nos Estados Unidos e talvez no mundo inteiro.

As operações de fratura hidráulica localizam-se muitas vezes em fazendas ou perto delas. Portanto, os pastos, as terras de cultivo, os arroios, os estanques e os poços correm risco de contaminação com as toxinas utilizadas ou liberadas durante a fratura hidráulica. É sabido que pode haver filtrações e derramamentos durante a perfuração de poços, a fratura hidráulica de alta pressão ou o deslocamento dos dejetos. As vias de exposição incluem também os vazamentos de tubos e o armazenamento intencionado de resíduos agrícolas. Os animais podem beber água contaminada e pastar em pastagens contaminadas. As plantações podem ser cultivadas em solo contaminado. Além disso, a má qualidade do ar pode impactar na saúde dos animais. A qualidade do ar deteriorou-se também por causa do aumento do tráfego rodoviário, de lagoas de águas residuais a céu aberto, de produtos químicos liberados durante a queima intencional de gases e pela contínua presença de benzeno nos lugares onde estão sendo feitas as perfurações.

Estas ameaças ao sistema alimentar são agravadas com a acumulação de produtos que emanam do atual sistema alimentar industrial e com a ausência de testes adequados e de regulação do fornecimento de alimentos. Além disso, as pressões financeiras animam os granjeiros a permitir que os animais doentes entrem no sistema alimentar. Por impactar as plantações e o gado através da terra, do ar e da água, Bamberger e Oswald enfatizaram que a fratura hidráulica incide tanto na agricultura industrial como na agricultura em pequena escala.

Uma poderosa advertência

Michelle Bamberger e Robert Oswald unem-se a outros importantes cientistas e escritores que se sentem obrigados a falar de forma clara e direta às pessoas. Seu livro, assim como Silent Spring, de Rachel Carson, Living Downstream: An Ecologist’s Personal Investigation of Cancer and the Environment, de Sandra Steingraber, e The China Study, de T. Colin Campbell, chama a atenção para uma crise ambiental e sanitária completamente evitável que, ao contrário, está sendo ignorada, ou escondida, por parte de quem detêm o poder. Esses livros têm um valor especial, devido em parte à qualidade de sua escrita e em parte à autoridade e integridade dos autores e à profundidade de seus conhecimentos.

Como documentam as novas pesquisas, está muito claro que a contribuição do boom da fratura hidráulica para a mudança climática global é muito maior do que originalmente se afirmou (Howard 2014; Schneising et al. 2014). Agora, com The Real Cost of Fracking, Bamberger e Oswald dão voz a todos aqueles cujas vidas e saúde já estão sofrendo as consequências desse boom, ao mesmo tempo que lançam uma advertência para o resto de nós.

Referências:

Adams M.B. (2011) “Land application of hydrofracturing fluids damages a deciduous forest stand in West Virginia.” Journal of Environmental Quality 40.4:1340-1344.

Bamberger M. e R.E. Oswald (2012) “Impacts of gas drilling on human and animal health.” New solutions: a journal of environmental and occupational health policy 22.1: 51-77.

Bamberger M. e R.E. Oswald (2014a) “Unconventional oil and gas extraction and animal health.” Environmental Science: Processes and Impacts 16:1860-1865.

Bamberger M. e R.E. Oswald (2014b) “The Shale Gas Revolution from the Viewpoint of a Former Industry Insider.” New Solutions: A Journal of Environmental and Occupational Health Policy 1.1:1-16.

Colborn T., Kwiatkowski C., Schultz K., e M. Bachran (2011) “Natural gas operations from a public health perspective.” Human and Ecological Risk Assessment: An International Journal 17.5:1039-1056.

Food & Water Watch Report: The Social Costs of Fracking, Setembro 24th, 2013. O relatório documenta a relação entre o aumento dos acidentes com veículos motorizados e os graves problemas de saúde pública.

Hill E.L. (2013) “Shale Gas Development and Infant Health: Evidence from Pennsylvania.” Charles H. Dyson School of Applied Economics and Management, Cornell University, Working Paper.

Howarth R.W. (2014) “A bridge to nowhere: methane emissions and the greenhouse gas footprint of natural gas.” Energy Science & Engineering 2.2:47-60.

McDermott-Levy R., Kaktins N. e B. Sattler (2013) “Fracking, the environment, and health.” The American Journal of Nursing 113.6: 45-51.

Macey G.P., Breech R., Chernaik M., Cox C., Larson D., Thomas D. e D.O. Carpenter (2014) “Air concentrations of volatile compounds near oil and gas production: a community-based exploratory study.” Environmental Health 13:82. doi: 10.1186/1476-069X-13-82.

Osborn S.G., Vengosh A., Warner N.R. e R.B. Jackson (2011) “Methane contamination of drinking water accompanying gas-well drilling and hydraulic fracturing.” Proceedings of the National Academy of Sciences 108.20: 8172-8176.

Rabinowitz, P.M., Scotch M.L. e L.A. Conti (2010) “Animals as sentinels: using comparative medicine to move beyond the laboratory.” ILAR journal 51.3: 262-267.

Reif, J.S. (2011) “Animal sentinels for environmental and public health.” Public Health Reports 126(Suppl 1):50-57.

Sang, W., Stoof C.R., Zhang W., Morales V.L., Gao B., Kay R.W., Liu L., Zhang Y. e T.S. Steenhuis (2014) “Effect of Hydrofracking fluid on colloid transport in the unsaturated zone.” Environmental Science & Technology 48:8266-8274.

Schneising O., Burrows J.P., Dickerson R.R., Buchwitz M., Reuter M. e H. Bovensmann (2014) Remote sensing of fugitive methane emissions from oil and gas production in North American tight geologic formations. Earth’s Future. doi: 10.1002/2014EF000265.

Van der Schalie W.H., Gardner Jr. H.S., Bantle J.A., De Rosa C.T., Finch R.A., Reif J.S. e R.H. Reuter et al. (1999) “Animals as sentinels of human health hazards of environmental chemicals.” Environmental health perspectives 107. 4: 309-315.

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